Capítulo 33: Conflito
— Pelo menos você tem um pouco de consciência! — disse Gong Hui, pegando o grande pacote de petiscos das mãos de Luo Yao. Ela lançou-lhe um olhar divertido e saiu correndo, sem sequer dizer um “obrigada”.
No fundo, sentia que, entre eles, não eram necessários esses formalismos.
— Gong Hui, você poderia comer menos doces? — perguntou Luo Yao.
— Por quê? — indagou ela.
— Engorda...
Gong Hui virou-se, agitando o punho pequeno. Já estava acostumada com o jeito mordaz de Luo Yao; no início, aquilo era insuportável, mas, com o tempo, tornou-se normal. Passou a enxergar isso como algo típico entre pessoas íntimas e familiares, pois, com os outros, Gong Hui era extremamente educada, quase inacessível.
— Luo Yao?
— Olá, chefe Shen — respondeu Luo Yao ao se virar, sorrindo para Shen Yu, que se aproximava correndo. Shen Yu havia acabado de ser transferido para o departamento administrativo da base de treinamento, assumindo o cargo de chefe.
Na verdade, era ele quem comandava o departamento; o diretor Wang Anxiang acumulava o cargo de prefeito de Linli, e as tarefas administrativas já o deixavam sobrecarregado, sem tempo para cuidar da base de treinamento.
— Está me criticando, não é? — brincou Shen Yu.
— Como ouvi dizer que você foi promovido, queria encontrar uma oportunidade para celebrar — respondeu Luo Yao, rindo e abrindo a gola do casaco, revelando dois frascos de bebida.
— Ouvi dizer que você pediu licença hoje para sair?
— Sim, fui comprar alguns itens de uso diário e aproveitei para comer algo diferente — respondeu Luo Yao. Era comum que os alunos da base, ao pedirem licença, saíssem para essas coisas.
— Soube que seu pai fugiu para o interior quando Nanjing caiu. Tem alguma notícia dele? — perguntou Shen Yu.
— Pedi ao meu tio que procurasse por ele, mas nada soube — Luo Yao respondeu, com tristeza. Afinal, era seu pai; impossível não se preocupar.
Shen Yu assentiu: — Quer que eu peça a alguém para procurar?
— Não seria demais?
— Não há problema, é só buscar informações, nada complicado. — Shen Yu sorriu. — Conte-me sobre seu pai, se possível, arranje uma foto. Assim fica mais fácil perguntar.
— Você já sabe tudo sobre ele, não tenho foto, mas posso descrevê-lo.
— Serve. Vamos ao meu quarto conversar — disse Shen Yu, colocando a mão no ombro de Luo Yao, e ambos saíram juntos.
Shen Yu tinha um quarto individual, bem melhor que os alunos, que se acomodavam em oito por quarto, o que era até considerado um bom padrão no exército nacional.
Amendoim, carne de boi cozida...
Luo Yao, como um mágico, tirou comida do bolso. Por fim, colocou duas garrafas de baijiu, uma bebida local de Linli, chamada Yunwu, vendida a granel.
Luo Yao, com habilidade, pegou copinhos do armário, serviu a ambos e disse:
— Chefe Shen, experimente.
— Somos irmãos, pra que tanta formalidade? — brincou Shen Yu.
— Agora você é instrutor e eu aluno, não podemos quebrar as regras — respondeu Luo Yao, sorrindo.
Shen Yu conhecia seu temperamento e não fez caso. Pegou o copo, cheirou a bebida e abriu um sorriso:
— Boa bebida! Onde comprou?
— Ah, isso...
— Vai guardar segredo? Está querendo reservar umas para oferecer ao meu quarto irmão? — Shen Yu disse. — Digo logo: ele é exigente, não gosta de baijiu, prefere bebidas estrangeiras, whisky, XO e afins.
— Não ouso oferecer ao professor Yu — respondeu Luo Yao. Yu Jie, embora nunca tenha dito formalmente que aceitaria Luo Yao como aluno, era bastante rigoroso com ele, um verdadeiro mestre. Enquanto os demais dedicavam tempo ao lazer, Luo Yao era chamado por Yu Jie para aprender mais sobre espionagem.
Claro, Yu Jie só ensinava o que dominava: venenos e explosivos. Nos outros campos, só tinha conhecimento superficial. Mas ele fornecia recursos.
Não importa o que Luo Yao quisesse aprender, Yu Jie arranjava os recursos necessários — algo que os outros instrutores da base não podiam fazer.
— Luo Yao, tenho um assunto que só você pode ajudar — disse Shen Yu, bebendo um gole e jogando alguns amendoins na boca.
Luo Yao ficou surpreso:
— O quê?
Yu Jie era cunhado de Shen Yu; na base, Shen Yu era respeitado, nada parecia impossível para ele, muito menos pedir a ajuda de um simples aluno.
— Preciso que entregue uma carta — respondeu Shen Yu, corando de repente, constrangido.
— Uma carta de amor? Para quem? — Luo Yao, com experiência de duas vidas, percebeu logo. Shen Yu, alto e influente, nunca se casou, provavelmente sequer namorou; era um novato em assuntos do coração.
— Para Jiang Pingping.
Luo Yao lembrou-se: Jiang Pingping era uma das alunas do grupo de Gong Hui, transferida da filial de Xiangcheng da Academia Militar Central para o curso de treinamento em Linli. Era local de Xiangcheng, jovem, apenas dezoito anos, muito tranquila e bonita.
— Como vocês se conheceram?
— Bem... — Shen Yu ficou envergonhado; aquele vigor que trazia ao ensinar técnicas de ação sumiu.
— Tudo bem, não vou perguntar. Entregue-me a carta. — Luo Yao não gostava de se intrometer na vida dos outros, principalmente em questões amorosas.
A base não proibia romances entre alunos; o veto ao casamento ainda não havia sido promulgado. Luo Yao talvez estivesse confundindo; era comum que oficiais da inteligência escolhessem “esposas de trabalho” entre as alunas. Namorar era permitido, desde que fosse dentro da organização. Casar com alguém de fora era proibido, essa regra já estava escrita.
Luo Yao não via problema em ajudar; se Shen Yu tinha chances ou não, era outra história. Mas Shen Yu tinha boa aparência e caráter correto; se a moça não estivesse comprometida, não haveria grandes obstáculos.
— Obrigado — agradeceu Shen Yu. Sendo instrutor, precisava cuidar da reputação, evitando problemas para o cunhado. — E você, como está com Gong Hui? Vi que ela veio te procurar, comprou muitas coisas para ela, não foi?
— Bem...
Luo Yao pensava em como explicar a relação com Gong Hui quando ouviu batidas urgentes na porta.
— Instrutor Shen, instrutor Shen...
Era alguém procurando Shen Yu; Luo Yao não se intrometeu, mas reconheceu a voz do jovem do seu grupo, o Pequeno Nordeste, e foi abrir a porta.
— Instrutor Shen, capitão, você também está aqui? — O Pequeno Nordeste entrou, surpreso ao ver Luo Yao.
— O que aconteceu? — Shen Yu levantou-se, com expressão séria.
— Instrutor Shen, capitão Luo, aconteceu algo grave: Yan Ming levou uma surra do instrutor Jin e está vomitando sangue, foi levado à enfermaria! — disse o Pequeno Nordeste, de uma vez.
— O quê? — Ambos ficaram alarmados. Pensaram: isso é ruim. Os instrutores, para impor autoridade, recorriam aos métodos punitivos do antigo exército.
Mas os alunos desta turma eram, em sua maioria, pessoas instruídas, que prezavam pela igualdade e liberdade, com ideias próprias. Não aceitavam apanhar em silêncio, havia muitos conflitos, até brigas. Alguns instrutores eram grosseiros, falavam palavrões e piadas obscenas; os homens toleravam, mas as alunas não.
As discordâncias eram grandes, os conflitos profundos, constantemente havia problemas.
Se não houvesse organização entre os alunos, já teria acontecido algo sério.
Os instrutores não sabiam se conter; viam os alunos como fáceis de dominar, e, durante o treinamento, exageravam ainda mais, insultos e punições físicas eram rotina.
Quem se destacava, apanhava. Qualquer insatisfação, era castigado com chicote.
Quando um aluno não aguentava e ironizava, acabava de cama na enfermaria por uma semana. Luo Yao já tinha protestado, mas os instrutores eram influentes; Yu Jie, vice-diretor, só podia aconselhar, não podia proibir diretamente.
Afinal, era uma tradição militar.
Se Yu Jie proibisse, poderia ser acusado de seguir ideias comunistas de igualdade entre oficiais e soldados, o que poderia prejudicá-lo.
Na enfermaria.
Deitado na maca de emergência, estava um jovem de cabelo curto, baixa estatura, pálido, com sangue no canto da boca, respirando com dificuldade.
— Diretor Liu, como está? — Shen Yu perguntou ao diretor Liu Ming, da enfermaria.
— Está gravemente ferido. Só posso fazer um atendimento básico aqui; precisa ser levado rapidamente ao hospital da cidade, ao menos para um raio-X — Liu Ming respondeu, tirando o estetoscópio, com expressão séria.
— Levem-no ao hospital agora — ordenou Shen Yu.
Todos se aproximaram para pegar Yan Ming, mas Luo Yao interveio:
— Não mexam, ajudem-no a sentar devagar.
Ninguém sabia o motivo, mas Luo Yao, como capitão, era respeitado, sempre defendia os colegas e tinha prestígio. Todos seguiram suas instruções, levantando Yan Ming com cuidado.
Luo Yao aproximou-se, inclinou-se, encostou o ouvido no peito do rapaz por alguns instantes, virou-se, abriu a mão direita e deu um forte tapa nas costas de Yan Ming.
— Ugh... — Uma grande quantidade de sangue escuro foi expelida pela boca de Yan Ming.
— Quase morri... — disse Yan Ming, antes de deitar-se novamente, mas já não parecia tão sofrido.
— Luo Yao, o que foi isso? — perguntou Shen Yu, surpreso.
— Ouvi a respiração dele anormal, chequei os pulmões, parecia que algo obstruía as vias respiratórias, então arrisquei essa manobra — explicou Luo Yao, preocupado apenas em salvar o colega.
— Você entende disso?
— Foi sorte. Se o mandassem ao hospital assim, talvez não chegasse vivo — respondeu Luo Yao.
Designou dois colegas para acompanharem Yan Ming, junto com um médico e uma enfermeira, até o hospital.
Luo Yao já sabia o motivo do incidente.
No seu grupo, durante a aula de técnicas de imobilização, Yan Ming, criado em família de artes marciais, era arrogante, desprezava os métodos do instrutor Jin Minjie, e, como ambos já tinham se desentendido anteriormente, Yan Ming provocou verbalmente.
Além disso, Jin Minjie era muito duro com os alunos, batia e insultava ao menor erro.
Todos estavam irritados.
Com Luo Yao presente, ele conseguia conter Jin Minjie, que não ousava exagerar no treinamento.
Mas, naquele dia, Luo Yao estava de licença. Sem ele, Jin Minjie aproveitou a oportunidade; Yan Ming, provocado, reagiu de forma imprudente.
O resultado foi esse.