Capítulo 03: Gu Mosheng
Ao abrir a torneira, a água gelada corria sobre o ferimento no canto da boca de Ro Yao. Ele estava machucado, havia sido espancado. O agressor, no entanto, claramente não havia ido até o fim, poupando-o de maiores danos.
Era um aviso.
Se houvesse uma próxima vez, talvez não escapasse com vida.
Ro Yao sabia exatamente quem estava por trás disso: o atual namorado oficial de Han Yun, Hu Yisheng.
A família Hu era a mais rica de Jiangcheng, com negócios espalhados por toda a cidade e influência tanto no submundo quanto nos círculos oficiais. Bastava uma palavra ou uma pequena quantia de dinheiro para que incontáveis pessoas se dispusessem a fazer qualquer serviço para eles.
Diante do espelho, Ro Yao esboçou um sorriso. Desde que decidira se envolver com Han Yun, sabia que enfrentaria situações como essa.
Felizmente, o rapaz não foi cruel o suficiente.
Se aquilo fosse em Xangai, já teria sido jogado no Rio Huangpu para servir de alimento aos peixes. Mas ele não permitiria que isso acontecesse, não era tão ingênuo.
Uma toalha seca foi-lhe entregue por trás.
Era o velho Wu, que o acompanhava por todo lugar.
Se realmente tentassem matá-lo, o velho Wu seria o seu trunfo, garantindo-lhe ao menos uma chance de sobrevivência.
— Obrigado, velho Wu. — Pegou a toalha e sorriu.
O velho Wu resmungou:
— Sorrindo ainda? Olhe seu estado! Se eu não tivesse apitado, nem sei o que teria acontecido com você hoje!
— Não foi nada, só um ferimento superficial. — Ro Yao respondeu com desdém.
— Você realmente precisa fazer isso? Não havia outro jeito? — O velho Wu já estava a par de todo o plano de Ro Yao.
— A organização aprovou minha ideia. Se eu persistir com Han Yun, forçarei Han Liangze a encontrar um jeito de me tirar de Jiangcheng. É a única maneira de conseguir uma vaga no curso especial de treinamento. — Ro Yao enxugou o canto da boca, fazendo uma careta de dor.
O velho Wu franziu a testa:
— Você sabe o quanto tive que argumentar com o chefe Qian por causa dessa sua ideia? Achei que teria um plano melhor. Com sua relação com Han Liangze, pedir uma vaga não seria difícil. Por que dar toda essa volta?
— Não seria difícil, mas se eu conseguir a vaga facilmente, minhas motivações ficariam comprometidas. Isso seria um risco, então preciso eliminar essa suspeita desde o início. — Ro Yao já não era mais o mesmo de antes; seus pensamentos tornaram-se mais complexos. Precisava considerar não só sua entrada no curso especial, mas também possíveis problemas futuros.
Como, por exemplo, uma investigação política ou o passado de Han Liangze no Japão.
Se não superasse esses obstáculos, poderia não só perder a confiança e o reconhecimento, como até a própria vida. Ele conhecia bem a severidade das regras internas da polícia secreta.
Essa cautela, aliás, mais tarde o salvaria de uma grande crise, mas isso é assunto para outro momento.
— Seu raciocínio faz sentido, mas tem certeza de que Han Liangze vai, de fato, te colocar no curso especial para se livrar de você?
— Sou o único obstáculo para a união entre ele e a família Hu. Se eu insistir em Han Yun e a situação se agravar, ele não achará vantajoso. — Ro Yao analisou. — Han Liangze é um egoísta refinado, resolve tudo com o menor custo possível. Me matar não é a melhor saída. Colocar meu nome na lista do curso especial resolve o problema sem gastar nada.
O velho Wu sorriu:
— Você mal chegou à delegacia e já conhece Han Liangze tão bem assim?
— Tenho estudado ele nos últimos dias. Além disso, ele é meu tio por parte de mãe; cresci ouvindo histórias dele pela minha mãe. — Ro Yao respondeu.
— E com esse machucado, vai trabalhar amanhã?
— Claro. Se eu não for, como o pessoal da delegacia saberá que fui agredido? Nesta situação, não preciso explicar nada; eles mesmos criarão uma versão plausível. Além disso, Hu Yisheng não me matou. Se Han Liangze souber disso, não ousará tentar de novo. Há muita gente de olho no cargo de chefe. Se um concorrente descobrir algo contra ele, perderá a chance, mesmo casando sua filha com a família Hu. — Ro Yao conhecia a fundo o caráter e as intenções de Han Liangze.
...
— Bom dia, Ro Yao! O que aconteceu com seu rosto?
— Não é nada, escorreguei na rua e caí... — Ro Yao cobriu rapidamente a boca e passou apressado pelas pessoas.
— Cair assim machuca a boca desse jeito?
— Ora, Ro Yao, o que houve? Quem te bateu? Deixa eu ver... Assim não pode, estragou o rosto! — Liu Yumei, uma mulher de trinta anos, divorciada e sem filhos, sempre tivera um interesse especial por Ro Yao. Vivia sozinha e a solidão a incomodava.
Ro Yao era jovem, de boa aparência e, acima de tudo, inexperiente.
— Não é nada, senhora Liu, só um arranhão da queda. — Ele, constrangido, retirou o braço do abraço dela.
Essa ideia de Liu Yumei querer conquistar um rapaz jovem? Nem pensar!
— Foi o filho do senhor Hu que mandou te bater? — Ela perguntou com um risinho insinuante, como se tivesse visto tudo.
— Não, não... — Ro Yao desviou, negando veementemente.
— Ro Yao, é melhor desistir dessa ideia. O senhor Hu e Han Yun são perfeitos um para o outro, por que você insiste? — Liu Yumei jogou charme e piscou. — Passe na minha casa hoje à noite. Tenho um remédio milagroso, em três dias seu rosto estará novo.
— Eu... eu tenho plantão hoje à noite, não vou poder. — Ro Yao recusou depressa, tremendo. Sabia bem que Liu Yumei queria devorá-lo vivo, e se fosse à casa dela, talvez não sobrasse nem os ossos.
A liberdade dos costumes na República ele já conhecia.
Por estarem no trabalho, Liu Yumei não ousou ser mais ousada. Disse poucas palavras e voltou para sua mesa, mas continuava a lançar olhares para Ro Yao.
Perto do horário de almoço:
— Ro Yao, o chefe Han quer falar com você!
O secretário de Han Liangze, Dong Cheng, estava de cara fechada, claramente irritado, e não fez questão de ser cordial.
— Irmão Cheng, sabe por que o chefe quer me ver? — Ro Yao perguntou, forçando um sorriso. Ele sabia que, aos olhos de Han Liangze, era apenas um aproveitador interessado em sua filha.
— Não sei.
Dong Cheng acompanhava Han Liangze há tempos e já fora considerado o melhor candidato a genro, mas acabara sendo descartado.
Desprezava profundamente o comportamento insistente e desavergonhado de Ro Yao. Considerava-se um cavalheiro, disposto a competir de modo honesto, sem ressentimentos pela derrota. Mas a audácia de Ro Yao ultrapassava todos os limites e, não fosse Hu Yisheng, já teria lhe dado uma lição.
— Chefe Han, pediu para me ver?
— O que aconteceu com seu rosto? — Han Liangze perguntou friamente, sem disfarçar o desagrado. Estavam a sós, não precisava manter as aparências.
— Não sei, devo ter caído. — Ro Yao sorriu, sem graça.
Han Liangze, com óbvia aversão, repreendeu:
— Ro Yao, não brinque comigo. Só te acolhi e arranjei emprego por consideração à sua mãe, minha prima. É assim que me agradece?
Ro Yao também não se fez de rogado:
— Se é para falar de favores, lembro bem do senhor jurando para meus pais que me daria Han Yun em casamento, fortalecendo ainda mais os laços das famílias. Agora, que subiu na vida, quer fingir que esqueceu?
— Não seja insolente! Veja o estado em que está: bêbado, sem motivação, ainda por cima se machuca. Acha que merece minha filha? — Han Liangze, tomado pela raiva, perdeu o controle.
— O senhor sabe muito bem como me machuquei. Não sou rico nem poderoso como o senhor Hu, que pode até ajudá-lo a tirar o ‘interino’ do seu cargo. Mas se eu for embora, sua filha casar com a família Hu significa o fim da linhagem da família Han. — Ro Yao foi direto ao ponto.
— O que está querendo dizer? — Han Liangze ficou desconcertado, percebendo que Ro Yao havia lido seus pensamentos.
— Enquanto Han Yun não se casar, ainda tenho uma chance. Não vou desistir. — Ro Yao decidiu pressioná-lo um pouco mais.
— Ro Yao, aviso pela última vez: desista. Você e Han Yun nunca vão acontecer. — Han Liangze, furioso, deixou claro seu recado.
Ao sair do escritório de Han Liangze, Ro Yao ouviu o som de uma xícara se estilhaçando no chão.
Era sinal de que seu plano estava funcionando.
...
No dia seguinte, ao chegar ao trabalho, Ro Yao ouviu um boato: na noite anterior, Han Liangze havia convidado o chefe do Departamento de Supervisão, Gu Mosheng, para jantar no restaurante Lao Daxing.
Embora o Departamento de Supervisão fosse subordinado à delegacia, seus líderes vinham quase sempre do setor de inteligência especial. Gu Mosheng, por exemplo, era do Segundo Departamento de Investigação Militar.
Ro Yao sorriu, certo de que sua vaga no curso especial estava praticamente garantida.
Todos sabiam que Han Liangze era pão-duro e raramente oferecia jantares. Convidar alguém como Gu Mosheng só podia ser para discutir sobre as vagas do curso.
Obviamente, se conseguisse o apoio de Gu Mosheng, as chances de Han Liangze ser efetivado como chefe aumentariam. Mas, neste momento, Ro Yao confiava mais em sua própria análise.
Assim que recebesse a lista de indicados, Gu Mosheng faria uma triagem preliminar, investigando a fundo cada candidato. Em seguida, o Departamento de Supervisão provavelmente realizaria uma checagem externa ou até mesmo uma entrevista direta.
Seu histórico era impecável; não tinha nada a temer.