Capítulo 48: O Presente da Pena
— Secretário Mao.
— Quantas vezes eu já disse para não me chamar de Chefe Mao? Pode me chamar de Secretário Mao, ou até de Irmão Mao, mas Chefe Mao soa tão formal, me incomoda — Mao Qiwu fez uma expressão de “Se você continuar, vou ficar bravo”.
Chamá-lo de Irmão Mao era algo que Luo Yao jamais ousaria, então optou pelo termo “Secretário Mao”, embora, na verdade, Mao Qiwu fosse chefe de secretaria.
A maioria dos subordinados costumava chamá-lo de “Diretor Mao”, mas como Luo Yao já se referia a Dai Yunong como “Diretor Dai”, não seria adequado usar o mesmo termo para Mao.
— Secretário Mao, por que tanta pressa em nos chamar de volta de Xiakou? — perguntou Luo Yao.
— Ah, é o seguinte, Luo Yao. Você e Gong Hui encontraram a estação “Fantasma”, um grande feito. O chefe Dai pediu que eu convidasse vocês para um jantar, por isso telefonei ao chefe Tang, da base de Jiangcheng... — respondeu Mao Qiwu, despreocupado.
Luo Yao e Gong Hui se entreolharam.
Pensavam que era algo de suma importância, e afinal, tinham sido chamadas de volta apenas para um jantar.
— Secretário Mao, podemos jantar a qualquer momento. Na verdade, o caso da estação “Fantasma” ainda não terminou, hoje mesmo encontramos uma pequena pista e traçamos um plano... — Luo Yao ponderou e explicou o plano que tinham discutido com Tang Xin.
Quanto mais Mao Qiwu ouvia, mais ficava alarmado, até que não conseguiu mais manter sua compostura.
— Esperem um momento, volto já — disse ele, apressando-se a sair.
— Alô, gabinete? Aqui é Mao Qiwu... — Assim que retornou ao seu escritório, pegou o telefone vermelho da linha direta e discou um número.
— Qiwu, por que está ligando para cá? — logo soou a voz de Dai Yunong do outro lado. Seus movimentos sempre foram misteriosos, poucos sabiam de sua localização.
— Chefe, preciso relatar uma coisa... — Mao Qiwu foi direto ao ponto e contou o plano que Luo Yao acabara de lhe relatar.
— Espere aí, já estou voltando — respondeu Dai Yunong, após um breve silêncio.
— Sim, senhor.
Encontrar a estação “Fantasma” foi apenas o primeiro passo; destruir a rede de espiões japoneses infiltrada era o objetivo maior de Dai Yunong.
Agora, finalmente havia uma perspectiva de sucesso.
Se conseguissem desmantelar de uma vez a rede de espiões em Jiangcheng, isso seria o maior feito desde a fundação do Serviço de Inteligência Militar, certamente renderia a Dai Yunong grande prestígio junto ao Diretor e permitiria superar a Central de Inteligência, seus eternos rivais.
Uma hora depois, Luo Yao e Gong Hui encontraram-se com Dai Yunong.
Na presença de Mao Qiwu, Dai Yunong elogiou Luo Yao com entusiasmo, incluindo também Gong Hui, e mandou que trouxessem uma garrafa de licor especial para comemorar.
— O Secretário Mao já me relatou o plano de vocês, está excelente — Dai Yunong disse, muito satisfeito. — Vocês trabalharam duro nos últimos dias, agora descansem. O resto deixem com os outros, podem ter certeza de que o mérito de vocês será reconhecido.
— Diretor Dai, então nossa missão termina aqui? — Luo Yao perguntou, surpreso, pois tinham apenas começado a desvendar o iceberg por trás da estação “Fantasma”.
— Sim, a tarefa de vocês terminou — confirmou Dai Yunong, tirando do bolso uma caneta Parker dourada e a prendendo no bolso do peito de Luo Yao —. Esta caneta é uma recompensa pessoal minha. Estude com afinco e trabalhe pelo partido e pelo país.
— Muito obrigado, Diretor Dai — Luo Yao recebeu a caneta com respeito. — Diretor Dai, há mais uma coisa que o Secretário Mao não teve tempo de mencionar antes...
— Sim? O que é?
— Consegui convencer o operador japonês Yoshida Shoushan a cooperar conosco. Ele aceitou, desde que providenciemos uma identidade adequada para ele e anunciemos oficialmente a sua morte...
— Como é?! Yoshida Shoushan aceitou cooperar? — A notícia fez o sangue de Dai Yunong subir. Prender um prisioneiro japonês na linha de frente já era dificílimo, mas ali estava um espião japonês, e ainda por cima alguém que eles haviam conseguido virar. A surpresa era imensa.
Mesmo que aquele espião não tivesse tanto valor, a glória que traria seria extraordinária, pelo menos o suficiente para superar a Central de Inteligência diante do chefe.
— Muito bem, Secretário Mao, envie alguém imediatamente para buscá-lo e trate-o bem. Amanhã, mande um carro para levá-los à estação — ordenou Dai Yunong.
— Sim, chefe Dai — respondeu Mao Qiwu.
— Tenham um bom retorno.
...
— Secretário Mao, o que o Diretor Dai quer dizer com isso? Mal começamos o caso e já querem que saiamos? — Gong Hui, sempre direta, resmungou descontente.
— Jovem Gong, existe um ditado: ‘A árvore que se destaca é a primeira a ser derrubada pelo vento.’ Vocês ainda são jovens, terão outras oportunidades — disse Mao Qiwu, sorrindo. Ele entendia bem o pensamento de Dai Yunong.
O mérito, claro, não poderia ficar todo com Luo Yao e Gong Hui. Afinal, a organização inteira não podia ser ofuscada por dois novatos.
Além disso, era uma forma de protegê-los.
Agora, Luo Yao e Gong Hui ainda não eram conhecidos, não chamavam atenção. Isso era favorável ao desenvolvimento deles, enquanto ainda não tinham capacidade de se proteger integralmente.
Se recebessem muitas honras e prêmios agora, talvez isso não ajudasse de fato em seu crescimento.
— Na verdade, Luo Yao, essa também foi uma orientação do seu mestre, Yu Jie — acrescentou Mao Qiwu, virando-se para explicar.
Yu Jie queria temperar e formar o aluno, e Dai Yunong não queria ser o “vilão”, ainda mais sendo o responsável pela turma de treinamento.
— Obrigado, Secretário Mao, entendi — Luo Yao assentiu. Yu Jie temia que ele, ao resolver o caso da estação “Fantasma”, ficasse arrogante e deixasse de aprender com humildade, o que prejudicaria seu futuro.
Além disso, com os cargos que ele e Gong Hui ocupavam, não poderiam mesmo conduzir investigações de tal porte. Faltavam-lhes autoridade e prestígio.
Mesmo Tang Xin, chefe da base de Jiangcheng, talvez não tivesse essa autonomia.
— Está decidido: amanhã cedo voltamos para Linli — concluiu Luo Yao, resoluto. Ele não havia entrado para o serviço militar buscando glória ou riqueza.
De qualquer modo, seu mérito não seria esquecido; quanto ao resto, só poderia aspirar ao que estivesse ao seu alcance. Não tinha porque insistir.
A opinião de Mao Qiwu sobre Luo Yao se elevou ainda mais. Tão jovem e já sabia medir os próprios passos, abrir mão e, o mais importante, não era ganancioso. Isso era raro.
Yu Jie realmente tinha encontrado um bom aluno.
Mao Qiwu sentiu uma pontinha de inveja, pois não era de seu ramo formar agentes secretos e, mesmo que quisesse, não teria muito a ensinar.
...
No trem, Luo Yao e Gong Hui ouviram dos passageiros a notícia da grande vitória em Taierzhuang, ficando radiantes — finalmente uma vitória! Nos últimos dias, tão focados no caso da estação “Fantasma”, mal haviam acompanhado as notícias da Quinta Zona de Guerra.
O vagão inteiro estava em festa.
Após mais de meio ano de resistência contra a invasão, o exército vinha sofrendo derrotas e perdendo território, com más notícias todos os dias. Ter, enfim, um motivo para comemorar era um alívio coletivo.
Alegria, claro.
Embora tivesse sido uma vitória amarga, ao menos desmantelava o mito da invencibilidade japonesa e renovava a confiança de todo o povo na luta contra os invasores.
A vitória política dessa batalha era muito maior que a militar.
...
Ao chegarem em Xiangcheng, novamente foi Shen Yu quem veio buscá-los de carro. Mais uma vez, usando de sua posição, aproveitava para visitar a família da aluna de quem gostava, Jiang Pingping, que morava ali.
Jiang Pingping, como estava no curso especial, não podia tirar folga, mas Shen Yu, “quase genro”, tinha liberdade para visitar o futuro sogro e, de quebra, levar alguns presentes para agradar à sogra.
Se conquistasse a sogra, seria impossível perder a esposa, não?
O velho Shen era esperto, aplicando à risca o “contornar para vencer”.
— Vocês foram ótimos dessa vez, deram orgulho para o nosso curso de formação — disse Shen Yu, feliz, ao encontrá-los na estação.
Embora fosse instrutor e parte da administração do centro de treinamento, Shen Yu tinha quase a mesma idade de Luo Yao; em particular, tratavam-se como irmãos.
Quanto à relação entre Shen Yu e Yu Jie, cada um tinha sua própria.
— Aqui, é para você — Luo Yao tirou do bolso um pequeno frasco e entregou discretamente a Shen Yu —. Leve para sua Ping.
— Perfume! Que beleza — Shen Yu, acostumado com as coisas de Xangai, percebeu logo que era importado e caríssimo —. Você quer que eu peça para a Gong Hui entregar por mim?
— Shen, presentear moça por terceiros? Tem que entregar você mesmo, mostrar sinceridade, entendeu? — Luo Yao o repreendeu.
— Obrigado mesmo — Shen Yu riu.
Quando viu Luo Yao e Gong Hui carregando dois grandes baús, arregalou os olhos.
— Foram às compras em Jiangcheng? Quando partiram, nem tinham tanta bagagem.
— Só algumas compras, muitos livros aqui dentro, encomenda do professor. Não ousei deixar de trazer.
— Para o Quarto Irmão?
— Hehe... — Luo Yao sorriu, sem responder.
Shen Yu riu também. “Se não for contrabando, não vi nada, pronto.”
— Claro, contrabando eu não ousaria trazer — disse Luo Yao, entrando no carro.
...
Revezando na direção, conseguiram voltar para Linli antes do anoitecer, mas o preço foi a exaustão completa.
Entre idas e vindas, haviam se passado dez dias.
Planejavam descansar antes de tudo, mas Yu Jie os convidou para jantar. Convite de professor não se recusa. Deixaram as malas no alojamento, pegaram os presentes para Yu Jie e seguiram.
Após se instalar em Linli, Yu Jie trouxera a esposa e arranjara uma pequena casa perto do centro de treinamento, onde ficava na maior parte do tempo e só ia para casa de vez em quando.
Na base, Yu Jie também comia no refeitório, só jantando comida caseira quando estava em casa.
Convidar Luo Yao para jantar, claro, não era para comer no refeitório da base.
Com muita gente por perto, certos assuntos não podiam ser tratados. Em casa, era muito mais à vontade.