Capítulo 60: Crepúsculo
O som das cigarras ecoava incessantemente do lado de fora da janela, tornando-se um tanto irritante. Já faziam três dias desde que Luo Yao retornara a Jiangcheng com Gong Hui. Durante esse período, Luo Yao pediu a Liu Jinbao que conduzisse Yan Ming e Xiao Dongbei, agora chamado Qiao Sanyang, para conhecerem o ambiente de Xiakou, especialmente os edifícios emblemáticos e as principais vias da cidade. Era fundamental que todos tivessem pleno conhecimento desses pontos, pois poderiam ser úteis em futuras operações.
Enquanto isso, Luo Yao isolou-se na casa que adquirira dois meses antes, dentro do distrito francês, para investigar minuciosamente todos os arquivos relacionados à estação “Fantasma” e ao chefe japonês infiltrado em Jiangcheng, Lin Miao. O método de obtenção de informações por este grupo japonês era relativamente simples, semelhante ao caso do espião Huang Jun e seu filho, desmantelado em Jinling. Contudo, os métodos empregados eram mais sofisticados e ocultos do que os utilizados por Nan Zao Yunzi no caso Huang Jun. Nan Zao Yunzi usou o encanto feminino de forma direta e grosseira, seduzindo Huang Jun e seu filho a vender informações, o que criou uma linha de investigação bastante evidente e, portanto, mais fácil de solucionar.
Lin Miao, por outro lado, estava infiltrado há anos. Seu alvo não eram figuras de destaque, como no caso de Huang Jun, mas sim pessoas em posições discretas, porém cruciais. Esses indivíduos normalmente passariam despercebidos, mas tinham acesso a informações de extremo valor. Um simples despachante ferroviário, por exemplo, poderia saber exatamente quanto alimento e munição estava sendo enviado ao front. Com esses dados, era possível calcular o número de tropas e armamentos posicionados na linha de batalha. Essa informação era vital; uma notícia aparentemente insignificante poderia determinar o resultado de uma batalha ou afetar toda a estratégia de guerra.
Nosso partido possuía uma regra para agentes de inteligência infiltrados no coração do inimigo: “Melhor ser funcionário menor de um grande órgão.” O motivo era óbvio. Os alvos eram escolhidos cuidadosamente, cada um abordado de acordo com suas fraquezas, sendo conduzidos passo a passo ao abismo. Muitos, ao serem descobertos, sequer percebiam que haviam cometido algum erro ou não tinham noção do tamanho do dano que causaram. Assim que um alvo era exposto, o grupo cortava imediatamente todos os laços com ele. A cautela e o estado de alerta desse grupo eram notáveis.
Apesar de alguns chineses cooptados terem sido capturados, o núcleo desse grupo de espiões permaneceu inalcançável. O maior golpe contra eles ocorreu quando Luo Yao, com precisão, localizou três estações de rádio “Fantasma” ocultas no distrito francês e prendeu o operador Yoshida Shoushan. Depois, desmantelou o ponto de contato da Livraria Songtao, eliminando o agente Katayama Xiaomi e capturando o tradutor de código Ikawa. Ikawa acabou suicidando-se durante o interrogatório.
Se Luo Yao não tivesse agido, o Departamento Militar teria apenas informações limitadas sobre o grupo de espiões japonês codinome “Kappa”. Os “Kappa” são criaturas aquáticas da mitologia japonesa, com bico de pássaro, membros de rã, corpo de macaco e casco de tartaruga. O nome escolhido pelo grupo tinha significado: o bico representa agressividade, a rã e o macaco simbolizam agilidade e capacidade de adaptação, e o casco de tartaruga, a resistência. O uso do nome “Kappa” também envolvia um toque de mistério e terror, como uma aura sombria ao redor de suas atividades.
Esses arquivos passaram por vários departamentos do Departamento Militar antes de chegar às mãos de Luo Yao. Se fosse possível desmantelar o grupo “Kappa”, não haveria necessidade de confiar tal tarefa ao recém-formado grupo de novatos liderado por Luo Yao. Dizia-se que era uma missão de confiança, mas na verdade era um último recurso, uma tentativa desesperada. Luo Yao quase capturou o líder, mas, devido à cautela do adversário e sua recusa em aparecer pessoalmente, tudo se perdeu no último momento.
Antes de retornar a Jiangcheng, Luo Yao foi secretamente encontrar Yoshida Shoushan. Dai Yunong, fiel à sua palavra, divulgou publicamente a notícia da morte de Yoshida, deu-lhe um novo nome e o colocou a trabalhar no Departamento Militar. Luo Yao conversou com Yoshida por quase duas horas, discutindo tudo relacionado ao grupo “Kappa”. Yoshida estava prestes a partir para Shancheng, e não se sabia quando voltariam a se encontrar.
Luo Yao reuniu todas as pistas e, usando o método de exclusão, percebeu um detalhe que jamais havia considerado: o Café Crepúsculo. Era o local onde Luo Yao planejara usar Yoshida como isca para marcar um encontro com Lin Miao e provocar uma reação, esperando que Lin Miao se expusesse. No fim, Lin Miao não apareceu, ou talvez tenha ido e percebido a armadilha, evitando se mostrar. Mesmo assim, Luo Yao alcançou seu objetivo; caso contrário, o grupo de Tang Xin, que esperava emboscado na Livraria Songtao, teria saído de mãos vazias.
Lin Miao, ao se dar conta do perigo, não foi pessoalmente ao Café Crepúsculo, mas enviou um subordinado. Katayama Xiaomi morreu, e só com a captura de Lin Miao poderia se esclarecer esse mistério. O certo é que Lin Miao sabia que o Café Crepúsculo era uma armadilha, e, após Yoshida ser preso, deveria ter traído o grupo, mas mesmo assim enviou alguém ao local. Uma estação de rádio era preciosa demais para qualquer espião infiltrado no território inimigo; ninguém deixaria de arriscar para tentar recuperá-la. Luo Yao, no lugar dele, faria o mesmo.
Talvez Lin Miao acreditasse que Yoshida não havia realmente traído o grupo. De fato, Yoshida apenas fingiu trair, com o objetivo de alertar seus companheiros. Yoshida, naquele momento, não sabia que a Livraria Songtao já havia sido exposta; Luo Yao aproveitou esse detalhe para atrair o inimigo ao local, informando Ikawa e transferindo a estação de rádio, pegando-os em flagrante.
O plano parecia ter sucesso, mas o resultado ficou aquém do esperado: o líder máximo do grupo japonês continuava foragido. Além do encontro marcado entre Yoshida e Lin Miao no Café Crepúsculo, durante a busca na Livraria Songtao foram encontrados embalagens de doces feitos pelo Café Crepúsculo; Ikawa era cliente frequente do estabelecimento.
O Café Crepúsculo era, de fato, o café mais movimentado do distrito francês, sempre cheio de clientes. Yoshida e Ikawa, ambos consumidores assíduos, não era estranho: um era funcionário de banco, com bom salário, outro era dono de livraria, intelectual, apreciava o estilo de vida sofisticado e moderno de tomar café. Nada ali parecia suspeito.
No entanto, um detalhe fez Luo Yao desconfiar que o Café Crepúsculo talvez não fosse tão simples. Ele se recordava de que Yoshida entrou atrás dele e Gong Hui, sendo atendido por um jovem garçom, que perguntou o que ele queria beber. Yoshida respondeu: “Uma xícara de café, obrigado.”
Normalmente, um café nunca oferece apenas um tipo de café, mesmo aos clientes de longa data. O garçom deveria ter perguntado sobre o tipo desejado, já que o cliente poderia querer variar. Mesmo que Yoshida fosse frequentador habitual, o garçom não deveria simplesmente aceitar o pedido e sair, mas foi exatamente o que ocorreu, sem nenhuma outra interação.
Ao reviver a cena, Luo Yao percebeu que outro garçom levou o café para Yoshida, o que também não condizia com as normas de serviço de um café. Geralmente, quem atende o cliente segue com o serviço até o final; caso haja troca de atendente, a questão da gorjeta fica indefinida. Aquele garçom levantava suspeitas, ou talvez Yoshida tivesse ocultado alguma informação crucial.
Yoshida já havia traído o grupo, não deveria esconder nada. Seria apenas paranoia de Luo Yao, ou não havia relação alguma? Todas as pistas haviam se esgotado, os suspeitos já haviam sido capturados ou eliminados; restava apenas tentar extrair algo dos depoimentos, tarefa nada fácil.
— Xiao Hui, você está trancada em casa há dois dias. Quer sair comigo para dar uma volta? — Luo Yao desceu as escadas, esticando os braços doloridos.
— Resolveu sair, enfim? — Gong Hui, sentada na sala, saboreava uma fatia de melancia gelada, completamente à vontade.
— Quem comprou a melancia?
— Foi o velho Liu, trouxe e colocou para gelar no poço. Quer uma fatia? — respondeu Gong Hui.
— Não quero, vá trocar de roupa e venha comigo. — Luo Yao ordenou. Já que desconfiava do Café Crepúsculo, era preciso ir lá pessoalmente. Mas, antes de confirmar suas suspeitas, não contaria nada a Gong Hui nem aos outros, para não influenciar seus julgamentos.
— Para onde vamos?
— Tomar café — respondeu Luo Yao.
— Ah! — Gong Hui rapidamente jogou fora a casca de melancia e correu para seu quarto. Pouco depois, saiu vestindo um elegante qipao azul claro.
— E aí, está bom? — Gong Hui girou diante de Luo Yao, perguntando.
— O penteado está muito maduro, não combina, troque — disse Luo Yao.
— Então espere um pouco. — Gong Hui lançou um olhar de reprovação, ergueu a barra do qipao e correu de volta ao quarto, só retornando vinte minutos depois.
O cabelo, agora na altura dos ombros e preso atrás da cabeça, estava adornado com um simples laço de borboleta.
— Assim está ótimo, sem maquiagem, a beleza natural é a mais bela — aprovou Luo Yao. Ele não gostava de maquiagem pesada; embora Han Yun fosse bonita, seu estilo não lhe agradava.
— Então vamos. — Gong Hui pegou a pequena bolsa de couro rosa sobre a mesa, os olhos brilhando de alegria.