Capítulo 69: Aproveitando a Força dos Outros

Operação Secreta Silenciosa Vento Longo 3950 palavras 2026-02-07 16:23:52

Com base nas informações e dados sobre os espiões japoneses conhecidos até o momento, o grupo “Kappa” possui uma organização extremamente rigorosa, em que seus membros não têm ligação entre si, garantindo que, caso um seja exposto, isso não comprometa os demais.

Essa estrutura organizacional horizontal é bastante científica e extremamente adequada para operações de infiltração em território inimigo.

Além disso, o chefe desse grupo, “Lin Miao”, é uma pessoa de grande cautela: foi capaz de permanecer inativo por dois meses, ou, pelo menos, não deixou rastros detectáveis de suas ações.

É evidente que esse indivíduo possui uma identidade reserva.

Nas mãos de Luo Yao, há uma fotografia de “Lin Miao”. Como proprietário de uma empresa de transportes, seria impossível viver em isolamento total — certamente, alguém já o viu.

No entanto, uma foto por si só não significa muito. Técnicas avançadas de disfarce podem transformar uma pessoa em outra completamente diferente, e eles já haviam aprendido disciplinas semelhantes no curso de treinamento especial.

Na noite anterior, por exemplo, ele próprio esteve presente num banquete de casamento sem ser reconhecido por ninguém.

Dai Yunong lhe concedeu apenas um mês de prazo. Agora, para ele, cada minuto é precioso e não pode ser desperdiçado. Colocou os fones de ouvido e começou a vasculhar as frequências.

Bips...

O rádio estava funcionando há tempo demais; precisava de uma pausa antes de ser reutilizado, caso contrário, o diodo acabaria queimando — não havia alternativa.

Precisava arranjar mais dois rádios. O que buscava era “a terceira estação”. Bastava confirmar que essa estação ainda estava ativa, e isso seria suficiente.

Se o grupo “Kappa” estivesse apenas em silêncio, oculto, tudo bem; mas, se já tivessem deixado Jiangcheng, então todos os esforços seriam em vão.

Contudo, Luo Yao não acreditava que eles abandonariam Jiangcheng com facilidade. O caráter japonês era conhecido pela perseverança e pela recusa em admitir derrota.

Esse tipo de obstinação, em certos aspectos, era algo que os chineses deveriam aprender.

Essas pessoas tinham alguma relação com o Café Crepúsculo. Embora apenas indiretamente, o dono do café, Velho Mu, certamente não era um homem comum.

Afinal, por que alguém comum mandaria alguém segui-lo? E o homem que o seguia era, claramente, alguém treinado profissionalmente — se ele e Gong Hui fossem pessoas comuns, jamais teriam notado.

Mesmo dentro do Departamento de Inteligência Militar, sem treinamento rigoroso ou anos de experiência, seria impossível realizar tal vigilância.

Estava claro que precisava fazer com que Liu Jinbao retornasse à delegacia o quanto antes. Embora não soubesse como Dai Yunong planejava utilizá-lo a seguir, era certo que ele permaneceria em Jiangcheng por mais algum tempo.

Se sua memória não falhava, em dois meses Jiangcheng cairia em mãos inimigas. Nessa altura, os papéis se inverteriam, tornando-se necessário estar preparado para o pior.

...

— Chefe, chegou um telegrama do Xiu Luo. Ele solicita que o Muji seja designado de volta ao Departamento de Inteligência da Delegacia de Polícia de Xiakou — informou alguém, depositando o telegrama sobre a mesa de Dai Yunong.

— Muji?

— É o Liu Jinbao, que antes já fazia parte do Departamento de Polícia de Xiakou.

— O que ele pretende com isso? — perguntou Dai Yunong, intrigado.

— Imagino que queira tirar proveito dos recursos da polícia para ajudá-lo secretamente em suas tarefas. Afinal, há situações em que agir como policial facilita as coisas — respondeu Mao Qiwu, refletindo.

— No próximo mês, independentemente do que ele quiser, atendam-no na medida do possível — ordenou Dai Yunong após pensar um pouco.

— Sim, senhor.

— Dê um aviso a esse rapaz, para não passar dos limites, e que tome cuidado com a própria segurança.

— Entendido.

...

— Velho Qin, me desculpe. Eu sabia que ontem à noite Han Yun e Hu Yisheng dariam o banquete de casamento no Restaurante Deming, mas não me atrevi a contar pra você. Só mencionei por alto para a senhorita Hui... — No dia seguinte, ao saber que Luo Yao e Gong Hui tinham ido ao Restaurante Deming, Liu Jinbao correu para se desculpar.

— Você achou que se eu soubesse, faria um escândalo lá? — indagou Luo Yao.

— Bem, não era impossível... — murmurou Liu Jinbao, de cabeça baixa.

— Perdeu o juízo? Que tipo de trabalho estamos fazendo agora? Acha que vou me incomodar por um assunto tão insignificante? — repreendeu Luo Yao. — Esqueceu o que os instrutores nos ensinaram no curso especial? O interesse maior sempre em primeiro lugar.

— Insignificante?

— Pode ser tão importante assim? — Luo Yao lançou-lhe um olhar, rebatendo — E eu, com a identidade que tenho agora, vou me arriscar por uma mulher que não sente nada por você?

— Tem razão, tem razão. Trocar uma árvore por uma floresta não compensa. Você é jovem, bonito, brilhante, inspirador — quantas moças lindas não dariam tudo para casar com você? Han Yun não passa de alguém que perdeu a oportunidade, e ela é que vai se arrepender — disse Liu Jinbao, animado.

— Velho Liu, vejo que progrediu muito no curso de treinamento, especialmente na arte de bajular. Eu mesmo não me comparo a você — Luo Yao respondeu, fingindo aborrecimento, mas em tom de brincadeira.

— Hehehe...

— Deixe de rir à toa. O chefe autorizou sua transferência de volta ao Departamento de Inteligência de Xiakou. Promoção, agora você é o chefe interino — disse Luo Yao, sorrindo.

— Sério?

— Quer ver o telegrama do chefe?

— Obrigado, velho Qin! Não pensei que ainda teria a chance de voltar — Liu Jinbao sorriu bobamente ao ver o telegrama de confirmação.

— Sua volta é porque essa identidade pode nos ajudar nas próximas ações, entendeu? — alertou Luo Yao.

— Entendi.

— Prepare-se. Depois de amanhã, pela manhã, embarque no porto. Alguém estará esperando por você.

...

Durante três dias seguidos, Luo Yao permaneceu em casa. Pegou mais três rádios emprestados com Tang Xin, usando dois de cada vez enquanto os outros descansavam, alternando para evitar danos aos componentes por uso excessivo.

Naturalmente, o resultado foi infrutífero. Encontrar uma estação exige não só habilidade como ouvinte, mas também sorte.

Essas coisas são invisíveis, inexplicáveis — às vezes, basta um pequeno deslize e se encontra; outras vezes, passa-se batido.

Após três dias ouvindo, Luo Yao sentia a mente cansada. Decidiu tirar uma pausa para ajustar o estado de espírito — certas coisas não se resolvem com pressa; é preciso o momento certo.

Às vezes, o estado psicológico faz toda a diferença.

Durante esses dias, nem cozinhou — Gong Hui trazia todas as refeições de fora. Ainda precisava coordenar as comunicações com Liu Jinbao, Yan Ming (o Pequeno Nordeste) e Tang Xin, consolidando as informações.

Todas as noites, reportava a Luo Yao e enviava um relatório rotineiro à sede central em Shancheng.

Naquela manhã, o sol mal havia nascido quando Luo Yao acordou.

Do andar de baixo, uma voz chamou:

— Velho Qin, o diretor Tang (Tang Xin) ligou, pediu que você vá até a escola.

(Luo Yao, sob identidade de cobertura, era professor de matemática do ensino médio no Colégio Privado Shàngzhì de Xiakou; Gong Hui, dona de casa.)

— Entendido — respondeu Luo Yao, descendo apressado, lavando-se, trocando de roupa e levando dois pães frios, que foi comendo pelo caminho.

— Vá devagar, chamei um carro para você.

— Está bem.

A Cheng, disfarçado de condutor de riquixá, já esperava na porta. Luo Yao embarcou e logo partiram.

Não iria até a sede distrital, pois isso seria se expor.

Embora Jiangcheng estivesse sob controle do governo nacionalista, ainda era preciso cautela. A administração local também se preparava para a futura ocupação inimiga, sinal de que, do topo à base, todos já aceitavam que a queda da cidade era questão de tempo.

Preparar agentes para permanecer infiltrados após a queda era, naquele momento, prioridade: designar muitos membros para se esconderem sob diferentes identidades, prontos para uma luta prolongada.

Não havia como contestar.

A garagem era uma das frentes de cobertura do distrito de Jiangcheng. Desde o dono ao contador, todos pertenciam à rede; até mesmo alguns condutores de riquixá eram colaboradores.

Luo Yao abaixou a aba do chapéu e, ao lado de A Cheng, entrou apressado na garagem. Atravessei um corredor, virou, seguiu adiante cerca de sete ou oito metros, até uma pequena sala com a porta entreaberta.

Viu Tang Xin trabalhando à mesa, mas ainda assim bateu à porta antes de entrar.

— Entre.

— Velho Tang, o que é essa convocação tão cedo? — Luo Yao entrou, cumprimentando respeitosamente.

— Luo, como pediu, fiquei de olho naquele agente britânico, Clive. Ontem ele comprou uma passagem aérea de Jiangcheng para Hong Kong. O voo sai hoje ao meio-dia do aeroporto de Nanhu — informou Tang Xin.

— Conseguimos interceptá-lo? — perguntou Luo Yao, ansioso.

Tang Xin balançou a cabeça:

— Sem provas concretas ou motivo legítimo, não temos autoridade para detê-lo ou prendê-lo.

— Então, por que me chamou? — indagou Luo Yao, intrigado.

— Logo cedo, Clive foi até uma caixa de correio em frente ao Edifício Bólo, na concessão estrangeira, postou uma carta, depois embarcou rumo ao aeroporto de Nanhu. Coloquei alguém para segui-lo e mandei buscar a carta. Mas, ao abri-la, ninguém conseguiu entender o que estava escrito — explicou Tang Xin.

— Era uma carta cifrada? — Luo Yao estranhou. Inspeção de correspondência era básico para qualquer agente; geralmente, mensagens eram enviadas em código ou com linguagem cifrada.

E, se fosse código, sem decifração, não haveria como perceber nada estranho.

— Não. Estava em inglês.

— Ninguém da equipe entende inglês? — perguntou Luo Yao.

— Sim, mas não perceberam nada de estranho — Tang Xin respondeu, envergonhado.

Luo Yao ficou surpreso. Se a carta fosse comum, só restava assistir à partida de Clive. Porém, se fosse importante, e eles não percebessem, deixariam escapar um espião portador de informações cruciais para o governo nacionalista — e isso seria uma falha grave.

— Deixe-me ver — ofereceu-se Luo Yao.

Tang Xin passou-lhe a carta aberta. Luo Yao, com bom domínio do inglês, percebeu rapidamente algo estranho.

Havia algo errado naquela carta. Não parecia redigida por um britânico nativo; havia muitas frases truncadas e erros gramaticais.

Se Clive fosse alguém sem instrução, seria justificável — mas ele fora jornalista. Como um jornalista cometeria erros tão primários?

A menos que fosse uma mensagem cifrada.

E, em casos assim, normalmente utilizava-se a “cifra de substituição”, conhecida nos círculos de criptografia: trocando símbolos do texto original por outros.

A cifra de substituição pode ser quebrada por análise de frequência, desde que haja material suficiente — o que não era o caso.

Outra técnica era o acróstico, comum na antiguidade chinesa, em que o real significado se oculta nas combinações ou iniciais das frases, permitindo que só quem conhece a chave encontre a mensagem.

Se fosse cifra de substituição, não havia o que fazer no momento. Sem amostras suficientes, era impossível decifrar rapidamente.

Mas, se fosse algo como um acróstico, talvez houvesse uma chance.

Luo Yao começou a destacar, linha a linha, as palavras erradas ou deslocadas, anotando-as em uma folha em branco para reorganizá-las.

— Oh, meu Deus! — exclamou o tradutor chamado para ajudar, ao ver a sequência de palavras em inglês formada no papel.

Tang Xin não hesitou em ordenar:

— Prendam imediatamente esse Clive!