Capítulo 66: Trabalhando sozinho

Operação Secreta Silenciosa Vento Longo 3572 palavras 2026-02-07 16:23:50

Luo Yao sempre foi de coragem diminuta, especialmente na época em que trabalhava como pequeno funcionário no Ministério das Finanças, agia com extremo cuidado e discrição, a ponto de quase ninguém notar sua presença. Era alguém tão humilde que se tornava invisível.

Mas agora tudo havia mudado.

Embora o corpo fosse o mesmo, em seu interior residia uma nova alma. Ele compreendia bem de onde vinha essa transformação e se deleitava com a novidade, não sentindo qualquer desejo de forçar um retorno ao que era antes.

Há certas coisas que devem seguir seu curso natural.

Gong Hui saíra para tratar de negócios.

A ocasião era rara; se Gong Hui estivesse a seu lado a todo momento, seria impossível desfrutar de qualquer liberdade pessoal. Como então poderia encontrar-se com o velho Wu?

O velho Wu já não era mais dono de uma mercearia; tornara-se proprietário de uma loja de artigos de bambu: cestos, peneiras, libélulas de bambu, balaios—tudo que fosse feito desse material podia ser encontrado ali, e os negócios iam bem.

Esses produtos vinham de Linli, onde eram adquiridos a preços baixíssimos. Transportados de barco até Jiangcheng, o valor duplicava pelo menos.

Qual casa não tinha um utensílio de bambu? Peneiras para lavar arroz, esteiras para secar alimentos, cestos para verduras e compras... São objetos simples, discretos, mas indispensáveis em qualquer lar.

O artigo mais vendido era a esteira de bambu—no verão, ela era absolutamente essencial para uma boa noite de sono.

Produtos básicos como esses nunca faltavam clientela, desde que tivessem bom acabamento e preço justo.

—Dono, há cestos de frutas de bambu?—Luo Yao, vestindo uma túnica rústica e chapéu de palha, entrou na loja “Zhou & Cia.”.

—Senhor, nossos artigos de bambu são renomados em Hankou, feitos apenas com o melhor bambu. Não aceitamos mercadoria defeituosa. Chegou uma nova remessa e, de fato, temos cestos de frutas—respondeu o jovem atendente, solícito.

—Este é pequeno demais, aquele grande demais, esse aqui está torto no cabo...—Luo Yao criticava um a um, sem se satisfazer, a ponto de o atendente perder a paciência.

—Chame o dono. Ele deve guardar as melhores peças, ainda não expostas.

—Senhor, toda a mercadoria está aqui. Se não gostou, talvez encontre algo em outra loja...—enfim o atendente desistiu, pronto para dispensar o cliente.

Clientes assim, só apontando defeitos, dificilmente tinham real intenção de comprar.

—Xiao Cheng, vigie a porta. Deixe que eu atenda este senhor—o velho Wu, chamado repetidas vezes, finalmente apareceu. Agora, de fato, ostentava o porte de um verdadeiro comerciante.

—O que faz aqui em Jiangcheng tão de repente?—perguntou Wu, conduzindo Luo Yao discretamente para seu escritório nos fundos.

—Dai Yunong me enviou, podia eu recusar?—Luo Yao riu.—Na verdade, já estou aqui há uma semana, mas não consegui me desvencilhar antes. Só hoje tive oportunidade de vir procurá-lo.

—Ninguém te seguiu?

—Ainda que eu não tenha olhos na nuca, meus ouvidos são bons. Se alguém me seguisse, eu notaria. Não se preocupe.

—Sua volta a Jiangcheng é por missão?

—Sim. O caso anterior ainda não se resolveu; não conseguimos capturar o chefe dos espiões japoneses infiltrados. Dai Yunong me enviou de novo, esperando que desta vez eu consiga desbaratar de uma vez toda a rede.

—Acha que pode conseguir?

—Difícil dizer. Mas já que estou aqui, tenho de tentar. E você, como vai?

—Estou bem. Agora respondo apenas por sua rota, não preciso me preocupar com mais nada—respondeu Wu.—Sobra até tempo livre.

—Os japoneses estão determinados a tomar Jiangcheng; pretendem forçar a rendição do governo nacionalista. Acredito que a cidade dificilmente resistirá—Luo Yao não disse tudo, pois sabia que em dois meses Jiangcheng seria abandonada voluntariamente, mas queria alertar a organização para que se preparasse logo para a retirada, melhor prevenir do que remediar.

—Pelo andar da carruagem, Jiangcheng ainda aguenta pelo menos meio ano—discordou Wu, mais otimista.

—Algumas unidades do exército até lutam bem, alcançando vitórias pontuais, mas no geral a disparidade é grande. O mais importante é a determinação para resistir; isso é o que vai decidir o destino da cidade. Não creio que cheguem a seis meses, talvez metade disso—Luo Yao balançou a cabeça.

—Você é pessimista demais...

—Vamos deixar para ver o resultado, Wu. Hoje não vim debater isso, mas sim relatar minha situação à organização. O tempo é curto.

Ao sair da loja “Zhou & Cia.”, Luo Yao carregava um cesto de bambu. Quando voltou para casa ao meio-dia, o cesto já continha duas costelas de porco, dois batatas, tofu e verduras.

Luo Yao foi para a cozinha: preparou costelas ao molho agridoce, sopa de tofu com verduras e batatas em tiras picantes e azedas.

Um grande tigela de arroz branco.

A refeição estava deliciosa.

Não comeu sozinho; deixou metade para Gong Hui.

Só depois das uma da tarde Gong Hui voltou, jogou para Luo Yao um envelope grosso e atacou sem demora a comida reservada sobre a mesa.

Tinha estado fora o dia todo, cansada e faminta.

Luo Yao subiu com o envelope; ali estavam as frequências e registros de sinais captados nos últimos seis meses em Wuhan.

Rádios particulares podiam ser legais, mesmo os sigilosos raramente tinham alto grau de confidencialidade, muitos operavam abertamente, apenas para facilitar comunicação pessoal, evitando idas constantes ao telégrafo.

Mas esses eram sempre registrados no governo.

Apenas quem tinha negócios escusos ou intenções ocultas montava rádios clandestinos para comunicação e coordenação, longe dos olhos oficiais.

Além disso, havia os rádios das embaixadas estrangeiras, intocáveis devido à imunidade diplomática, mesmo sabendo que dali saía informação confidencial.

O que realmente interessava a Luo Yao eram sinais obscuros, raríssimos, com transmissões externas apenas uma ou duas vezes; esses eram os alvos que procurava.

Registrar tais sinais era trabalho exaustivo, exigia paciência e resistência à solidão.

Sem esses vigilantes, que filtravam e catalogavam os sinais dispersos, como encontrar os postos secretos inimigos?

—A sala de investigações do comando da Nona Região recebeu ontem à noite uma mensagem confidencial da sede, a ser assinada em mãos pelo diretor Liu—Gong Hui subiu após comer.

—Qual o conteúdo?

—Não sei. Foi cerca de meia hora depois de enviarmos ao velho o plano “Isca”—respondeu Gong Hui.

—Parece que o problema está no comando da Nona Região—suspirou Luo Yao. Isso era quase certo; ele próprio elaborara o plano e sabia que sem o apoio e coordenação do comando da Nona Região, sua execução seria quase impossível e cheia de falhas, facilmente percebidas pelo inimigo.

Quanto ao motivo da recusa, Luo Yao preferiu não perguntar. Não era de sua alçada; perguntar seria se humilhar.

—Certo, você não revelou nossa missão aqui, não é?

—Ainda não. Isso é confidencial. Só disse que Jiangcheng estava com falta de pessoal e que fui escolhido para me formar mais cedo.

—Ótima resposta. Mesmo que perguntem, o vice-prefeito Tang nos acobertará—Luo Yao assentiu.

—Continuamos com o plano “Isca”?

—Já que o comando da Nona Região não colabora, agiremos por conta própria. Além do mapa de defesa do forte de Tianjia, há outra informação valiosa que acredito ser o que “Kappa” mais deseja agora—disse Luo Yao.

—Pretende usar-se de isca?—Gong Hui era sagaz; entendeu imediatamente.

—Só em último caso—Luo Yao assentiu. Com o mapa de defesa do forte, o departamento de inteligência japonês certamente não deixaria passar. Mesmo que “Kappa” hesitasse, seus superiores ordenariam a ação.

Quanto a Luo Yao, responsável por desmantelar as estações clandestinas, talvez não interessasse aos altos comandos japoneses, dependendo de uma decisão pessoal do adversário.

Mas, por ser tão cauteloso, seria difícil induzi-lo ao erro; se fosse Luo Yao, também não arriscaria um confronto por impulso.

No momento, o nível de perigo atribuído a Luo Yao pelo serviço secreto japonês não era alto; talvez nem soubessem ainda a causa da exposição das estações.

Manter essa vantagem da assimetria de informação era o que Luo Yao desejava; expor-se seria perder esse trunfo.

—Vou analisar os sinais desses rádios secretos. Quando Lao Liu e os outros chegarem à noite, reunimos todas as informações e decidimos o próximo passo—orientou Luo Yao.

—Está bem, vou descer então—Gong Hui concordou.

...

À noite, Liu Jinbao, Xiao Dongbei e Yan Ming chegaram.

Luo Yao passou a tarde toda no andar de cima, sem descer, nem sair para comprar mantimentos ou cozinhar; Gong Hui comprou algo pronto em uma loja próxima.

Acomodaram-se como puderam.

Após o jantar, Luo Yao tirou um maço de cigarros e distribuiu. Gong Hui e Xiao Dongbei não fumavam; Liu Jinbao e Yan Ming sim. Três fumantes juntos logo criaram uma nuvem de fumaça.

Enquanto Gong Hui e Xiao Dongbei lavavam a louça, os outros quase terminaram o cigarro.

—Lao Liu, teve algum resultado hoje?—Luo Yao apagou a ponta do cigarro e perguntou.

—Usei meus antigos contatos para investigar o trabalho de Katayama Xiaomei no restaurante Deming. Segundo um funcionário veterano da cozinha, com mais de cinco anos de casa, Katayama Xiaomei, usando o nome falso de Sun Jia, veio se candidatar há três anos como confeiteira e conquistou a todos com seu talento, garantindo a vaga...

—Cozinheiros do restaurante Deming não são comuns; só entram por recomendação. Quem indicou Katayama Xiaomei?

—Um inglês chamado Clive—respondeu Liu Jinbao, já prevendo a pergunta de Luo Yao.—Clive é corretor de seguros, já foi jornalista antes, tem muitos contatos e é presença constante entre os notáveis de Jiangcheng.