Capítulo 67: O Aquele Servo
— Esse Clíver ainda está em Jiangcheng?
— Isso eu não sei. Foi só um dia, o que consegui descobrir foi só isso — respondeu Liu Jinbao, abrindo as mãos, indicando que não era um super-homem, incapaz de resolver tantas coisas em tão pouco tempo.
— Amanhã continue, investigue tudo sobre esse Clíver, quanto mais detalhado, melhor — ordenou Luo Yao.
— Pode deixar.
— Yan Ming, como estão as investigações das relações sociais de Oikawa?
Yan Ming hesitou um instante antes de responder:
— Não avançou muito. Oikawa usava o nome falso “Liu Ming” e, mais ou menos na mesma época de Yoshida, comprou esta livraria. Como conseguia importar revistas estrangeiras, o negócio e a reputação eram bons no círculo. Ninguém imaginava que Liu Ming era japonês, e ainda por cima um espião. Agora a livraria está fechada, ninguém se arrisca a assumir...
— Ah, então ainda não há novo dono?
— Não. O proprietário está impaciente, mas não ousa mexer nos livros, e como o dono anterior era espião japonês, todos têm medo de se envolver em problemas. Por isso, a livraria permanece fechada — explicou Yan Ming.
— Yan Ming, procure o proprietário, assuma a livraria, mude o nome e continue o negócio — sugeriu Luo Yao, após refletir por um instante.
— Eu? Abrir uma livraria? Chefe, não entendo nada disso! — Yan Ming se surpreendeu.
— Precisamos nos preparar para uma estadia prolongada em Jiangcheng. Não é só resolver este caso e ir embora — explicou Luo Yao. — Por isso, é necessário estabelecer alguns pontos de cobertura e contato, além de terem uma identidade normal para circular pela cidade.
— E eu? — perguntou Liu Jinbao.
— Liu, você já trabalhou no Departamento Especial da Polícia de Xiakou. Quero que volte para lá — decidiu Luo Yao.
— Certo, se for necessário, posso voltar. Assim, posso usar essa posição para ajudar vocês também — Liu Jinbao entendeu. Estavam isolados; era preciso buscar apoio.
— Mas como vou voltar?
— Isso é fácil. Eu cuido disso. Ninguém suspeitará. Quem sabe você até seja promovido — garantiu Luo Yao, sorrindo.
— Seria ótimo — Liu Jinbao sorriu, animado por voltar ao ambiente familiar.
— Gato, você vai acompanhar Yan Ming. A livraria precisa de um ajudante. Depois de assumirem a livraria, terão uma identidade legítima e um ponto de apoio — Luo Yao apontou para o jovem do Nordeste.
— Sim.
— A propósito, chefe, aquela pequena Katayama gosta muito de café. Ela vai com frequência a uma cafeteria chamada “Crepúsculo” — Liu Jinbao lembrou-se de algo.
— O quê? — Luo Yao ficou surpreso, assim como Gong Hui.
— Ouvi dizer, não tenho certeza. Dizem que a Crepúsculo é famosa na Concessão Francesa, muitos gostam de tomar café lá — continuou Liu Jinbao.
Mais uma vez, a Crepúsculo!
Yoshida Shoushan marcou encontro com “Lin Miao” lá.
O atendente de Yoshida, com conversas incomuns...
Na livraria de Oikawa encontraram embalagens de doces da Crepúsculo...
Agora, Katayama também está ligada à Crepúsculo de forma peculiar.
Tudo isso seria coincidência?
Luo Yao não desacredita coincidências, mas sabe, com sua formação em matemática, que são raras. Se fossem uma ou duas coincidências, tudo bem, mas tantas acumuladas...
Não é coincidência; há uma conexão interna.
Luo Yao decidiu: no dia seguinte, ele e Gong Hui voltariam à Crepúsculo, pois ali há muitos mistérios esperando para serem desvendados.
...
— Como vocês chegaram ao Clíver? — Tang Xin ficou impressionado ao ouvir Luo Yao mencionar “Clíver”.
— Vocês também suspeitam dele?
— Ele é relativamente conhecido em Jiangcheng. Oficialmente, é corretor de seguros, circula entre carros e motoristas, e só lida com figuras de destaque, autoridades e empresários. Mas, nas sombras, é também negociador de informações — explicou Tang Xin.
— Um negociador de informações, é justamente o tipo que procuramos — Luo Yao não se surpreendeu; Clíver certamente era mais do que um corretor de seguros.
— Esse sujeito é britânico, tem direito consular. Mesmo sabendo o que faz, sem provas concretas não podemos agir.
— Então vamos obter provas! — disse Luo Yao.
— Tudo bem, como pretende fazer isso? — Tang Xin pensou um pouco e aceitou. Com provas do trabalho de espionagem de Clíver, poderiam pressioná-lo a colaborar.
— Se ele é um lobo solitário, suas fontes vêm das pessoas com quem interage ou do que presencia e investiga. Mas como ele transmite informações, ou negocia com quem precisa delas? — analisou Luo Yao. — Você mencionou que ele é britânico, tem direito consular, mas alguns crimes não estão cobertos, certo? E cartas enviadas para fora, costumam ser inspecionadas?
— Não, se forem interceptadas, pode causar incidente diplomático — esclareceu Tang Xin. — Só se houver provas de espionagem nas cartas.
— Tempos excepcionais exigem medidas excepcionais. Agora, vamos nos preocupar com isso? Estamos à beira de perder o país, não vou me preocupar com privilégios estrangeiros — disse Luo Yao.
Tang Xin assentiu:
— Mandarei alguém segui-lo vinte e quatro horas por dia. Qualquer novidade, avisarei você.
— Ótimo.
...
— Senhor Mu, voltamos novamente.
— Senhor Qin, senhorita Hui, sejam bem-vindos — o velho Mu os recebeu calorosamente, conduzindo-os ao lugar de sempre.
— Se o senhor Mu não se cansar de nós, podemos vir todos os dias.
— De jeito nenhum! Aqui é um negócio, jamais rejeitamos clientes — respondeu Mu, sorrindo. — Hoje o pedido é o de sempre?
— Sim, como de costume.
— Senhor Mu, hoje vou dispensar os doces. Em breve tenho um jantar — acrescentou Gong Hui.
— Certo — Mu respondeu e foi instruir o barista a preparar o café.
Cerca de dez minutos depois, Mu veio pessoalmente com o café.
— Toda vez que venho, o senhor Mu nos serve pessoalmente. Sinto-me honrado — Luo Yao levantou-se e recebeu o café.
— Nosso senhor Mu gosta de atender pessoalmente aqueles clientes com quem simpatiza — explicou o atendente, trazendo uma bandeja de frutas.
Luo Yao sorriu:
— Então é por isso.
— Não dê ouvidos. Eu gosto de conversar com clientes, se a conversa é boa, gosto de falar mais — Mu assentiu ligeiramente. — Aproveitem, vou cuidar dos meus afazeres.
— Fique à vontade — Luo Yao também assentiu.
— Esse senhor Mu é realmente interessante — comentou Gong Hui, acrescentando um cubo de açúcar ao café e mexendo lentamente, falando baixo com Luo Yao, com intenção velada.
— Daqui a pouco, arrume um pretexto para ir ao banheiro e observe o layout lá dentro — Luo Yao disse, bebendo um pouco de café.
— Certo, e você?
— Quero ouvir o que eles dizem — explicou Luo Yao.
...
— Chefe, por que está tão interessado no tal Qin? — o barista perguntou baixinho a Mu.
— O lugar onde ele senta não é apropriado para casais ou pessoas íntimas — explicou Mu suavemente.
O barista, aproveitando uma pausa, olhou para lá:
— Por quê?
— Não percebeu? Aquele lugar é próximo à porta, dá para ver o movimento da rua pela janela e, se houver problema, podem sair rapidamente pela porta. Parecem relaxados tomando café, mas estão sempre prontos para sair — explicou Mu.
— Chefe, como sabe essas coisas?
— Observando bastante, aprende-se. Ambos carregam armas, não é bom irritá-los — Mu sorriu.
O barista, surpreso, quase deixou o café quente derramar sobre a mão, assustando-se.
Ao ouvir isso, Luo Yao apressou-se a beber um gole de café, tentando disfarçar o constrangimento por ter sido “desmascarado”. O velho Mu realmente era excepcional; aquela percepção e capacidade de análise seriam valiosas em qualquer serviço de inteligência.
Mu falava baixo e estava longe do balcão, o que fazia com que suas palavras não fossem audíveis para qualquer um. Certamente, não as disse de propósito para Luo Yao ouvir.
— Qin Ming, vou ao banheiro — Gong Hui notou a expressão de Luo Yao e achou que era um sinal para ela ir ao banheiro, levantou-se.
— Vá — assentiu Luo Yao.
...
— Chefe, Da Chuan voltou... — Luo Yao mal desviava a atenção de Mu quando um homem veio correndo da cozinha, aproximou-se e sussurrou ao ouvido de Mu.
— O quê? Quem permitiu que ele voltasse? — Mu mudou imediatamente o tom, mostrando irritação.
— Não sei, ele quer vê-lo imediatamente.
— Mande esperar, falarei com ele à noite — Mu respondeu friamente, bem diferente do tom caloroso de antes.
Realmente, há algo estranho com Mu!
— Quem foi ao banheiro há pouco?
— Foi a senhorita Hui.
— Ela? — Mu franziu o cenho, mas não falou mais nada, apenas fez sinal para seus funcionários continuarem.
Gong Hui saiu e cruzou com Mu.
— Mu tem algo errado — Gong Hui voltou e, ao sentar, sussurrou para Luo Yao.
Luo Yao assentiu:
— Sei. Um homem chamado Da Chuan voltou e quer vê-lo. Talvez seja quem procuramos.
— O atendente? — Gong Hui perguntou, pois Luo Yao já havia lhe contado.
— Sim.