Capítulo 96: Quem fez isso?

Operação Secreta Silenciosa Vento Longo 3530 palavras 2026-02-07 16:24:07

— Quem fez isso?

Diante do questionamento calmo de Luo Yao, Liu Jinbao e Gu Yuan mantinham a cabeça baixa, como se tivessem cometido uma falta e não ousassem encará-lo diretamente.

— O que foi? Essa pergunta é tão difícil de responder assim?

Os tempos já não eram os mesmos. Luo Yao fora colega deles, mas agora era o superior, já havia uma diferença de patamar, ainda que todos tivessem vindo do mesmo curso de treinamento. Luo Yao já se tornara o alvo a ser alcançado, enquanto antes era alguém que eles desprezavam ou sequer levavam a sério; agora, era o chefe imediato.

— Fui eu — admitiu Gu Yuan, que não se acovardou, levantando a cabeça na segunda vez em que Luo Yao perguntou.

— Gu Yuan conversou comigo antes, eu concordei — acrescentou Liu Jinbao em seguida.

— Vocês desconhecem as regras da Casa da Segurança Militar? — questionou Luo Yao com severidade. — Uma ação dessas, capturar a esposa de Han Liangze como isca, por que não pediram autorização, não informaram?

— Senhor, eu temi por sua relação com o chefe Han, então...

— Você acha que, por o chefe Han ser meu tio por parte de mãe, eu iria acobertá-lo, fazer vista grossa? — indagou Luo Yao, incisivo. — Por isso decidiram agir primeiro e avisar depois?

— Sim, afinal, existe esse grau de parentesco entre vocês — reconheceu Gu Yuan, sem rodeios. — Quem garante que o senhor não iria protegê-lo?

— E você, Liu, pensa o mesmo?

Liu Jinbao hesitou antes de responder:

— Chefe, na verdade penso um pouco diferente do Gu Yuan. O chefe Han, de fato, é seu parente, mas ele tentou se aliar à família mais rica de Xiakou, os Hu, e por isso rompeu o noivado. Imagino que o senhor guarde ressentimento dele, então não acredito que favoreceria o chefe Han. Mas, objetivamente, o senhor só chegou onde está graças, em parte, à ligação com ele, então talvez pudesse ser indulgente.

— Vejo que ambos têm seus motivos. Vocês conhecem o histórico de Han Liangze? Como ousam mexer com um delegado que tem vinte anos de polícia nas costas? — Luo Yao soltou um resmungo.

Histórico? Que tipo de histórico teria o chefe Han? Se tivesse mesmo, por que ainda dependia de outros para ser efetivado como diretor interino? Liu Jinbao e Gu Yuan estavam confusos.

— Han Liangze estudou no Japão, formou-se na Escola de Supervisores de Polícia de Tóquio e é colega do tio do atual chefe do departamento central. Com isso, acho que vocês já entenderam — Luo Yao revelou o que sabia, informação que só obtivera graças ao professor Yu Jie, pois era um segredo que ninguém compartilharia voluntariamente.

Mesmo que Han Liangze não fosse membro da Agência Central, ao menos tinha laços estreitos com ela — era o que Yu Jie suspeitava, embora sem provas. Luo Yao, no entanto, sabia que Han Liangze já integrava a Agência Central havia muito tempo.

Mais de dez anos antes, Han Liangze fora à Nanjing justamente para encontrar os irmãos Chen; Luo Yao lembrava-se bem desse episódio, pois foi quando Han visitou a casa da família para propor o noivado com Han Yun. Na época, chegaram a trocar os dados de nascimento e assinar o contrato de casamento, mas Luo Yao, desamparado, não podia carregar o documento consigo quando foi para Jiangcheng. Além disso, a casa em Jinling havia sido destruída pela guerra e não havia notícia do paradeiro de seu pai, o que tornava impossível saber o destino do contrato.

Se Han Liangze era agente central, a questão ultrapassava em muito a captura de um colaborador dos japoneses. Poderia reacender antigas rivalidades entre a Segurança Militar e a Agência Central, que se arrastavam há quase uma década. Sem provas sólidas, prender um delegado — ainda mais usando sua esposa como isca — era uma séria violação das regras. Se não se tem força para romper as regras, só resta segui-las.

— Chefe, já conseguimos o depoimento de Xu Xin. Essa mulher não faz ideia do que o marido anda fazendo — explicou Gu Yuan. — Por isso, acreditamos que Han Liangze fez algum acordo com Duolong, caso contrário, aquelas trezentas peles de boi...

— Essas trezentas peles de boi são, necessariamente, suborno de Duolong para Han Liangze? — questionou Luo Yao.

— Bem... — Gu Yuan ficou sem palavras.

— Se não eram para Han Liangze, por que Duolong teria tanta pressa em trazer trezentas peles de Taiyuan para Jiangcheng? — acrescentou Liu Jinbao.

— E se fosse uma venda?

— Venda? A Companhia Nichiin é financiada por japoneses. Se Han Liangze comprou peles de Duolong, que é ligado à Nichiin, isso não configura colaboração com o inimigo? — retrucou Gu Yuan, inconformado.

— Ele pode alegar desconhecimento do vínculo da Nichiin, e peles de boi não são materiais estratégicos. Se comprou a mercadoria pagando, não precisaria investigar o fornecedor. Além disso, entre ele e a Nichiin havia Duolong como intermediário. Para provar ligação direta com os japoneses, é preciso comprovar a identidade de Duolong — corrigiu Luo Yao.

— Duolong certamente é japonês, e de alto escalão. Ele foi direto à casa de Han Liangze e disse ser um velho conhecido — observou Gu Yuan.

— Velho conhecido? — Luo Yao franziu levemente a testa. — Quem disse isso?

— A esposa dele, Xu Xin.

— Traga-me o depoimento de Xu Xin — ordenou Luo Yao com voz grave. Duolong havia fugido, e ele não pretendia agir contra Han Liangze por ora, mas não esperava que Gu Yuan e Liu Jinbao tivessem atraído Xu Xin para uma armadilha sem comunicá-lo.

Agora, não teria alternativa senão enfrentar Han Liangze antes do previsto.

Gu Yuan retirou o depoimento de Xu Xin e o entregou a Luo Yao, que se sentou para ler atentamente. Gu Yuan, de fato, tinha talento para interrogatórios: usava artifícios de persuasão, intimidação e sabia explorar as fraquezas do interrogado, rompendo rapidamente as defesas psicológicas com precisão.

O depoimento de Xu Xin era curto, apenas três páginas, e logo foi lido. O conhecimento que ela tinha de Duolong se limitava à única visita que ele fizera à residência. Como mulher, Xu Xin geralmente não participava das recepções; desta vez não fora diferente.

No início, Han Liangze não reconheceu Duolong, mas após permitir sua entrada, recordou-se dele. Mais tarde, Xu Xin chegou a perguntar ao marido sobre a identidade do visitante, mas Han apenas mencionou tratar-se de um antigo conhecido, sem maiores explicações.

O depoimento demonstrava a cautela de Han Liangze: sabia perfeitamente quem era Duolong, mas ocultou até da esposa. Gu Yuan não estava errado, Duolong realmente tinha um perfil incomum.

Contudo, isso não bastava para provar ligação de Han Liangze com os japoneses. O nome Duolong não soava chinês, parecia mais manchu. Manchus também são chineses, e entre eles há patriotas e resistentes à invasão, não se pode generalizar. Portanto, isso não era prova.

O maior problema era a relação de Luo Yao com Han Liangze; sem provas concretas, sua atuação poderia ser vista como perseguição e vingança pessoal. Han Liangze ainda desconhecia que Liu Jinbao e Gu Yuan eram subordinados de Luo Yao, pois em Jiangcheng sempre usara um nome falso e mantinha suas informações em sigilo. Apenas Tang Xin, Song Yue e alguns outros sabiam do envolvimento da Segurança Militar em Jiangcheng.

— Chefe, o telefone?

— Quem está ligando?

— O vice-prefeito Tang — informou Xu Jihong.

— Já vou atender — Luo Yao largou o depoimento e foi até o cômodo ao lado para atender a ligação. Se Tang Xin telefonara, certamente havia algo importante.

— Vice-prefeito Tang, sou eu.

— Amigo, acabei de ser chamado por Li Guochen. Ele fez muitas perguntas sobre vocês aí. Vocês fizeram algo que entrou em conflito com ele?

— Não, por aqui está tudo tranquilo — respondeu Luo Yao prontamente. — E, se tivesse algo, não deixaria de avisar o senhor.

— Que bom. Não suporto esse tal de Li, cada um no seu canto, desde que ele não venha me importunar, tudo certo — Tang Xin encerrou a ligação abruptamente.

Luo Yao compreendeu: Han Liangze já havia pedido a alguém para sondar Li Guochen. Han não conhecia bem a estrutura da Segurança Militar em Jiangcheng, mas sabia que Li Guochen era o prefeito distrital e o maior oficial da corporação na cidade. Naturalmente, supôs que Liu Jinbao e os demais estivessem subordinados a ele.

O que Han não sabia era que, embora Liu Jinbao pertencesse à corporação, não tinha ligação direta com o distrito. Procurou informações no lugar errado.

Agora, com a pessoa já detida, liberá-la assim seria inadequado. Han Liangze certamente havia feito algum acordo com os japoneses. Ele mesmo acompanhou a saída de Duolong da cidade, o que mostrava que, se não estava totalmente comprometido, já quase chegava lá.

Mas como provar isso?

Sim, ainda havia alguém na casa dos Han!

Luo Yao lembrou-se: além do casal Han Liangze e Xu Xin, havia uma cozinheira e empregada, Lan Jie, que Xu Xin trouxera de sua família quando se casou e mantinha sempre por perto.

Xu Xin era egoísta; Lan Jie tivera oportunidade de casar, mas Xu Xin a impediu e ela foi forçada a permanecer em seu serviço, cuidando depois de Han Liangze e da filha do casal.

Luo Yao sabia disso porque Han Liangze mencionara em carta à mãe. Na época, Han demonstrava compaixão por Lan Jie, condenado a atitude de Xu Xin, mas sem coragem de confrontá-la, só desabafando com a prima.

A mãe de Luo Yao provavelmente desejava o casamento do filho com Han Yun também por pena do primo e da sobrinha, achando que ambos eram dignos de compaixão. Mal sabia ela que, com o tempo, as pessoas mudam; talvez Han Liangze sempre tenha se aproveitado da compaixão dela.

A conversa entre Han Liangze e Duolong na sala talvez não tenha sido ouvida por Xu Xin no andar de cima, mas Lan Jie, ocupada na cozinha, talvez tenha escutado.

Talvez aí estivesse a brecha mais promissora.

— Liu Jinbao, mande alguém buscar imediatamente Lan Jie, a cozinheira dos Han! — ordenou Luo Yao ao retornar.

— Chefe, uma simples cozinheira...

— Rápido, é uma ordem.

— Sim, senhor! — Liu Jinbao não ousou retrucar, respondeu e saiu apressado.

— Gu Yuan, quando Lan Jie chegar, você cuida do interrogatório — instruiu Luo Yao. — Quero saber exatamente tudo que foi dito na sala entre Han Liangze e Duolong.

— Entendido — respondeu Gu Yuan, sentindo-se tenso, já compreendendo as intenções do chefe.

— Lan Jie poderia ter se casado quando ainda estava na família Xu, mas Xu Xin impediu — comentou Luo Yao.

Gu Yuan assumiu uma expressão séria, reconhecendo que Luo Yao lhe oferecia uma chance de reparar o erro que cometera.