Capítulo 80: Prendendo Pessoas
Em frente à agência de telégrafos.
“Chefe, nós realmente vamos prender alguém?”
O chefe do grupo de operações da equipe de agentes, vestido com uma camisa grosseira e chapéu de palha, disfarçado como um camponês, tirou o chapéu da cabeça e abanou-se, dizendo: “Claro que sim, o comandante Liu já avisou: assim que alguém sair, leve-o imediatamente. Quero todo mundo ágil, sem erros.”
“Sim, senhor.”
...
“Chefe, já faz tempo que ele entrou e ainda não saiu...”
“Qual é a pressa? Espera aí, vou dar uma olhada.”
No balcão da agência, depois de esperar na fila, Da Chuan finalmente foi atendido. Ele entregou um papel já preenchido: “Por favor, envie este telegrama.”
“Já pagou a taxa?”
“Já.”
“Espere um momento.” O funcionário levou o telegrama para um operador, que ajustou a frequência e começou a transmitir.
A primeira vez era o envio inicial, a segunda era conferência, a terceira era verificação.
O chefe estava prestes a se aproximar quando a porta da agência foi aberta por dentro. Da Chuan, vestindo uma roupa simples de algodão cinza e sapatos de sola preta, saiu apressado!
O alvo apareceu!
Com um gesto do chefe, os agentes à paisana, que esperavam do lado de fora, tiraram seus disfarces e cercaram-no imediatamente.
Da Chuan ficou atordoado.
Jamais imaginou que os agentes seriam tão ousados a ponto de prender alguém bem na porta da agência de telégrafos.
“O que vocês estão fazendo? Eu sou um cidadão de bem...” Da Chuan gritou, atraindo a atenção dos transeuntes.
“Cidadão de bem? É você mesmo que queremos.” O chefe aproximou-se, agarrou seu pulso e algemou-o com algemas de latão. Depois, voltou-se para os curiosos e gritou: “Prendendo um espião japonês, afastem-se!”
Cobriram sua cabeça com um capuz preto e o jogaram dentro do carro. Tudo não levou mais que três minutos.
“Ei, avise o senhor Qin que o convidado partiu.”
“Entendido.”
...
“Gong Hui, venha comigo. O velho Liu prendeu Da Chuan, temos que ir lá.” Luo Yao desceu apressado ao receber o telefonema de Yan Ming.
“Na delegacia?”
“Que ideia! Como iríamos à delegacia agora?” Luo Yao lançou-lhe um olhar, “Ele arrumou uma casa segura, vamos para lá.”
“Quer chamar um carro?”
“Não precisa, é perto, é logo ali na rua.”
...
Era uma farmácia. Na frente, pessoas consultavam o médico e compravam remédios; atrás, havia um grande pátio com vários quartos. Compraram o imóvel inteiro, incluindo a farmácia.
Liu Jinbao gastou uma boa quantia, claro, dinheiro fornecido por Luo Yao.
A farmácia mantinha o antigo nome: “Salão Yu He”. Não mudaram porque farmácia é diferente de qualquer outro negócio, as pessoas confiam nos nomes tradicionais.
O pátio dos fundos era separado do da frente; a farmácia servia de fachada. O gerente, o médico e os empregados eram todos membros da Organização de Inteligência Militar — pessoal destacado da estação de Jiangcheng.
Isso não era algo que o vice-prefeito Tang resolvia com uma palavra. Ele e o novo prefeito Li não se davam bem; precisava formar sua própria equipe.
Luo Yao, embora ainda inexperiente, tinha um potencial extraordinário. Tang percebeu isso: alguém capaz de assumir tarefas importantes e comunicar-se diretamente com o chefe Dai não era comum.
Na área de Jiangcheng, além do prefeito, quem mais podia falar com o chefe Dai a qualquer momento?
Luo Yao não ficaria muito tempo em Jiangcheng. Quando completasse a missão e recebesse reconhecimento, seria promovido — talvez para a sede, talvez para outro departamento. Tang não sabia. Mas sabia que cultivar uma amizade profunda com Luo Yao desde cedo certamente lhe seria útil, talvez até servisse como ponte para se comunicar com o chefe Dai.
Por isso, Liu Jinbao fez questão de apoiar a criação desse abrigo secreto, destacando seus melhores homens.
“O senhor Qin chegou.” Luo Yao, claro, não podia aparecer com sua verdadeira identidade. Ainda não queria que soubessem de seu retorno a Jiangcheng, especialmente o pessoal da polícia.
Porém, os subordinados de Liu Jinbao eram todos antigos aliados de Luo Yao. Antes do curso especial, Liu Jinbao nem o conhecia; aqueles homens, menos ainda.
“Este é o senhor Qin, meu superior em Jiangcheng. De agora em diante, tratem-no com ainda mais respeito do que a mim, entenderam?” Liu Jinbao apresentou Luo Yao brevemente à equipe.
“Boa tarde, senhores. A operação de hoje foi rápida, decidida, excelente.” Luo Yao assentiu e ordenou: “Aos que participaram, deem dois dólares de prata de prêmio a cada um.”
“Obrigado, senhor Qin.” Ao ouvirem falar em recompensa, seus rostos se iluminaram.
Da Chuan foi mantido numa sala semienterrada, originalmente usada para armazenar ervas medicinais. Após a limpeza e algumas adaptações, Liu Jinbao transformou-a numa sala de interrogatório.
O isolamento acústico era fundamental — qualquer barulho poderia assustar os moradores ao redor.
“E então?”
“Ainda não interrogamos, mas parece que ele não vai ceder facilmente.” Liu Jinbao balançou a cabeça.
Luo Yao concordou. Naquela época, os espiões japoneses eram todos fanáticos; arrancar-lhes informações era muito difícil.
Yoshida Shouzan, apenas um operador de rádio, já havia demonstrado pouca firmeza. Mesmo assim, ao ser preso, tentou enganar e alertar seus companheiros. Sendo pego, cumprira seu dever; o destino de Ikegawa e Katayama não lhe dizia respeito, pois caíram na armadilha que Luo Yao preparara.
Da Chuan, porém, era diferente. Para forçá-lo a falar, métodos psicológicos talvez não funcionassem, podendo até ter efeito inverso.
“Encontramos esta cápsula de veneno na boca dele,” disse Liu Jinbao. “É cianeto de potássio.”
“Ele não mordeu quando foi preso?”
“Não, talvez não tenha tido tempo ou não queria se expor,” respondeu Liu Jinbao.
“Ou está protegendo outra pessoa. Se morresse envenenado, isso confirmaria sua identidade suspeita e comprometeria o chefe disfarçado de comerciante de couro,” ponderou Luo Yao. “Você já revelou a verdadeira identidade dele, agora temos que mudar de abordagem.”
“Eu só não queria que...”
“Eu sei, foi mais seguro assim. Se morresse, seria difícil continuar a investigação.” Luo Yao sorriu de leve; não fazia muita diferença, era só mudar a tática. “Eu já o vi antes. Siga minhas instruções no interrogatório.”
“Certo.”
Luo Yao fez sinal para Liu Jinbao se aproximar. Os dois conversaram em voz baixa por três minutos. Liu Jinbao assentiu várias vezes, preparou-se e entrou.
Liu Jinbao não o maltratou, mas impôs as restrições necessárias: uma cadeira especial, mãos e pés presos, só a cabeça livre.
“Sabe por que foi preso?”
Da Chuan sabia que, uma vez capturado, o risco de exposição aumentava cem vezes. Desde que lhe tiraram a cápsula de veneno, ele percebeu.
Sua identidade estava comprometida.
Eles eram profissionais.
Ele podia morrer, mas precisava proteger Duomen Erlang. Era por isso que não resistira.
“Não sei por que fui preso. Sou apenas um cidadão comum.” Da Chuan ergueu a cabeça e sorriu para Liu Jinbao. Ao retirar a cápsula, perdera um dente; a boca sangrava, tornando-o assustador.
“Sei que vocês, japoneses, seguem o bushido e não têm medo da morte. Mas já estamos investigando você há dias. Se não houvesse provas, não o prenderíamos,” disse Liu Jinbao. “Posso acusá-lo de espionagem e levá-lo ao paredão para ser fuzilado.”
“Não sou japonês, nem espião. Estão enganados.”
“Seu documento diz que você é de Yuncheng, Shandong, certo?” Liu Jinbao abriu o documento e perguntou.
“Sim.”
“Em Yuncheng há uma vila chamada Songjia Zhuang. Conhece?”
“Co-conheço.” Sabia que era uma armadilha, mas só podia responder assim. O documento era falso, e a identidade não resistiria a uma investigação.
“Lá vive Song Lao San, também chamado Song Jiang. Você o conhece?”
“Não... não conheço...”
“É mesmo?” Liu Jinbao franziu o cenho, demonstrando suspeita.
“Ouvi falar, mas nunca o vi,” corrigiu-se Da Chuan rapidamente, dando uma resposta aceitável.
“Song Lao San tem uma filha chamada Da Lian, muito bonita, famosa na região. Muitas casamenteiras já gastaram a soleira da casa do Song tentando arranjar casamento para ela, mas Da Lian já tem um amor. Só que ele é pobre, não pode pagar dote e não pode se casar com ela. Da Lian é uma moça decidida — incentivou o namorado a fugir com ela. Sabe dessa história?”
“Não, não sei.” Da Chuan estava nervoso. Nunca treinara para responder a esse tipo de perguntas; suava na testa.
“E sabe o nome do namorado de Da Lian?”
“Como eu saberia?”
“O nome dele é Da Chuan!”
“Ah...” Da Chuan se sobressaltou e, instintivamente, deixou escapar um grito.
A reação de Da Chuan não passou despercebida por Liu Jinbao. Do lado de fora, Luo Yao não via, mas ouvia tudo, controlando até o ritmo dos batimentos cardíacos do interrogado.
Ele era Da Chuan, o garçom do Café Crepúsculo, que descobriu a exposição de Yoshida Shouzan e passou o aviso ao grupo “Kappa”.
Depois, Yoshida não o delatou; provavelmente, não sabia quem ele era, mas o alerta havia chegado ao destinatário.
Porém, ele não se expôs naquele momento — por que desapareceu logo depois?
Na época, Luo Yao suspeitou de todos no café, mas não conseguiu identificar o verdadeiro culpado.
Depois, foi chamado de volta e o caso passou para o grupo de agentes da Organização de Inteligência Militar, mas nada se descobriu.
“Já que não quer falar, então paciência.” Liu Jinbao, num tom de leve pesar, bateu palmas. Dois homens fortes, de torso nu, entraram com baldes e chicotes.
Para Liu Jinbao, era uma oportunidade de treino que ele não podia desperdiçar.