Capítulo 119: Ser humano ou fantasma?
— Senhor, senhora, vocês têm reserva?
— Como assim, precisa reservar só para comer? — disse Luo Yao, apoiando-se na bengala, com voz rouca e um pouco irritada, disfarçando-se de um homem de meia-idade.
— Bem, senhor, nosso restaurante de carne de cordeiro só atende clientes habituais. Normalmente, os clientes ligam para reservar antes de vir, caso contrário, não preparamos ingredientes em excesso... — o atendente, mostrando certa astúcia, percebeu a hostilidade do velho.
— Ah é? E se eu insistir em comer aqui hoje? — a voz de Luo Yao subiu três tons de repente.
— Senhor, talvez o senhor não saiba onde está... — o atendente começou a endurecer o tom. Antes da chegada dos japoneses, o “Tang Ji” tinha essa regra. Agora, com o chefe aliado aos japoneses, quem ousaria desafiar?
Só porque ele não queria confusão antes, não significava que tinha medo.
— Que lugar? Isto aqui não é um restaurante? — perguntou Luo Yao.
— Aqui é o Tang Ji. Não cause problemas! Nosso chefe é o diretor do Departamento de Investigação da Guarda de Segurança de Jiangcheng! — o rapaz, orgulhoso, apontou o dedo na cara de Luo Yao.
— Diretor do Departamento de Investigação, que cargo pomposo! Quem não sabe, pode até pensar que ele é o comandante da Guarda de Segurança de Jiangcheng! — Luo Yao riu alto. — Parece que agora quem manda são os japoneses. Seu chefe virou um traidor?
— O que você está falando? — o atendente imediatamente mudou a expressão.
— Seu olhar de desprezo, hoje vocês não me deixam comer, mas eu vou entrar mesmo assim — Luo Yao sorriu maliciosamente e deu um passo para dentro.
— Alguém, barre ele! — o jovem se apressou, tentando segurar Luo Yao pelo braço.
Antes que pudesse tocar seu braço, sentiu um formigamento no pescoço. Gong Hui apareceu atrás dele e, num golpe relâmpago, desferiu uma faca de mão cortando-lhe a garganta.
Man Cang, que havia deixado o carro de tração na porta, correu rapidamente para fechar a porta.
Os que estavam atrás ouviram o grito do atendente e ao menos cinco ou seis pessoas correram para fora.
Luo Yao, graças à sua audição aguçada, sabia exatamente quantos eram, a distância e a direção. Rapidamente, os três puxaram lenços para cobrir metade do rosto.
O primeiro que saiu, de frente para Gong Hui, levou um soco no rosto, gritou e mostrou a garganta!
Gong Hui, impiedosa, cortou a garganta dele com a faca de mão, que sangrou no chão sem emitir um som sequer.
Man Cang seguiu atrás, sem usar armas, segurou a garganta de um deles com uma mão e quebrou o pescoço com um estalo, matando-o instantaneamente.
Sua técnica de estrangulamento estava cada vez mais refinada.
Os três que saíram depois, ao verem a cena, assustaram-se e fugiram desesperados.
Será que Gong Hui e Man Cang dariam chance para eles?
A faca de mão de Gong Hui brilhou numa sombra negra, atingindo as costas de um dos fugitivos, enquanto Man Cang sacava uma pistola e disparava duas vezes.
Quase simultaneamente, os três caíram ao chão.
— Entrem, o terceiro quarto à esquerda, tem dois inimigos... — Luo Yao seguiu atrás deles, orientando sobre a posição dos oponentes.
Enquanto isso, Yan Ming e Su Jing entraram sorrateiramente pela porta dos fundos, com Xiao Dongbei ficando de guarda e alerta.
O Tang Ji contava normalmente com cerca de vinte vigias, todos leais a Gu Mosheng.
Quando Gu Mosheng saía, sempre levava seguranças. Antes, eram cinco ou seis com o motorista; agora, levava mais de dez.
Sem uma escolta de mais de dez, ele nem ousava sair às ruas.
Ele havia se tornado um traidor após cair na água; conforme as regras da organização militar, isso era punido com morte sumária. A organização jamais o pouparia. Por isso, não podia sair sem um grande contingente de seguranças.
Assim, ele levou metade das forças do Tang Ji consigo; a outra metade ficou. Durante o dia, ele acreditava que a organização não teria coragem de atacar o Tang Ji, afinal, a delegacia da Terceira Zona Especial não ficava longe; em três minutos chegariam se ouvissem tiros, sem contar os soldados japoneses em patrulha.
Além de assassinatos furtivos, a organização não tinha chance de atacá-lo abertamente.
Ele esqueceu que atacar o Tang Ji durante a parada militar japonesa, em plena luz do dia, era perfeitamente possível.
Por isso, Luo Yao e seus companheiros tomaram facilmente o controle do Tang Ji.
Graças à audição aguçada de Luo Yao, logo localizaram Gu Yuan, preso no porão. Não havia sofrido maus-tratos, nem algemas; apenas preso por alguns dias, mostrava-se um pouco abatido.
Embora Man Cang e os outros estivessem mascarados, Gu Yuan reconheceu-os assim que a porta abriu.
— Ainda precisava que a gente viesse te tirar? — Gong Hui resmungou impaciente.
Gu Yuan pegou seu casaco da cama e subiu com Man Cang e os outros.
— Quem é ele? — vendo Luo Yao envelhecido, Gu Yuan ficou surpreso e perguntou.
— O líder da equipe, que veio pessoalmente te resgatar — respondeu Man Cang.
— Obrigado, chefe.
— Este não é lugar para conversar, vamos sair primeiro — Luo Yao ordenou com voz grave. — Man Cang, leve Gu Yuan para o “Yu He Tang”, encontramo-nos depois.
— Sim, chefe.
— Chefe, encontramos uma sala secreta de Gu Mosheng, tem um cofre codificado — Yan Ming relatou apressado.
— Vamos!
Já que estavam ali, não poderiam voltar de mãos vazias. Gu Mosheng fora um alto oficial da organização militar em Jiangcheng e certamente guardava documentos secretos. Se ainda não os entregara aos japoneses, cedo ou tarde eles cairiam nas mãos deles; melhor retirar primeiro.
Era um cofre antigo, com fechadura rotativa.
Com a audição de Luo Yao, abrir o cofre foi fácil; em menos de um minuto, o cofre alemão estava aberto.
Uma luz dourada brilhou fortemente.
— Chefe, são muitas barras de ouro... — exclamou Yan Ming, enquanto Gong Hui tampava a boca para não fazer barulho.
— Rápido, peguem tudo e levem embora. Falaremos depois — ordenou Luo Yao. Aquela fortuna era a poupança de anos de Gu Mosheng, que não podia ficar para ele.
— Sim!
Cinco minutos depois, Luo Yao saiu pela porta da frente com um malote de documentos, acompanhado por Gong Hui. Yan Ming saiu pela porta dos fundos com uma mala cheia de barras de ouro e dinheiro.
Man Cang e Su Jing levaram Gu Yuan para longe primeiro.
O horário de jantar se aproximava; no Tang Ji, era preciso reservar para comer, uma regra que muitos conheciam. Sem reserva, ninguém entrava.
Cerca de dez minutos após a saída de Luo Yao e companhia, um cliente com reserva entrou no Tang Ji, empurrando a porta entreaberta.
Logo depois, um grito agudo!
— Matou alguém! Matou alguém! — o cliente saiu correndo, gritando como se tivesse visto um fantasma.
Quando Han Liangze acompanhou Gu Mosheng ao Tang Ji, a cena sangrenta os fez tremer de medo.
Exceto pelos cozinheiros e pelo atendente, que foram nocauteados e sobreviveram, nenhum dos capangas de Gu Mosheng ficou vivo.
Até a fortuna que ele juntou por anos foi saqueada completamente.
Os corpos foram retirados, alinhados no pátio e cobertos com lençóis brancos. Em plena luz do dia, a visão causava calafrios.
— Chefe, além dos que foram nocauteados, há treze corpos aqui, todos na sala — disse Wei Laosan, encarregado de recolher os corpos, também assustado.
Se ele estivesse no Tang Ji hoje, provavelmente já estaria morto também. Como não sentir medo?
— Morte instantânea!
— Pescoços quebrados...
— ...
— Todos morreram sem resistência, em um instante, tudo indica que foram feitos por profissionais! — Han Liangze, com vinte anos de experiência policial, reconheceu o estilo do crime.
Gu Mosheng, vindo da organização militar, já tinha visto de tudo, mas nunca uma operação silenciosa e tão rápida como aquela, matando tantos, sem um alarde sequer, em plena luz do dia.
Que tipo de pessoas seriam essas?
Eles atacaram o Tang Ji, claramente visando Gu Mosheng.
— E o outro? — Gu Mosheng lembrou-se que Gu Yuan estava preso no porão, mas seu corpo não foi encontrado.
— O senhor se refere ao inspetor Xiao Gu? — Wei Laosan percebeu de repente. — Não há ninguém no porão; ele deve ter fugido.
— Não fugiu. Essas pessoas vieram resgatar Gu Yuan, e também Liu Jinbao, mas este já foi transferido, enquanto Gu Yuan ainda está preso! — Gu Mosheng compreendeu o ponto-chave.
O esconderijo secreto do Tang Ji não era conhecido por muitos, apenas por seus homens de confiança. Quem vazou a informação?
Ele escolheu pessoalmente seus guardas, todos eram excelentes; como ninguém conseguiu resistir ao ataque? Quem eram esses inimigos?
Será que Dai Yunong deixou sua guarda pessoal em Jiangcheng?
Impossível! Essa equipe era usada apenas por ele, acompanhando-o sempre, e também cuidando da segurança do presidente.
Quem seriam essas pessoas?
O medo consumiu Gu Mosheng; ele suou frio, ficou exausto, como se tivesse adoecido gravemente.
— Mosheng, meu amigo — uma mão suave bateu no ombro de Gu Mosheng, que quase saltou de susto.
Quem faria uma brincadeira dessas agora?
— O que houve, Mosheng? Está se sentindo mal? Quer ir ao hospital? — Han Liangze, vendo o suor frio e a palidez do amigo, percebeu o pavor que ele sentia.
Qualquer um teria medo daquela cena, ainda mais sendo no seu próprio território.
— Estou bem, chefe Han. Talvez estejamos em apuros — Gu Mosheng respondeu, ainda pálido.
Eles foram atacados silenciosamente, mataram e resgataram pessoas em cerca de dez minutos, saindo sem fazer barulho.
Seriam fantasmas?
Claro que não; o dia era claro demais para fantasmas, mas se fossem humanos, esses eram realmente assustadores.