Capítulo 118: "Substituto"
— Preciso de um “substituto” — disse Luo Yao lentamente —, assim como aquele “Lin Miao” foi para o velho Mu. A identidade de Gu Yuan é bastante adequada.
— Você já tinha essa ideia há algum tempo, não é? — perguntou.
Luo Yao balançou a cabeça:
— Não. Se Gu Yuan for retirado, vou organizar para que ele saia primeiro de Shouchang e, então, dependendo da situação, decidiremos se ele permanece ou se retira de Jiangcheng.
— Você quer mandá-lo embora?
— Sim. Nessa situação, ele não é adequado para trabalhos de infiltração na zona ocupada, mas há certas coisas que não posso ordenar diretamente — explicou Luo Yao. — Ele também é nosso colega, tenho que considerar os sentimentos dele. Se agir de forma descuidada, ele pode pensar que estou tirando-o de perto de você de propósito.
— Antes ele tomou uma decisão por conta própria e ainda colocou o velho Liu em apuros, por isso já devia ter sido retirado — reclamou Gong Hui com o bico.
Luo Yao sorriu com ironia:
— Naquela vez ele agiu com boa intenção, embora tenha saído errado. Mas pelo menos foi assim que descobrimos a verdadeira identidade daquele Duomen, o que foi uma vantagem para nós.
— Mas Gu Yuan não pensará assim — resmungou Gong Hui —. Ele está envolvido com Xu Jihong, e nenhum dos dois é confiável.
— Não sei o que ele pensa, mas, de qualquer forma, agora só podemos agir assim — disse Luo Yao. — Nossa próxima missão é resgatar Gu Yuan das mãos de Gu Mosheng.
Como líder do grupo, por mais que existam rancores pessoais, ele não podia agir arbitrariamente.
— Que ótimo, finalmente vamos agir! — Gong Hui exclamou animada, batendo as mãos. Ela já queria entrar em ação há muito tempo, mas Luo Yao nunca lhe dera oportunidade.
— Eu vou comandar a operação pessoalmente — explicou Luo Yao —. Além de você, estarão Mu Yu, Xiaomao, Man Cang e Su Jing, todos membros centrais do grupo Heshén.
— Preciso preparar algo? — perguntou Gong Hui.
— Armas, principalmente pistolas silenciosas. Não podemos causar muito barulho. Se alarmarmos os soldados japoneses, teremos problemas — respondeu Luo Yao.
— Sem problema. Meu pai até conseguiu alguns silenciadores para a gente, mas se a gente começar a trocar tiros, não controlaremos a situação, certo?
— Enquanto eu estiver lá, acha que eles terão chance de atirar? — Luo Yao sorriu levemente.
Gong Hui entendeu de imediato. O fato de Luo Yao comandar pessoalmente significava que ele usaria sua audição aguçada para detectar qualquer ruído e prever a posição dos inimigos, facilitando o ataque surpresa.
Sendo um ataque furtivo, não haveria oportunidade para o inimigo contra-atacar, muito menos abrir fogo.
— Mas se encontrarmos o velho Liu, vamos salvar ou não? — perguntou Gong Hui.
— O velho Liu já foi transferido para a prisão da tropa militar do departamento de polícia especial, não precisamos nos preocupar em cruzar com ele — garantiu Luo Yao. — Man Cang tem Su Jing vigiando o “Tang Ji”, de onde veio essa informação. Gu Yuan provavelmente ainda está lá dentro. Em outras palavras, mesmo que não consigamos resgatá-lo, também destruiremos o “Tang Ji” de Gu Mosheng. Essa é a postura da nossa agência militar: não há bom destino para quem se torna traidor.
— Entendi. Vou me preparar. Quando será? — Gong Hui perguntou.
— Amanhã cedo.
— Certo.
...
Enquanto houver dinheiro, sair da Concessão Francesa não é difícil. Basta contratar um intermediário russo branco, comprar um “passaporte ativo”, deixar que ele te leve para fora e depois te traga de volta.
Muitos russos brancos na Concessão Francesa fazem esse tipo de negócio. Claro que o dinheiro é dividido com os soldados japoneses que controlam os postos de fiscalização, mas ainda assim é mais lucrativo do que trabalhar para eles.
De qualquer forma, nos postos de controle, sempre há revista pessoal. Se você carregar armas ou itens proibidos, não entra nem sai.
Esse negócio é uma conivência interna, e os oficiais japoneses de alto escalão fazem vista grossa.
Além disso, para entrar na Concessão Chinesa, os russos brancos precisam acompanhar você. Claro, se tiver um passaporte válido para a área chinesa, não precisa de acompanhante — basta combinar horário e local para um russo branco te buscar.
Se ele não aparecer, aí é problema.
Mas esses russos que fazem esse tipo de negócio geralmente são confiáveis. Se ele te tirar dali e não te trouxer de volta, e os japoneses descobrirem, ele terá problemas.
Um “passaporte ativo” custa oito yuans em moeda francesa. Mas se quiser sair da concessão e agir sozinho, tem que pagar mais, calculado por tempo: dez minutos custa um yuan, uma hora sai um pouco mais barato, mas ainda assim cinco yuans.
Na manhã seguinte, Luo Yao gastou oito yuans para comprar um “passaporte ativo”, saiu da Concessão Francesa e combinou com o sujeito um horário e local para o retorno, indo sozinho para o ponto combinado.
Quando os japoneses ocuparam Jiangcheng, a cidade ficou sob lei marcial, com soldados japoneses em todos os postos de controle nas ruas, revistando os pedestres. Muitas vezes, essas revistas viravam roubos à mão armada.
Por isso, o povo comum tinha medo de sair de casa.
Embora os oficiais superiores japoneses tivessem ordenado que os soldados se comportassem, o efeito foi quase nenhum. Mas não podiam transformar Jiangcheng numa cidade fantasma — precisavam manter a economia funcionando para sustentar a guerra.
Então, depois de um tempo, além dos postos importantes, não faziam mais revistas aleatórias.
Mas, se você tivesse azar e fosse parado numa fiscalização aleatória sem portar a “carteira de cidadão honesto” e o “passaporte”, azar o seu.
Quem tinha dinheiro podia pagar para se livrar, quem não tinha, podia ser enviado para trabalhos forçados, construção ou mineração, sem saber se sobreviveria.
Também não era raro serem fuzilados sumariamente como resistentes.
Man Cang atualmente se passava por chefe de cocheiros numa empresa de riquixás. Antes da ocupação japonesa, eles praticavam a estratégia de “terra arrasada”.
Todos os riquixás foram evacuados.
Ou seja, antes da entrada dos japoneses, paralisaram o transporte em Jiangcheng para irritá-los, embora o efeito prático fosse pequeno.
Mas isso dificultou um pouco o transporte japonês, que dependia em parte da logística aquática, e a tração manual era lenta.
Isso atrasou em certa medida o avanço japonês.
Com o tempo, no entanto, devido à necessidade da população e do transporte público, os riquixás começaram a voltar, afinal, os cocheiros também precisam comer.
Não trabalhar um ou dois dias é suportável, mas dez ou quinze dias já é demais. Hoje em dia, quantas famílias comuns guardam alimento suficiente?
Man Cang liderava um grupo clandestino escondido numa empresa chamada “Tongda”.
Luo Yao veio disfarçado, claro que não podia aparecer com sua verdadeira aparência. Se fosse reconhecido, haveria problemas, embora isso fosse improvável.
Nunca se deve ter a menor ilusão. Em cautela e prudência, Han Liangze poderia ser um exemplo para ele.
— Todos chegaram? — perguntou Luo Yao, vestindo um robe de algodão marrom comum, usando óculos com lentes cor de chá. Sua pele parecia um pouco escurecida.
— Só falta o velho Su — responderam.
— Então esperamos mais um pouco — Luo Yao dobrou a manga para cima, mostrando um relógio antigo no pulso. Viu que ainda tinha tempo e abaixou a mão.
— Luo Cha, onde estão as armas? — perguntou Luo Yao a Gong Hui.
Gong Hui, vestida como pintora, com boné, parecendo uma moleca, tirou debaixo da mesa uma bolsa de lona.
— Somos seis no total: além do líder, cinco pessoas. Cada um com uma pistola, trinta balas por pessoa — disse Gong Hui, abrindo a bolsa e exibindo cinco pistolas, incluindo Browning e uma pistola tipo “caixa”.
Luo Yao cheirou o ar com desapontamento. Parece que sua habilidade com armas já era questionada, pois nem arma lhe deram. E se ele se metesse em perigo?
— Eu estou acostumado com esta — disse Man Cang, pegando uma pistola tipo “caixa”.
Yan Ming e Xiao Dongbei também escolheram as pistolas “caixa”. Restaram duas Browning; Gong Hui pegou uma e a última ficou com Su Jing.
— Estas são as faixas para cobrir o rosto — disse Gong Hui, tirando lenços pretos. — Vamos agir de dia, precisamos ser rápidos e não podemos ser reconhecidos. Por isso, todos devem usar máscara dentro.
Todos pegaram um lenço.
Luo Yao também pegou um. Em ações diurnas, é melhor se proteger.
De repente, bateram à porta.
Man Cang ouviu e levantou-se:
— É Su Jing, vou abrir.
Pouco depois, Man Cang entrou acompanhado de Su Jing.
— Líder, irmã Hui, acabei de ver Gu Mosheng sair do “Tang Ji” com gente. Agora o local está mais vulnerável — Su Jing informou assim que entrou.
— Isso é um presente dos céus — disse Luo Yao, pensando em maneiras de atrair Gu Mosheng para longe. Agora, com ele fora, o ataque surpresa e o resgate ficam mais fáceis.
— Com Gu Mosheng fora, nossa ação tem ainda mais chances de sucesso — Luo Yao tirou um mapa interno do “Tang Ji” que desenhou de memória. — Agora vou distribuir as tarefas. Velho Man, você vem comigo puxando o riquixá. Luo Cha, você e eu entraremos pela entrada principal disfarçados de clientes para atrair a atenção dos guardas. Su Jing e Yan Ming...
— Nossa missão principal é resgatar Gu Yuan e só depois dar um aviso aos traidores que servem aos japoneses. Não podemos inverter as prioridades — lembrou Luo Yao. — Além disso, todo ouro, prata ou bens apreendidos não podem ser guardados por ninguém, devem ser entregues. Essa é a regra de ouro para as próximas operações. Quem guardar algo e vazar nossa identidade, comprometendo os outros, não espere piedade do nosso código interno.
— Entendido, líder. De qualquer forma, com a situação atual, guardar dinheiro não adianta, só chama atenção — disse Yan Ming.
— Tenho outra boa notícia: após o último “bombardeio” em Okamura, recebemos elogios da sede. Além da medalha Yun Hui para cada um, todos foram promovidos um nível e receberam um bônus de quinhentos yuans em moeda francesa! — anunciou Luo Yao.
— Sério? Que ótimo! — todos ficaram animados.
— Certo, faltam trinta minutos para as dez. Dez minutos para preparar, dez minutos para sair em grupos, e às 10h05 começamos a ação! — terminou Luo Yao a distribuição. — Agora, sincronizem os relógios.
...
— Que tal minha aparência? Ainda dá? — Luo Yao perguntou, maquiado para parecer vinte anos mais velho, com pele enrugada e costas levemente curvadas, cabelos grisalhos nas têmporas e uma pequena barba no queixo, parecendo ter pelo menos cinquenta anos.
Gong Hui também se maquiou para parecer mais madura. Juntos, pareciam um casal de velho marido e jovem esposa, condizente com a realidade dos ricos da época.
Entre os nobres, quem não gostava de ter uma concubina jovem e bonita?
— Falta só um detalhe... — Gong Hui insinuou, aproveitando para se aproximar, e Luo Yao não reclamou. Eles não eram amantes, mas parceiros, e esse tipo de contato íntimo era inevitável.
— Yao-ge, por que não chamou Xu Jihong para essa operação? — perguntou Gong Hui.
— Alguém precisa ficar de plantão, para emergências — respondeu Luo Yao.