Capítulo 74: Encrenca à Vista
Residência Han, em Wenhua Li.
O som da campainha rompeu o silêncio. Uma mulher de meia-idade, com passos miúdos e apressados, veio do interior da casa. Não havia um mordomo na família Han; quem cuidava dos assuntos era a esposa, Xu Xin, auxiliada por uma antiga criada trazida de sua família.
Hoje, essa criada era também a cozinheira da casa, conhecida como Irmã Lan. Além do motorista de Han Liangze, a família mantinha apenas um jardineiro, que vinha uma vez por semana para cuidar do jardim. Esta era uma casa onde se economizava em tudo – a avareza era quase uma virtude.
Irmã Lan abriu a pequena janela de ferro do portão e perguntou ao visitante: “Senhor, a quem procura?”
“Esta é a casa do Diretor Han?”
“É sim. O senhor deseja falar com o nosso patrão?” respondeu Lan, desconfiada. Desde que Han Liangze assumira oficialmente o cargo de diretor, as visitas à casa haviam se tornado frequentes. Não era prudente permitir a entrada de estranhos, especialmente de desconhecidos.
“Meu sobrenome é Duo. Sou um velho amigo do Diretor Han.” O homem tirou o chapéu e fez uma leve vênia, apresentando-se com polidez.
“Duo? Existe mesmo alguém com esse sobrenome?” Irmã Lan achou estranho; em toda a sua vida jamais encontrara alguém chamado “Duo”, e não acreditou de imediato.
“Como devo chamá-la, senhora?”
“Pode me chamar de Irmã Lan.” Afinal, não se agride quem chega sorrindo, e além disso havia um portão de ferro entre eles – o homem não poderia fazer-lhe mal. Lan acenou com a cabeça.
“Irmã Lan, por favor, acredite em mim. Sou de fato um antigo amigo do Diretor Han. Caso duvide, leve isto até ele e ele compreenderá.” O Sr. Duo entregou-lhe um cartão de visita.
Lan hesitou, mas acabou pegando o cartão. “Espere um pouco, vou perguntar ao senhor.”
Sala de estar da família Han.
Han Liangze relatava à esposa, Xu Xin, o que descobrira com Liu Jinbao. Xu Xin, aflita, exclamou: “Ainda bem que aquele pestinha do Luo Yao não foi mandado de volta para Jiangcheng, senão ia atormentar de novo nossa Han Yun, seria um problema sério.”
“Han Yun já se casou com o filho da família Hu, de que adiantaria ele insistir?” Han Liangze resmungou. “O que me surpreende é que o tal curso especial para o qual ele foi era organizado pelo Chefe Dai. Se eu soubesse disso, jamais teria pedido ao Gu Mo Han que o recomendasse.”
“Você, um respeitado diretor de polícia, tem medo de um simples agente da Junta Militar?” Xu Xin não gostou da resposta.
Han Liangze suspirou: “Não é medo dele, sei que não tem muita capacidade. Provavelmente nunca verá o Chefe Dai na vida. O que me preocupa é o futuro da nossa família.”
“Agora você é diretor, não há motivo para preocupação.” Xu Xin admirava as próprias mãos delicadas. Os cosméticos importados que o genro lhe dera faziam sua pele parecer ainda mais jovem do que aos vinte anos.
“Você não entende. Os japoneses estão prestes a invadir, e temo que Jiangcheng não possa ser defendida. Sou diretor de polícia em Xiakou – posso simplesmente fugir?”
“E por quê não? O próprio Chiang fugiu para Chongqing, e os outros não podem fugir também?” O temperamento forte de Xu Xin veio à tona.
“Baixe a voz! Você pode chamar o General Chiang assim?” O rosto de Han Liangze mudou de cor. “É preciso dizer ‘Presidente Chiang’.”
“Ah, deixe de formalidades. O governo nacionalista acabará destruído por ele, é o que penso.” Xu Xin riu, desdenhosa.
Irmã Lan entrou vinda do lado de fora, trazendo o cartão de visita. O casal calou-se imediatamente.
“Patrão, lá fora está um homem que diz se chamar Duo, afirma ser seu antigo amigo e me entregou este cartão.” Lan entregou o cartão, relatando o ocorrido.
“Duo?” Han Liangze ficou confuso. Não conhecia ninguém com esse sobrenome. Estranho, mas ainda assim recebeu o cartão.
No cartão havia apenas uma frase: “Aceite mais uma taça de vinho, ao oeste do Yangguan não há amigos.” Eram os dois últimos versos do poema “Despedida de Yuan Er para Anxi”, de Wang Wei, da dinastia Tang – justamente o favorito de Han Liangze.
Porém, poucas pessoas sabiam desse gosto, apenas antigos colegas de escola, e quase nenhum deles ainda se lembraria disso.
Duo?
Entre seus colegas não havia ninguém com esse sobrenome. Que coisa estranha.
“O que foi, Han?” perguntou Xu Xin, preocupada.
“É estranho, não conheço esse homem. Entre meus amigos e colegas não há ninguém chamado Duo, mas esses versos são realmente meus favoritos. Será mesmo um velho amigo?” Han Liangze pensou longamente sem obter resposta. “Lan, como é esse homem?”
“Tem cerca de quarenta anos, não é alto, rosto arredondado, veste-se bem e é muito educado. Só que o sotaque não parece daqui de Jiangcheng.”
“Não é de Jiangcheng?” Han Liangze ficou intrigado. Quem viria visitá-lo neste momento?
“Han, por que não vai vê-lo e descobre quem é?” sugeriu Xu Xin.
“Sem saber quem é ele, não posso simplesmente…”
“Então mande Lan pedir que ele vá embora.” Xu Xin não ligou. Se fosse alguém de cargo mais alto que Han Liangze, não esperaria permissão para entrar.
“E se for realmente um velho amigo? Rejeitá-lo assim seria vergonhoso.” Han Liangze prezava demais sua reputação.
“Nem isso serve, nem aquilo… Faça como quiser.” Xu Xin empurrou Han Liangze e subiu sozinha, irritada.
“Lan, vá perguntar de onde vem esse senhor Duo e o que deseja comigo.” Han Liangze decidiu ser cauteloso.
“Sim, patrão.”
Instantes depois, Lan voltou: “O senhor Duo disse que veio de Jinghai e traz uma proposta de fortuna para o senhor.”
“Fortuna?” Han Liangze ficou surpreso. Jinghai era uma grande metrópole; mesmo sob ocupação japonesa, ainda era a cidade mais próspera da China.
Mas teria ele algum amigo chamado Duo em Jinghai?
Após muito pensar, a palavra “fortuna” não lhe saiu da cabeça. Por fim, Han Liangze pediu a Lan que trouxesse o visitante.
“Irmão Han, muito prazer!”
“Perdoe-me, poderia se apresentar…?” Han Liangze cumprimentou-o com um gesto formal – à primeira vista, não reconheceu o visitante.
“Vinte anos sem nos vermos, você continua tão cauteloso quanto antes.” O Sr. Duo sentou-se à frente de Han Liangze. “Já esqueceu dos velhos colegas?”
“Duo… Duo Mon…” Han Liangze finalmente se lembrou. Aquele homem baixo e rechonchudo era seu colega de turma na escola de polícia no Japão: Domojiro.
“Lembrou-se, irmão Han?” Domojiro sorriu levemente.
“Como veio parar em Jiangcheng? Não sabe que agora estão caçando espiões e agentes japoneses por toda parte?” Han Liangze sentiu um frio percorrer-lhe as costas. Como chefe da polícia de Xiakou, receber um japonês em casa era perigoso.
Se a Inspetoria do Comando de Segurança soubesse disso, naquela mesma noite ele perderia o cargo e acabaria em uma prisão escura.
“Irmão Han, fomos colegas, vim a Jiangcheng e você nem ao menos me recebe?” Domojiro sorria.
Ele viera preparado. Conhecia Han Liangze profundamente e, antes de entrar furtivamente em Jiangcheng, também investigara a situação atual do colega.
Do contrário, como poderia um japonês, ainda trabalhando no Ministério do Interior, aparecer tão abertamente na casa do diretor de polícia de Xiakou?
“Domo, você sabe onde está?”
“Sei. Na casa do Diretor Han, da Polícia de Xiakou.” Domojiro riu. “Se quiser entregar-me ao Comando de Segurança, talvez até ganhe promoção e recompensa.”
“Se sabe disso, por que veio?”
“Já pensou se Jiangcheng pode ser defendida?” Domojiro recostou-se, cruzando as pernas, relaxado. “Quando Jiangcheng cair, outros poderão fugir antes. Mas você, como diretor de polícia, pode fugir? Além disso, a família da sua esposa está toda aqui e não pode partir.”
Han Liangze sabia disso. Era exatamente o que mais o preocupava.
“Domo, o que você quer?”
“Há um caminho brilhante, depende de você se quer segui-lo ou não.” Domojiro suspirou aliviado. Han Liangze, tal como vinte anos antes, era egoísta e covarde, como muitos chineses.
Foi por isso que arriscou infiltrar-se em Jiangcheng, para convencê-lo a cooperar com o Império. Se conseguisse tomar Jiangcheng sem grandes perdas, seria um enorme feito.
“Trair seu país, tornar-me um colaborador?” Han Liangze estremeceu. Seria marcado e desprezado para sempre.
“Irmão Han, agora é diretor de polícia. Não quer ir além, tornar-se prefeito de Jiangcheng?”
A respiração de Han Liangze tornou-se ofegante. Ser chefe da polícia já lhe exigira todos os esforços, e prefeito era algo que só ousara sonhar – nem sequer se permitia tal esperança.
“Pelo que sei, muitos em seu governo não querem guerra e prefeririam resolver a disputa com o Japão pacificamente. Isso pode se tornar realidade no futuro. Se você agir primeiro, tudo será diferente.” Domojiro continuou a persuadi-lo.
Percebia que o antigo colega já hesitava e até se mostrava tentado.
“Onde está hospedado? Qual sua identidade?”
“Sou agora um comerciante de artigos de couro, sob o nome de Duo Long, morando na Rua Jinfú, número 13.” Domojiro sabia que Han Liangze não o entregaria à Inspetoria.
“Caro Duo, certos assuntos não convém tratar em casa. Que tal nos encontrarmos amanhã em um lugar discreto?” Han Liangze não queria discutir traição em sua própria residência, sentia-se culpado.
“Claro, amanhã aguardarei você em casa.” Domojiro sabia que era hora de partir. Levantou-se, curvou-se e se despediu.
“Irmã Lan, acompanhe o visitante.” Han Liangze ordenou.
Assim que Domojiro saiu, Han Liangze sentiu-se como um camarão sem espinha – afundou mole no sofá. Sabia o que acabara de fazer.
Se desse aquele passo, não haveria retorno.
Como fora cair numa situação dessas?