Capítulo 104: Conversa com Amamiya Mu
Quando Luo Yao acordou, percebeu que estava deitado em sua própria cama, com uma bandagem enrolada no braço, pela qual ainda se via sangue fresco escorrendo. No braço direito, havia uma bolsa de soro intravenoso presa. Ele estendeu a mão para retirar a agulha, pressionando o local da perfuração, e se levantou da cama. Ao olhar pela janela, a luz do sol já estava se pondo no horizonte.
Ele havia dormido pelo menos um dia inteiro.
No espelho, seu rosto pálido como papel denunciava claramente a perda excessiva de sangue.
— Ah, por que você já está levantado? — a porta foi aberta e Gong Hui entrou carregando uma tigela de sopa medicinal. Ao ver que Luo Yao já estava de pé, apressou-se em colocar a tigela sobre a mesa.
— Quanto tempo dormi?
— Desde que voltou ontem à noite, não passou nem vinte horas — respondeu Gong Hui.
— Ainda bem — Luo Yao soltou um suspiro aliviado. — E Yugu Mu, como está?
— Ele está bem, está detido temporariamente no “Pavilhão Yuhe” — Gong Hui assentiu. — E aquele velho Huozi, descobrimos que ele na verdade é um ronin samurai japonês.
— Subestimamos, quase deixamos esses dois escaparem — Luo Yao comentou, reconhecendo sua própria falha. Se Yugu Mu escolheu essa rota de fuga, certamente tinha plena confiança nela. Com seu caráter cauteloso, jamais confiaria a alguém sem garantir sua lealdade para buscá-lo.
— É verdade, também falhamos em nossa investigação sobre o velho Huozi, não esperávamos que ele estivesse tão bem disfarçado — Gong Hui disse. — Provavelmente, desde o dia em que Yugu Mu se infiltrou em Jiangcheng, ele já havia planejado uma rota de fuga.
— Pessoas assim são ainda mais perigosas.
— Sim — Gong Hui se aproximou, segurando a tigela de sopa recém-preparada. — Aqui, para fortalecer seu qi e sangue, fiz especialmente para você. Beba enquanto está quente.
Luo Yao franziu ligeiramente a testa. Desde criança, ele não gostava de remédios chineses, o sabor era insuportável, mas sabia que remédio bom é amargo, e Gong Hui agia com boa intenção. Ele hesitou um instante antes de pegar a tigela.
— Beba logo.
Luo Yao ergueu a tigela e tomou a sopa em um só gole.
— Não vou poder ir à escola nos próximos dias, preciso ligar para pedir licença — disse ele, levantando-se para ir ao escritório.
— Você não precisa ligar, eu já pedi licença para você — Gong Hui respondeu.
— Você ligou? O que disse?
— O que mais poderia dizer? Que você torceu o braço ao cair na casa ao lado e não pode assistir às aulas. Já pedi licença em seu nome — Gong Hui sorriu levemente, recolheu a tigela e se preparou para descer.
— E quanto ao pai? Houve algum relatório?
Luo Yao assentiu. Desde que a licença foi solicitada, estava tudo bem; um braço deslocado era um motivo plausível.
— Enviei notícias para o pai desde cedo, também informei sobre seu ferimento.
— E o que ele disse?
— Além de nos elogiar na mensagem, pediu para cuidarmos bem de você. Sobre Yugu Mu, ordenou que não o interrogássemos nem usássemos tortura por enquanto — Gong Hui explicou.
— Por quê?
— Não faço ideia. O pai não disse o motivo, e eu também não me atrevi a perguntar.
— Está bem, entendi. Se o pai deu essa ordem, vamos respeitá-la — Luo Yao acenou com a mão. — O valor de Yugu Mu é grande?
— Muito grande — respondeu Gong Hui. — Ele comanda um grupo “Kappa” que infiltrou os principais setores militares e políticos de Jiangcheng como um peneira: militares, políticos, transporte… todas as informações chegaram facilmente aos japoneses.
— Ah, e a mala de Yugu Mu? Vocês já abriram para verificar?
— Ainda não.
— Por que não? Mesmo que não o interrogássemos, não teríamos direito de revistar os pertences dele?
Luo Yao sentiu uma irritação crescente.
— Yugu Mu disse que, enquanto a mala permanecer fechada, tudo bem, mas se abrirem, quem olhar para o conteúdo terá má sorte e morrerá sem deixar restos. Por isso...
— Que ameaça venenosa. Então vocês têm medo de abrir?
— Como o pai ordenou que não usássemos tortura nele, deve haver algo que não querem que saibamos. Se abrirmos de forma imprudente, e houver algo terrível lá dentro, não poderemos suportar as consequências — Gong Hui explicou.
Luo Yao refletiu por um momento e concordou: — Está bem, vamos lacrar a mala e esperar o pai chegar para decidir.
— Você sabe que eu não sou boa na cozinha, então pedi comida pronta. Vai chegar em breve. Se estiver com fome, tenho alguns biscoitos aqui...
— E a sopa que você fez? — Luo Yao de repente lembrou.
— Eu preparei, levou mais de duas horas.
— Ah? — Luo Yao ficou com o rosto sombrio ao pensar que estava com pressa antes.
Depois de mais uma noite de descanso, logo pela manhã Luo Yao foi ao “Pavilhão Yuhe”.
— O chefe de equipe é mesmo esperto, já sabia que Yugu Mu tentaria fugir sorrateiramente e o esperava no caminho — Liu Jinbao, ao ver Luo Yao, o bajulou abertamente.
— Já chega, quase perdi a vida — Luo Yao respondeu indiferente. — Leve-me para ver Yugu Mu, tenho algumas perguntas para ele.
Liu Jinbao assentiu e conduziu Luo Yao até a cela onde Yugu Mu estava detido.
Considerando a periculosidade do prisioneiro, além de revistá-lo e trocar sua roupa por um uniforme especial, colocaram-lhe pesados grilhões nos pés e algemas nas mãos.
Ao reencontrar Yugu Mu, ele não era mais o elegante e cortês chefe que conheciam; os cabelos estavam desgrenhados, os olhos vermelhos denunciavam uma mente inquieta.
Isso fez Luo Yao subestimá-lo um pouco.
Ele esperava encontrar um Yugu Mu imperturbável, mas, agora preso, era como qualquer outro homem comum.
Talvez para não perder pontos diante dele, Yugu Mu rapidamente ajustou sua expressão, recuperando a calma no olhar.
A mudança foi impressionantemente rápida.
— Chefe Qin, desculpe-me, eu não queria realmente te ferir com aquela faca — Yugu Mu fez uma leve reverência, iniciando a conversa.
Luo Yao pensou interiormente: você não queria me ferir, queria me matar.
— Posso continuar chamando você de “Velho Mu”? É mais natural assim — Luo Yao declarou, plenamente consciente das características culturais e nacionais do Japão. Eles valorizam a “cerimônia” ao extremo, uma formalidade que pode ser cruel, tanto para si quanto para os outros.
Claro, pode-se dizer que isso demonstra respeito ao oponente, pois ele o conquistou.
Os japoneses, em sua essência, obedecem e veneram os fortes — é um gene que corre em suas veias.
— Claro.
— Velho Mu, sei que você construiu uma vasta rede de contatos em Jiangcheng durante esses cinco anos e possui muitos segredos ocultos. Estou certo? — Luo Yao sorriu levemente.
Yugu Mu hesitou, depois assentiu: — Como espião infiltrado em outro país, às vezes precisamos cuidar da própria segurança. Ter segredos dos políticos locais é uma forma de proteção.
— Seu método é inteligente, mas perigoso. Se souberem que você tem essas informações, vão querer te eliminar.
— Sim, é uma loucura, mas posso usar esses segredos para negociar.
— E agora você e essas informações estão em nossas mãos?
— A mala está protegida por senha. Se tentarem abrir com força, sabem as consequências — Yugu Mu sorriu levemente.
Luo Yao mudou a expressão ao entender a implicação.
Yugu Mu instalou uma bomba na mala; se aberta à força, explodirá, e quem tentar abrir não deixará vestígios.
— Você é realmente calculista.
— Os homens do chefe Qin são inteligentes, mas avisei a eles desde o início, e eles foram obedientes — Yugu Mu sorriu.
— Na verdade, não estamos interessados nos segredos da mala...
— Vocês não querem saber quantos deles têm ligações secretas com o Império do Grande Japão? — Yugu Mu sorriu levemente. — Essas pessoas são bombas-relógio para vocês, e eu já enviei suas listas ao meu país.
— Pode ser verdade, mas ainda acredito que muitos cometeram um erro momentâneo, que apenas seguiram um caminho errado. Enquanto não houver traição concreta, ainda há chance de redenção, até mesmo de reparação. Não vamos simplesmente condená-los para sempre — Luo Yao falou calmamente.
— O chefe Qin tem autoridade para decidir isso?
— Se até eu, um mero figurante, entendo essa lógica, acha que os altos escalões do nosso governo não entendem? — Luo Yao fez uma pausa, organizando as palavras. — Vou contar uma história: há mais de mil anos, ocorreu um grande escândalo de corrupção na corte, envolvendo centenas de oficiais. As provas eram incontestáveis. Pela lei da época, deveriam ser confiscados bens e executados sem exceção. Mas se isso acontecesse, um terço dos cargos no governo ficaria vazio, e a administração seria inviável. O que o imperador fez?
Yugu Mu ficou surpreso.
— O imperador e o chanceler decidiram queimar as provas diante dos ministros e decretaram que o assunto terminaria ali, com perdão e promessa de não reincidência — Luo Yao explicou.
— Eles simplesmente deixaram esses oficiais escaparem? — Yugu Mu perguntou, boquiaberto.
— Claro que não. Embora as provas tenham sido destruídas, os nomes ficaram registrados. Nos anos seguintes, esses oficiais foram substituídos ou rebaixados. Não receberam a punição merecida, mas para evitar tumultos e manter a estabilidade do Estado, optaram pelo mal menor. Entende? — Luo Yao perguntou.
— Você quer dizer que, mesmo que eu entregasse essas provas, seriam queimadas e ninguém seria punido?
— Você acha que, por ter provas contra eles, pode usá-las como escudo ou moeda de troca conosco? Isso não funciona. O que está em nossas mãos, podemos decidir o destino. Abrir a mala agora ou depois não importa; um dia será aberta, e então essas pessoas não escaparão das consequências. Seus argumentos não têm valor aqui. E a lista que enviou ao seu império pode ser útil para eles, mas para você, não tem serventia.
— Mas eu ainda quero tentar, afinal, meu interlocutor nas negociações não é você, chefe Qin, certo? — Yugu Mu percebeu rapidamente que quase caiu na armadilha verbal de Luo Yao.
— Faça como quiser — Luo Yao respondeu, sabendo que seria difícil quebrar a defesa psicológica de Yugu Mu. Ele não era um adversário fácil. Sem hesitar, virou-se e começou a sair. — Ah, e aquele velho Huozi é teimoso. Para evitar que ele se suicidasse mordeando a língua, mandei arrancar todos os dentes dele.
— O quê? — Yugu Mu exclamou.
Luo Yao estava avisando que não tinha misericórdia; quando precisasse ser implacável, não hesitaria em agir com severidade.