Capítulo 85: Fim de Semana
— Senhor Mu.
— Senhor Qin, a senhorita Hui chegou — o velho Mu recebeu-os calorosamente.
— Como de costume.
— Espere um momento, senhor Mu, hoje gostaria de experimentar o bolo Floresta Negra, tem? — Gong Hui chamou o velho Mu.
O velho Mu hesitou um instante:
— Se a senhorita Hui gosta, é claro que não há problema.
— Obrigada.
...
— Quando ele se aproximou há pouco, o coração dele acelerou perceptivelmente — após a saída de Mu, Luo Yao abaixou a voz e falou discretamente com Gong Hui.
— Ele suspeita de você?
— Já nos entendemos sem palavras — Luo Yao assentiu.
— E mesmo assim, ele se atreve a nos ver? — espantou-se Gong Hui.
— Ele desconfia da nossa identidade, mas não sabe exatamente de que lado somos, além disso, acredita esconder-se bem. Enquanto não houver provas concretas, nada podem contra ele — explicou Luo Yao.
— Por quê?
— Este café existe há pelo menos cinco anos na Concessão Francesa, muitos frequentam, especialmente estrangeiros que vivem por aqui. Ele mantém boas relações pessoais com vários cônsules estrangeiros; diga-me, ousaria mexer com um homem desses?
— Ah, ele é tão influente?
— Se não fosse, como teria passado todos esses anos debaixo do nosso nariz? — Luo Yao pressentia que, caso a verdadeira identidade do velho Mu viesse à tona, surpreenderia toda a Concessão Francesa e talvez a cidade inteira.
...
— Chefe, Da Chuan desapareceu, será que...
— Não se aflija! Já falei para não discutir essas coisas na loja. Se houver algo, falamos à noite — o velho Mu repreendeu severamente o barista. — Concentre-se no trabalho.
— Sim, senhor.
...
Luo Yao sorriu levemente; ouvir à distância, ouvir com clareza, era uma dádiva tentadora que resolvia muitos problemas.
Essa sensação de vitória certa parecia até injusta.
O velho Mu era extremamente cauteloso; embora o barista tenha mencionado Da Chuan, não tocou no assunto principal, então era preciso esperar.
Mas ele era claramente muito prudente e frio.
Provavelmente, Luo Yao não conseguiria mais informações úteis.
Mesmo assim, já era suficiente.
A notícia do desaparecimento de Da Chuan abalou o velho Mu, confirmando que sua relação com Da Chuan não era apenas de patrão e empregado.
Além de Da Chuan, havia também Katayama Xiaomi, igualmente oriundo do Café Crepúsculo, subordinado de “Lin Miao”.
Ambos ligados ao Café Crepúsculo.
...
— Senhor Qin, desculpe a espera — o velho Mu trouxe pessoalmente o café para Luo Yao e Gong Hui. — O bolo Floresta Negra da senhorita Hui ainda vai demorar um pouco, não se importam, certo?
— Não, hoje é fim de semana, raramente tenho tempo para acompanhá-la — Luo Yao assentiu gentilmente.
O velho Mu respondeu com polidez:
— Então, vou voltar ao trabalho. Se precisarem de algo, chamem um dos garçons.
— Certo.
...
— O café de hoje foi preparado apressadamente, talvez o barista não esteja de bom humor — Luo Yao provou um gole e, insatisfeito, fez uma careta ao colocar a xícara na mesa.
— Desculpe, senhor Qin, posso trocar sua xícara? — um garçom, aparentemente atento à mesa deles, apressou-se a se aproximar e curvou-se.
— Não é preciso, esta mesma está boa — Luo Yao gesticulou generosamente.
— Servir o melhor café aos nossos clientes é o lema do Crepúsculo; senhor Qin, permita-nos lhe dar outra oportunidade — insistiu o garçom.
— Está bem, sua atitude de serviço realmente me surpreende — Luo Yao assentiu. O velho Mu era mesmo um talento, conseguia administrar o café com tanta vitalidade.
Esse velho Mu compreendia profundamente a natureza humana.
— Obrigado.
— O café está com problema? — Gong Hui perguntou baixinho.
— Não, só arrumei um pretexto — Luo Yao sorriu, como se realmente pudesse distinguir o ponto de fervura do café; não tinha esse dom.
Levantou-se e foi ao banheiro.
Ao retornar, sentou-se.
Logo, o garçom trouxe-lhe uma nova xícara de café.
— Senhor Qin, sua bebida está na temperatura ideal, aproveite.
— Obrigado.
Luo Yao sorriu, agradecendo, pegou a xícara e provou um gole, mostrando um leve sinal de aprovação:
— Sim, desta vez está no ponto.
O número de clientes do café aumentava gradativamente; afinal, era fim de semana, e o tempo livre era maior, especialmente entre estrangeiros que trabalhavam e viviam na Concessão Francesa, acostumados ao chá da tarde, reunindo-se em pequenos grupos para apreciar café e sobremesas, desfrutando de momentos de lazer e descontração.
A ocupação chegou a mais de oitenta por cento.
Nesse momento, um patrulheiro vestindo camiseta entrou, trazendo alguns papéis que pareciam “avisos”, dirigindo-se diretamente ao balcão.
— Onde está o senhor Mu?
— Nosso chefe está na cozinha, vou chamá-lo — apressou-se o garçom.
— Então é o inspetor Wang — o velho Mu saiu da cozinha ainda com o avental branco, sorrindo ao saudar o patrulheiro.
— Senhor Mu, não venho à toa; veja este aviso de pessoa desaparecida, se encontrar alguém parecido, mande alguém ao departamento de polícia. Não há grande recompensa, mas ao menos os colegas ganham por correr atrás — o inspetor Wang tirou um aviso da pilha em suas mãos e entregou ao velho Mu.
As mãos do velho Mu estavam cobertas de creme, dificultando segurar o papel; o barista ao lado pegou e colocou sobre o balcão.
O velho Mu olhou rapidamente e seu semblante mudou levemente:
— Inspetor Wang, um chinês sumiu na zona chinesa, por que procurar aqui na concessão?
— Não sei, só sigo ordens; agora preciso ir ao próximo local — disse Wang, virando-se.
— Ah, dê duas garrafas de refrigerante ao inspetor Wang e seus colegas... — mas Wang já havia saído apressadamente, claramente seguindo ordens superiores.
— Chefe, isso... — o barista não se conteve, mas o velho Mu cortou sua frase com um olhar.
— Guarde o papel, não deixe os clientes verem.
— Sim.
O velho Mu e o barista reconheceram imediatamente que o “aviso de pessoa desaparecida” era sobre “Sun Jia Chuan”, o próprio Da Chuan, esforçando-se para ocultar a informação dos demais.
Estavam claramente inquietos.
Se o velho Mu tivesse reconhecido Da Chuan de imediato, Luo Yao teria de admirá-lo; pelo menos assim, a suspeita não seria suficiente para incriminá-lo.
— Isso foi obra sua? — Gong Hui perguntou.
— Sim, mais ou menos — Luo Yao assentiu. — Pela reação do velho Mu, sua ligação com Da Chuan não é apenas de patrão e empregado. Se fosse, poderia ter informado diretamente o patrulheiro, não haveria necessidade de esconder o aviso dos clientes.
— E que tipo de pessoa você acha que o velho Mu é? — Gong Hui insistiu.
...
— Difícil dizer; enfim, talvez seja mais enigmático do que o “Kappa” Lin Miao, que estamos procurando — Luo Yao ponderou.
— O verdadeiro manipulador por trás do grande peixe?
— Parece ser mesmo — respondeu Luo Yao.
...
— Desculpe a demora, senhorita Hui, aqui está seu bolo Floresta Negra — o velho Mu trouxe pessoalmente a fatia.
Gong Hui sorriu:
— Obrigada, senhor Mu, suas sobremesas são tão deliciosas que provavelmente voltaremos todos os fins de semana.
— É mesmo? Muito bem-vindos — o velho Mu sorriu. — Será um prazer.
— Vocês fazem entregas?
— Entregas, creio que não — o velho Mu balançou a cabeça.
— O velho Qin trabalha demais e não quer que eu saia sozinha; então, quando estou em casa e quero comer algo, preciso esperar ele voltar. Se vocês entregassem, seria ótimo — Gong Hui lamentou.
— Senhor Qin, a segurança na Concessão Francesa é muito boa, por que não confia em deixar a senhorita Hui sair sozinha? — o velho Mu perguntou curioso.
— Ah, ela é péssima de direção; sai e não encontra o caminho de volta, você acha que posso deixá-la sair sozinha? Só nas redondezas de casa ela não se perde; se der mais voltas, já não sabe onde está. Não posso prendê-la ao meu lado o tempo todo — Luo Yao respondeu com naturalidade.
— É a primeira vez que ouço isso.
— Senhor Mu, se não for possível, não tem problema. De todo modo, voltaremos todos os fins de semana, enquanto seu estabelecimento estiver aberto — disse Luo Yao.
— Certamente, com clientes como vocês, faço questão de manter o café aberto — o velho Mu sorriu radiante.
...
— Vocês dois, um mente sem remorso, o outro de uma falsidade extrema! — assim que o velho Mu se afastou, Gong Hui olhou para Luo Yao, indignada.
— Foi você quem provocou o assunto, ainda coloca a culpa em mim? Se não fosse minha resposta rápida, como seguiria adiante? — Luo Yao rebateu.
— Eu já tinha uma desculpa pronta, não precisei de você.
— Certo, coma logo, o velho Liu marcou de nos encontrar hoje à noite na livraria — Luo Yao murmurou baixinho.
— Entendido.
...
Quando Gong Hui terminou o bolo Floresta Negra, Luo Yao colocou o dinheiro sob a xícara; os dois saíram do Café Crepúsculo de mãos dadas.
No balcão, atrás deles:
— Chefe, devemos...
O velho Mu lançou um olhar severo ao garçom:
— Não mexa com aqueles dois.
— Por quê, chefe? Eles claramente suspeitam de nós — o garçom protestou. — Basta sua ordem, e esta noite resolvo o problema.
— E se não conseguir matar? Iremos todos expostos, você assume as consequências? — o velho Mu retrucou. — Nosso objetivo em Jiangcheng não é matar, entendeu?
— Entendi, chefe.
— Volte ao trabalho.
Senhor Qin, senhorita Hui, quem são vocês afinal? — O olhar de Mu era frio e penetrante.