Capítulo 79: Território Familiar
— Amanhã, às quatro e meia da tarde, eles marcaram de se encontrar na igreja católica da Rua Poyang — informou Acheng a Luo Yao, passando o endereço exato do encontro.
— Igreja católica da Rua Poyang... Verifique se haverá algum evento por lá amanhã à tarde — Luo Yao virou-se para Gong Hui.
— Não precisa verificar — respondeu Acheng. — Amanhã haverá um casamento naquele local, por volta das quatro horas. Clifford é um dos convidados.
Luo Yao acenou levemente com a cabeça.
— Parece que nosso “Senhor Lin” é realmente cauteloso.
— O Chefe Ma pediu instruções. Devemos preparar alguma coisa na cerimônia?
— Não será necessário. Amanhã irei pessoalmente — Luo Yao balançou a cabeça. Não importava que artimanhas Clifford e “Lin Miao” tentassem, enquanto ele estivesse presente, nada escaparia aos seus ouvidos.
Além disso, pelo que conhecia de Lin Miao, sabia que ele era extremamente cuidadoso. Caso suspeitasse de algo, poderia cancelar o encontro e uma oportunidade tão boa seria desperdiçada.
— O casamento é aberto. Qualquer um que deseje felicitar os noivos pode comparecer.
— Isso é ótimo, assim evitamos problemas — Luo Yao sorriu. — Mas para participar de um casamento ocidental, preciso de um terno. Parece que amanhã terei que providenciar um.
— E eu? — perguntou Gong Hui.
— Você também quer ir?
— Afinal, é um casamento. Você acha apropriado ir sozinho? — Gong Hui ruborizou levemente, falando num tom baixo.
— Mas, se tivermos que comprar dois ternos, vai custar caro. Nosso orçamento é limitado... — Luo Yao realmente não queria levá-la.
Embora aquela mulher pudesse ajudá-lo, sentia que estreitar demais a relação poderia trazer problemas.
— Eu pago pelo meu terno, está bem?
— Não seria correto. Estamos em uma missão, não posso deixá-la pagar do próprio bolso — Luo Yao sentiu um arrepio nas costas e apressou-se em dizer — Melhor tirarmos do nosso orçamento.
— Não faço questão — disse Gong Hui, descendo as escadas, visivelmente contrariada.
— O que aconteceu com ela? — Luo Yao perguntou a Acheng.
Acheng, sem jeito, esboçou um sorriso embaraçado.
— Senhor Qin, o coração de uma mulher é difícil de decifrar. Eu mesmo não entendo muito bem. Com licença, vou indo.
— Vá com calma.
...
Rua Hanzheng, Restaurante Montanhas e Águas.
Aquele restaurante fora escolhido pelo secretário Dong Cheng para Han Liangze. Era seguro e discreto, permitindo que ele marcasse um encontro com Domon Jirō para jantar.
Apesar dos anos de polícia, Han Liangze ainda tinha suas habilidades.
— Irmão Han, o que está acontecendo? Aqueles homens são seus subordinados? — Domon Jirō perguntou ansioso logo após se sentar.
— São meus subordinados, mas não são meus homens — respondeu Han Liangze com um aceno de cabeça.
— O que isso significa?
— Foi nomeado um novo chefe para a Divisão de Operações Especiais da delegacia. Ele já fazia parte da divisão, mas havia sido enviado para um treinamento especial no início do ano. Agora voltou como chefe, nomeado diretamente pelos superiores. Só soube quando recebi a ordem — explicou Han Liangze.
— É mesmo?
— Acho que ele voltou com uma missão específica, mas não sei qual é. Assim que assumiu, recolheu todas as informações sobre casos de espionagem japonesa e gastou muito dinheiro comprando informantes, buscando pistas por toda a parte. Nesses dias, suspeitos de espionagem japonesa detidos por ele já somam dezenas, interrogando-os diariamente, deixando toda a delegacia em suspense — suspirou Han Liangze.
— Por que ele está de olho em mim?
— Provavelmente não em você, mas em seu subordinado. Segundo soube, alguém denunciou à divisão que há algo estranho na identidade do seu homem, mas não sei os detalhes.
— O quê? — Domon Jirō ficou alarmado. Ele conhecia bem o passado de Okawa. Só escolhera Okawa como assistente por precisar de alguém familiarizado com Jiangcheng.
Após trazer Okawa para Jiangcheng, ele de fato teve contato com “Kappa”, mas apenas uma vez. O restante do tempo estava sempre com Domon Jirō.
— Domon, não subestime os agentes do Serviço de Inteligência Militar. Eles não são inferiores aos seus espiões treinados. Se sentirem o cheiro, não largam o osso. E aí, nem eu poderei ajudá-lo — alertou Han Liangze.
— O fato de me contar isso mostra que confia no Exército Imperial do Japão, não é? — Domon Jirō sorriu confiante.
Han Liangze replicou friamente:
— Falemos depois que tomarem o Forte de Tianjiazhen.
— Fique tranquilo, vamos conquistar o Forte de Tianjiazhen. E então, irmão Han, fará sua escolha? — Domon Jirō sorriu levemente.
— Vocês, japoneses, ainda são poucos em Jiangcheng. Caso contrário, por que veio me procurar? — Han Liangze não passava de alguém seduzido no início, mas agora havia recuperado a razão. — Claro, têm muitas opções. Pode ser comigo, pode ser com outros. Mas minha posição é a mais vantajosa para vocês.
— Irmão Han, você é mesmo perspicaz. Compreendeu tudo rapidamente.
— Domon, estou colaborando apenas para garantir uma rota de fuga para mim. Quanto ao futuro, nada é certo. O melhor é cortar logo os laços com seu subordinado. Se realmente resolverem agir, nem eu poderei socorrê-lo.
— Não teme que, se eu for descoberto, acabe o envolvendo também?
— Se quiser morrer, diga o que quiser — Han Liangze não teria chegado ao cargo de chefe de polícia se fosse um incompetente.
— Irmão Han, seus resultados na escola não eram os melhores, mas sempre estavam entre os primeiros. Comparado a você, sou muito inferior. Vinte anos se passaram e você não me decepcionou — Domon Jirō mostrou-se surpreso. — Agora meu assistente não pode simplesmente desaparecer. Se sumir, será como confessar. O chefe da divisão de operações especiais vai se fixar em mim.
Han Liangze concordou.
— Ele não sabe da nossa relação, certo?
— Não deve saber. Só pedi ao secretário para sondar um pouco, e como superior dele, não é estranho perguntar — respondeu Han Liangze.
— Ótimo. Tenho um lote de couro de boi de alta qualidade e gostaria de fazer um negócio com você. A família Xu, de sua esposa, tem uma fábrica de couro. Recentemente, estão precisando de matéria-prima. Então, nossa relação será a de fornecedor e comprador.
— Você realmente tem couro de boi? — Han Liangze ficou surpreso. Domon Jirō estava atento até a esses detalhes.
— Se irmão Han quiser, naturalmente tenho — Domon Jirō assentiu.
— Mil peles em uma semana?
— Mil é difícil, mas trezentas não são problema — ponderou Domon Jirō.
— Então trezentas. Quanto custam?
— Se aceitar colaborar com o Império do Japão, as trezentas peles são um presente. O que custa dar isso a você? — sorriu Domon Jirō, como se fosse algo trivial.
— Pago mesmo assim — Han Liangze conteve o impulso de aceitar de graça. Afinal, a natureza do acordo era diferente, ainda que quisesse se enganar.
...
De volta ao número 13 da Rua Jinfu, Domon Jirō chamou Okawa ao seu quarto.
Com expressão sombria e voz baixa, perguntou:
— Você teve contato recentemente com alguém do “Kappa”?
— Não, por quê, chefe? — Okawa estava confuso, sem entender a razão da pergunta.
— Você pode ter sido exposto — Domon Jirō foi direto.
— O quê? Isso não pode ser! — Okawa ficou apavorado. Como poderia ter sido exposto? Desde que retornou a Jiangcheng, só se encontrara uma vez com “Velho Mu”, e de forma extremamente discreta, sem sequer ir ao Café Crepúsculo. A chance de exposição era mínima.
Se ele realmente tivesse sido descoberto, “Velho Mu” e o café também estariam em perigo. Mas tudo corria normalmente por lá.
— Ultimamente, há estranhos nas redondezas e pessoas nos seguindo. São agentes à paisana da divisão de operações especiais. Suspeitam que você seja um informante do império, e eu, como seu chefe, também estou sob suspeita — disse Domon Jirō, grave.
— Mas por que não agem logo?
— Viemos de fora. Se não tiverem certeza da sua identidade, agir apressadamente pode alertar outros. E também querem descobrir nossos contatos. Infelizmente, você acabou se expondo. Quando saiu de Jiangcheng, ninguém suspeitava de você.
— Será que foi porque me encontrei com Yoshida no Café Crepúsculo e depois pedi demissão de repente, levantando suspeitas? — Okawa começou a duvidar de si mesmo.
— Se suspeitassem de você, teriam investigado o café. Mas “Velho Mu” está em paz. Então, por que desconfiam de você? — Domon Jirō também estava intrigado. — Sua exposição não deve ter relação com Yoshida ou “Velho Mu”.
— Chefe, será que foi coisa do Han Liangze? Ele teme que sejamos descobertos e quer nos manter sob controle?
— Você quer dizer, ladrão gritando pega-ladrão? — Domon Jirō ficou pensativo. Já imaginava essa possibilidade, mas com sua experiência, não achava provável.
Se fosse esse o caso, seu velho colega era um excelente ator, pois não havia deixado pistas.
Mas durante o jantar, a atitude de Han Liangze era bem diferente da de antes, até querendo negociar em pé de igualdade.
Mandar alguém nos vigiar serve para controlar nossos movimentos, assim pode atacar ou recuar conforme desejar, sempre em vantagem. Isso combina com o estilo dele.
— Chefe, não podemos deixar que ele nos intimide assim. Caso contrário, ele fará o que quiser conosco — disse Okawa. — Se eu estivesse mesmo exposto, eles já teriam agido.
— Sua análise faz sentido, mas é melhor sermos cautelosos. Amanhã, vá ao telégrafo e envie um despacho para mim.
— Sim, senhor.