Avanço
Em 13 de novembro, Zhou Xin e Fang Zhuo embarcaram no trem rumo a Lin’an.
Assim que entrou no vagão, Zhou Xin ficou inquieto e começou a andar de um lado para o outro, percorrendo toda a extensão antes de retornar ao seu assento.
— Zhou, o que você está procurando? Por acaso marcou de encontrar alguém nessa viagem? — perguntou Fang Zhuo, intrigado.
— Fang, é que não consigo me acalmar. Só de pensar que vamos nos reunir com investidores e grandes nomes da internet, fico com o coração disparado — respondeu Zhou Xin, engolindo dois goles d’água, antes de completar: — Será que vão perceber que os dados do nosso site estão estranhos?
Fang Zhuo sorriu sem dizer nada. No fundo, achava a coragem do seu diretor técnico um tanto limitada.
Mas, ao refletir melhor, percebeu que talvez aquele nervosismo fosse, na verdade, o mais sensato. Por que zombar do correto?
Zhou Xin continuou, falando para si mesmo:
— E se eles não perceberem de início, mas, ao conversarem conosco, descobrirem tudo? Que vergonha seria…
A voz de Fang Zhuo oscilava no compasso do trem:
— Se tem medo de passar vergonha, é ainda mais importante dar o máximo de si. Ninguém recrimina um vencedor. Ao contrário, todos aplaudem e oferecem flores.
Um senhor de aparência rural, sentado ao lado, riu ao ouvir aquilo e, com um forte sotaque, comentou:
— Vocês, estudantes, falam como se estivessem compondo poesia.
Zhou Xin olhou curioso:
— Tio, como sabe que somos estudantes?
— Vi com estes olhos — respondeu o homem.
Fang Zhuo riu, lançando um olhar a Zhou Xin e dizendo ao senhor:
— Tio, o senhor tem uma ótima percepção. Viemos de Luzhou para participar de um evento em Lin’an, por causa de um projeto. Meu amigo aqui está sempre inseguro, veja só, não para quieto desde que entrou no vagão.
Fang Zhuo prosseguiu:
— E o senhor, o que acha do nosso projeto? Veja, todo mundo adoece às vezes. O que estamos fazendo é permitir que as pessoas marquem consulta com o médico usando o computador, sem precisar ir até o hospital. O senhor acha que pode dar certo? Vamos conseguir?
O idoso assentiu:
— Pois é, quem come de tudo uma hora adoece. Então você diz que não precisa ir ao hospital para marcar consulta?
Pensou um pouco e respondeu:
— Se não for caro, com certeza vai dar certo.
Fang Zhuo achou interessante. O homem pensou pouco tempo. Então perguntou:
— Por quê?
— Porque sair de casa para marcar consulta em outro lugar sai caro. Tem a passagem, comida cara, se não conseguir vaga tem que dormir por lá e gastar mais. Se for mais barato e prático, claro que vai dar certo — explicou o idoso, contando nos dedos. Era fácil entender.
Zhou Xin não conteve um sorriso.
Mas o velho não terminou ali. Falando alegremente, acrescentou:
— Isso aí parece coisa de rádio, coisa avançada de computador, que vai ajudar gente como a gente, que precisa viajar para ir ao hospital. Se não cobrarem caro, por que não daria certo?
O coração de Fang Zhuo se agitou. A palavra “povo” não parecia habitual no vocabulário daquele senhor. Ele suspeitou que aquela ideia vinha de discursos recentes, talvez de alguma nova teoria que em breve apareceria nos livros de política.
Ergueu o polegar, sorrindo:
— O senhor tem razão, mas nosso projeto precisa crescer para chegar a todas as cidades e aldeias. Ainda vai levar um tempo até estar disponível para vocês.
O idoso curvou-se, pegou uma garrafa de aguardente no saco de estopa e, enquanto desenroscava a tampa, disse:
— O importante não é se a gente vai usar, mas sim que nossos filhos vão. Computador tem que ensinar desde pequeno. Meu filho mesmo está estudando informática. Tecnologia só tende a melhorar, nada se faz da noite para o dia.
Deu mais uma risada:
— Escutando você, nem parece estudante. E aí, tem copo? Eu tenho cachaça, vamos tomar um gole.
Fang Zhuo caiu na gargalhada, acenando negativamente.
Sinalizou para Zhou Xin:
— Nós temos o projeto, o tio tem a bebida, vai lá, beba com ele. Ouviu o que ele disse? Está te ensinando como apresentar o projeto para os chefes. Brinde ao tio!
Zhou Xin, pensativo, não teve como recusar diante das palavras do chefe.
Meio tímido, pegou o copo e aceitou a bebida oferecida. Após dois goles, sentiu a cabeça girar, mas a ansiedade com a reunião já não era a mesma.
O trem seguia balançando, e Fang Zhuo conversava distraidamente com os passageiros. Eram todos bem falantes, abordavam qualquer tema, tornando a viagem mais interessante.
O trem, que partira de Luzhou pouco depois do meio-dia, chegou à estação de Lin’an quase cinco horas depois. Fang Zhuo sentia as costas e a cintura reclamarem.
Ao sair e olhar para a placa da estação, comentou, admirado:
— Quando será que vai ter trem-bala de Luzhou para Lin’an?
Zhou Xin, curioso, perguntou:
— Fang, o que é trem-bala?
Fang Zhuo hesitou, então explicou:
— É como o Shinkansen do Japão, já ouviu falar?
Zhou Xin riu:
— Então tem que importar? Já tem notícia disso? Deve ser caríssimo.
Fang Zhuo percebeu que era difícil explicar e, sem dar resposta, seguiu adiante com a mala. Um dia, pensou, Zhou ainda se lembraria dessas palavras.
— Vamos para o hotel. Seu professor já deve ter chegado, não?
— Sim, pelo roteiro ele chegaria pela manhã. Foi ele quem nos inscreveu e, ao que parece, nossos quartos são vizinhos — respondeu Zhou Xin. — Talvez hoje à noite a gente o veja. Fang, o que vai dizer quando encontrá-lo?
— Dizer o quê? Não pense nisso agora. Pense no mais importante — disse Fang Zhuo, esfregando o dedo indicador e o polegar. — Como vamos abordar os investidores? Como mostrar para eles o futuro brilhante do nosso site de agendamento? É isso que importa agora.
Zhou Xin sorriu amargamente:
— Só de pensar nisso já fico nervoso. Fang, deixa isso para você mesmo.
Fang Zhuo lançou-lhe um olhar e respondeu, prático:
— Tudo bem, é até bom que, como diretor técnico, você fique nervoso. É o que todos esperam de quem trabalha com tecnologia.
Zhou Xin protestou por um instante, mas logo seguiu calado atrás do chefe.
Quando chegaram ao hotel, já passava das sete da noite.
— Fang, acho que estamos vestidos de forma muito casual. Já vi vários de terno, será que são do evento de internet de amanhã? — perguntou Zhou Xin, apreensivo, muito coerente com sua posição de estudante em busca de experiência.
— Não se preocupe. Ser casual também tem seu valor. Podem até ver como energia de estudante. Pensa nos estrangeiros que montam empresas ainda na faculdade, como o… — Fang Zhuo interrompeu-se a tempo.
— Você quis dizer Bill Gates, certo? — corrigiu Zhou Xin.
— Isso. Se a gente subir ao palco, talvez nossas camisetas brancas até se destaquem. Não se prenda a isso — disse Fang Zhuo, observando as pessoas no saguão do hotel.
Como fazer para conhecer os grandes nomes?
Após pensar um pouco, concluiu que o jeito mais simples era abordar conhecidos, pedir cartão de visita, trocar telefone.
Afinal, sendo estudante, podia se dar ao luxo de ser ousado.
Ainda assim, após esperar uns dez minutos, mesmo com tantos engravatados passando, não reconheceu ninguém. Talvez houvesse celebridades entre eles, mas Fang Zhuo não era bom de fisionomia.
Só reconheceria os tipos como Ma Yun, ou os magnatas da Sohu e Netease, famosos nos jornais.
— Deixa pra lá, melhor procurar um conhecido. Vamos, vou entrar no QQ e tentar achar algum amigo online.
Sem perder mais tempo, dirigiu-se ao computador público do saguão do hotel.