Cinquenta e um, nove pessoas
— Vocês não acham que estamos passando dos limites? — No campo, sob uma grande árvore ao lado da fogueira, o primeiro homem, de olhos cinzentos, servia-se de café com uma chaleira descascada enquanto perguntava aos outros oito.
— Haha — o segundo homem ria sem fôlego, cortando um pedaço de couro chamuscado de javali do naco de carne que segurava, lançando-o ao fogo e observando-o queimar e soltar fumaça. — Isso me faz lembrar de quando você escreveu aquelas letras vermelhas no alto da delegacia. Para escrever aquelas palavras, você foi capaz de se esconder por horas.
— Esperem — o primeiro homem, notando os sorrisos nos rostos dos demais, piscou seus olhos cinzentos, surpreso — o que isso tem a ver com o que estou dizendo agora, hein?
— Nada, é só engraçado mesmo, haha — o segundo homem, ao ver a expressão séria do primeiro querendo explicar, caiu na gargalhada de novo, chegando a cuspir a carne que mastigava. Tentou pegá-la de volta, mas não conseguiu.
— Ele é o mais fraco de todos — disse o quarto homem, esfregando o queixo enquanto cortava mais carne do javali assado na fogueira — e nem é certo que será pego. Aquele garoto, Leiyan, eu prefiro esperar para ver.
— Só porque ele sabe da existência do nosso pequeno grupo, não significa que devemos considerá-lo um dos nossos — disse o quinto homem, erguendo-se e espreguiçando-se, ajustando a aba do chapéu enquanto se dirigia ao primeiro. — Jogar fotos na delegacia, e ainda por cima cinco de uma vez, é demais até pra mim.
— Não vejo problema. Com essa confusão, finalmente temos plateia — comentou o sexto homem. — Isso não é ótimo?
— Exatamente, todos precisamos de plateia — acrescentou o terceiro, apontando para o sexto. — Todos precisamos de plateia.
— Você realmente acha que eles vão resolver o caso? — o sétimo homem perguntou ao oitavo, que permanecia em silêncio. — Eu acho que o grupo do Leiyan ainda é muito amador — balançou a cabeça.
— Ele pode resolver, está apenas em seu período de estágio — respondeu o oitavo, alisando a barba e tomando um gole de café com um sorriso. — Plateia precisa ser cultivada, especialmente a de alto nível.
— Deixamos nove pares de pegadas tão evidentes no chão — disse o nono homem, levantando-se e olhando para os outros — será que já perceberam? Acho que estamos sendo óbvios demais.
— Eles certamente perceberam — respondeu o quinto. — O chefe deles é ótimo rastreador. Eu vi ele examinando as marcas na beirada da floresta. Ou seja, eles já sabem que existimos.
— Era mesmo necessário que soubessem? — o nono abriu as mãos para o grupo. — Se o Leiyan e os outros descobrirem demais, vai perder a graça.
— Não vejo graça perdida — disse o segundo, mastigando carne — eles só sabem que nove pessoas estiveram na cena, nada mais.
— Será que isso vai atrair mais espectadores? — especulou animado o quinto. — E se ele contar sobre nós para o Império de Da Qin? Teríamos uma plateia maior. Seria incrível!
— É bem possível, e eles estão sendo muito bem alimentados — analisou o quarto. — Podem trocar essa informação por mais recompensas. Assim que Da Qin souber, talvez criem uma força-tarefa. Ah, aí sim faremos sucesso!
— Devemos ser desapegados da fama — disse o primeiro, com seus olhos cinzentos, dirigindo-se ao quarto e ao quinto.
O segundo caiu na gargalhada quando o primeiro falou, curvando-se de tanto rir.
— Quero dizer que precisamos manter a calma — o primeiro se corrigiu, vendo todos rirem. — Caso contrário, nosso trabalho não será bem feito, e mesmo com plateia, nossa reputação ficará manchada, certo? Eu não quero que falem mal do que faço.
— É bom que o Leiyan saiba que existimos — declarou o oitavo, acenando para os demais. — Serve de catalisador, para lembrá-lo de que sempre há alguém melhor, forçando-o a pensar mais, a dormir com um olho aberto. Ele vai amadurecer rápido, será um bom espectador e um ótimo adversário.
— É isso mesmo — concordou o quinto. — De repente, nossos adversários sumiram todos de uma vez. Que tédio... É como pintar um quadro de nível mundial e não ter quem admire. Que tragédia! — disse, jogando o que tinha nas mãos na fogueira, levantando faíscas.
Uma rajada de vento trouxe uma folha até o oitavo homem. Com um movimento ágil, ele sacou a faca e, com um golpe preciso, cortou a folha ao meio. Observando as metades caírem, guardou a lâmina e, friamente, disse aos outros:
— Devemos esperar que ele amadureça. Nada de pressa.
— É verdade que Leiyan ainda não é grande coisa, mas, entre as equipes similares de outros países, a dele tem o maior potencial — comentou o nono. — Podem se tornar nossos maiores rivais no futuro.
— Só de pensar nisso fico entusiasmado — disse o primeiro, esfregando as mãos e com os olhos cinzentos brilhando.
— Seu tolo, é melhor não estragar tudo — alertou o segundo, enquanto mastigava.
— Não se preocupe, vou intensificar o treinamento dele — respondeu o primeiro, sorrindo para o oitavo.
— Avisem aos nossos conhecidos, aos companheiros — disse o oitavo. — Trabalhem bastante nos próximos tempos, elevem as taxas de criminalidade em cada país, e elevem muito. Assim, os reis darão valor ao nosso espetáculo, e o jogo de esconde-esconde será mais interessante. Por hoje, encerramos.
Ao ouvirem isso, os outros se levantaram; uns foram em direção aos seus veículos, outros sumiram na escuridão. Só o oitavo permaneceu junto à fogueira, saboreando tranquilamente seu café...