Cinquenta e cinco, O Matadouro (III)
— Chega, agora não é hora de apontar culpados, deixe-me pensar em uma solução — disse Leiyan, examinando cuidadosamente as cinco portas e tudo ao redor, enquanto falava com Érico. — O mais importante agora é que precisamos entrar.
— Cara, podemos tentar ir até a cidade de Nimburgo, mais distante — sugeriu Érico, considerando que esse caminho estava bloqueado e querendo mostrar apoio ao velho David. — Deve haver outros sobreviventes por lá, como falamos antes.
— Como vamos até lá? Não temos comida! Se não houver carros abandonados pelo caminho, logo ficaremos sem combustível. São duzentos quilômetros até lá! — questionou a mulher W, quase em desespero. A pequena W jogou-se nos braços da mãe e começou a chorar, tornando o ambiente ainda mais tenso.
— Conferi o mapa e calculei, são cento e setenta e cinco quilômetros — respondeu Érico, tirando do bolso uma folha amassada e entregando-a para W, tentando acalmá-la.
— Dane-se Nimburgo! O que vamos fazer esta noite? — W abriu o mapa que Érico lhe entregara, agarrando ainda mais forte a pequena W, gritando histericamente. Em seguida, olhou ao redor com medo, temendo atrair devoradores.
— Vir aqui foi ideia dele — Érico puxou o mapa de volta e apontou para o velho David, explicando-se para W. — Por que desconta em mim?
— Estou tentando ajudar todo mundo. Se não viesse aqui, teria outro destino? — David olhou para os olhos ansiosos de W e respondeu a Érico.
— Deixem-me pensar, parem de discutir — Leiyan, irritado com a confusão, virou-se para eles. Quando todos estavam agitados, percebeu que uma das câmeras de vigilância acima da porta central se moveu levemente.
— Vamos, todos para o carro, saímos agora! — Érico acenou para os outros e começou a se afastar.
— Esperem, ela se mexeu — Leiyan fitou a câmera atentamente e sinalizou para que aguardassem.
— Pare de sonhar — Érico aproximou-se, olhou para a câmera, que estava imóvel, e disse impaciente — Você deve ter se confundido.
— Estou falando sério — insistiu Leiyan, sem desviar os olhos da câmera.
— Cara, isso já não funciona. É só um dispositivo automático, não tem nada de especial em se mover. Ouça, precisamos ir logo, o tempo está contra nós — disse Érico, tentando puxar Leiyan pelo braço para tirá-lo dali.
— Solte-me — Leiyan livrou-se do braço de Érico e continuou fixando o olhar na câmera, como se encarasse alguém do outro lado. Imaginava que, se havia alguém ali, também o observava.
— Olhe ao redor, está tudo destruído. Pare de insistir nisso, cara — Érico suspirou, achando que Leiyan estava perdendo a razão.
— Sei que você está aí dentro, sei que está nos vendo e pode me ouvir. Por favor, estamos sem saída — Leiyan ignorou as palavras de Érico e, de repente, gritou para a câmera. — Temos mulheres e crianças aqui! — Apontou para W e sua filha, pedindo socorro com voz aflita. — Por favor, ajude-nos! Não temos comida, nem gasolina!
A câmera permaneceu imóvel, assim como a porta. Nenhuma resposta do outro lado.
— Vamos embora, não há ninguém aí dentro — Érico já não tinha esperanças, vendo W mais ansiosa, tentou convencer Leiyan.
— Fique atento ao redor — Leiyan recomendou a Érico antes de voltar a gritar para a câmera, desta vez em tom de acusação — Se não nos deixar entrar, estará nos condenando à morte! Não pode simplesmente ignorar nosso desespero!
Leiyan já tinha lágrimas nos olhos, mas a porta permanecia fechada, como se fosse parte da própria parede.
— Está bem, vou dizer uma coisa — Leiyan afastou novamente o braço de Érico e pensou que, se o apelo não funcionava, era hora de ameaçar. Apontou para a câmera e avisou: — Sei pilotar um tanque. Se você não abrir, vou explodir essa porta com o canhão!
Sem esperar resposta, correu até o tanque mais próximo. Érico e os outros o seguiram. Leiyan fez um gesto para que aguardassem junto à porta.
Subiu no tanque, entrou e, com uma faca, desferiu um golpe na cabeça de cada um dos dois cadáveres ali dentro, ignorando o mau cheiro. Conferiu o combustível, girou a chave e ligou o tanque.
Sob seu comando, o tanque avançou alguns metros em direção ao prédio, depois parou. Girou o canhão para trás e disparou contra o vazio distante, fazendo uma explosão estrondosa a cem metros dali. O barulho foi assustador naquele deserto silencioso. Leiyan então voltou o canhão para o prédio, elevando a mira.
De repente, uma das portas centrais estremeceu com um estrondo e o portão de enrolar começou a subir lentamente, liberando uma luz branca e intensa, quase sobrenatural, como um facho de nave alienígena. Surpresos, Érico e os outros ficaram pasmos, achando que presenciavam algo fantástico.
Vendo isso, Leiyan exultou e, ao gritar “Sim!”, preparou-se para sair do tanque. Não viu um obstáculo, tropeçou e caiu sobre o corpo de um soldado, sua mão pousando sobre uma granada.
Em tempos como aquele, toda arma era valiosa. Sem hesitar, Leiyan pegou a granada e, com a outra mão, a pistola do soldado. Guardou ambos os itens nos bolsos, saltou do tanque e correu até Érico e os outros, que ainda observavam a luz, atônitos.
— O que estão esperando? Peguem tudo e entrem! — gritou Leiyan, erguendo uma das bolsas.
Ao ouvir o chamado, o grupo voltou a si, pegou as mochilas e seguiu Leiyan, que mantinha a arma em punho, correndo para a porta entreaberta.
Leiyan empurrou a porta de vidro dupla atrás do portão, abaixou-se e entrou, arrastando sua bolsa para bloquear parte da entrada. Fez sinal para os outros entrarem e, arma em punho, manteve-se atento ao redor, de vigia.
Do outro lado, havia um amplo e iluminado saguão, limpo, sem cheiro de cadáveres. Assim que entraram, Érico e os demais sentiram como se tivessem atravessado para outro mundo, o ânimo renovado, olhando ao redor com a curiosidade de quem pisa em um palácio pela primeira vez.
— O perigo não acabou. Fiquem atentos à porta, ao corredor, e procurem sinais de devoradores ao redor — alertou Leiyan, franzindo o cenho ao ver o olhar curioso dos companheiros.
Enquanto Leiyan os advertia, um homem branco de meia-idade, vestindo jaleco e segurando uma submetralhadora, apareceu de repente no topo da escada lateral. Apontou a arma para eles e ordenou:
— Parados! Quem são vocês? Por que vieram aqui? O que querem?
— Somos refugiados, buscamos uma esperança — respondeu Leiyan. — Este é o centro de monitoramento do vírus. Com o surto, claro que viemos para cá.
— Esperança? Em tempos assim, isso é um luxo — respondeu o homem.
Leiyan, mantendo a arma apontada, perguntou:
— E você, quem é?
— Trabalho aqui, sou doutor em medicina — respondeu o homem, sem desviar os olhos deles.
— E por que está armado? — indagou Leiyan, olhando para a submetralhadora em suas mãos.