Quarenta e nove, na cidade (cinco)
Lei Yan segurava a arma, empurrou o soldado caído sobre si, tapou os ouvidos e ficou atordoado pelo estampido dos tiros, que faziam seus ouvidos zumbirem incessantemente, deixando-o tonto, como se tudo ao seu redor girasse e as imagens se duplicassem diante de seus olhos.
Depois de um bom tempo, o zumbido em seus ouvidos finalmente diminuiu. Apressado, pegou o rádio que havia caído ao lado e começou a chamar: “Alô! Alô!”, temendo perder aquela que parecia ser sua única chance de salvação, caída do céu. Por sorte, do outro lado ainda houve resposta.
“Droga, ainda está vivo? Você aí dentro do tanque”, perguntou a voz do outro lado. “O que aconteceu agora há pouco?”
“Ainda estou vivo”, Lei Yan enxugou o suor do rosto e respondeu ao rádio: “Havia um soldado dentro do tanque, era um zumbi, de repente pulou sobre mim com a arma, ainda bem que não sabia atirar”. Talvez por estar há tanto tempo sem conversar com alguém, Lei Yan não conseguiu parar de falar e logo perguntou: “Você está por perto? Consegue me ver?”
“Sim, estou vendo você”, respondeu o estranho do outro lado do rádio. “Mas tenho más notícias: você está cercado por zumbis.”
“E tem alguma boa notícia?”, perguntou Lei Yan, aflito.
“Não”, veio a resposta seca do outro lado.
“Ouça, seja você quem for, preciso dizer uma coisa”, disse Lei Yan, olhando para o cadáver do soldado a seu lado, falando ao rádio. “Ficar aqui dentro desse ferro velho é insuportável, mal consigo respirar, o ar está impregnado de um cheiro pútrido, parece que estou num caixão. Se for para ajudar, ajude até o fim, pense em alguma maneira de me tirar desse tanque.”
“Cara, você devia ver daqui de onde estou”, respondeu o outro, “você ia se mijar de medo”.
“Tem alguma sugestão?”, perguntou Lei Yan, todo suado, ofegante como se tivesse acabado de sair debaixo d’água.
“Tenho sim, você precisa fugir”, respondeu o estranho. “Esses zumbis não vão embora tão cedo. Se não escapar, vai acabar morrendo aí dentro desse ferro.”
“Fugir? Claro que preciso fugir”, disse Lei Yan, enxugando o suor da testa, ansioso. “Mas isso não é sugestão, quero saber como.”
“Ah, talvez tivesse uma agora há pouco. Que armas você tem aí?”, perguntou o estranho.
Lei Yan pegou a pistola do chão, conferiu as balas e revistou novamente o corpo do soldado, encontrando outro carregador. Olhou para o carregador nas mãos e respondeu ao rádio: “Tenho uma pistola e umas dez balas, mais ou menos”.
“Viu? Ainda dava tempo”, disse o estranho. “Eu estou bem ali na trilha ao lado do tanque. Se você tivesse escutado meu chamado antes, saltasse com a arma do tanque”, fez uma pausa, “só tinha um zumbi em cima do tanque. Era só eliminá-lo, correr pela trilha e usar a pistola para derrubar mais uma dúzia de zumbis, então nos encontraríamos e eu te levaria embora. Mas agora, ah, agora é tarde demais.”
“O que quer dizer com isso?” As palavras atingiram Lei Yan como um raio. Ficou alguns segundos atordoado antes de reagir e perguntar, aflito.
“Você atirou debaixo do tanque, atraiu todos os zumbis de longe. Eles não são rápidos como humanos, mas se tivesse saído antes, o lado direito do tanque estava livre, dava para correr pela trilha e abrir caminho a tiros. Agora, acabou. A trilha está tomada por zumbis que vieram de longe, são mais de cem”, o estranho fez uma pausa, “e ao redor do tanque, nem se fala, só cabeças de zumbis, uma encostada na outra. Eles sentem seu cheiro, estão esperando você sair para te devorarem.”
“Não há mesmo nenhuma saída?”, insistiu Lei Yan.
“Pelo menos eu não vejo nenhuma”, respondeu o estranho após alguns segundos de silêncio. “Se conseguir sair, estarei esperando na trilha, uns cinquenta metros adiante, tem um entroncamento com um portão de ferro. Estarei lá.”
“Só tem um zumbi em cima de mim?”, Lei Yan fechou os olhos, sentindo-se mal, mas sabia que não podia morrer dentro daquele tanque. Reuniu forças e perguntou.
“Sim, só um. Os outros idiotas estão todos se enfiando debaixo do tanque, igual você fez há pouco”, respondeu o estranho. “Eles estão seguindo o seu rastro, o que está em cima deve ter se perdido.”
“Entendi, obrigado”, disse Lei Yan, olhando para a escotilha do tanque acima de si. Respirou fundo algumas vezes para se acalmar, então arrastou o corpo do soldado até debaixo da saída do tanque. Num ímpeto, abriu a tampa, ergueu o tronco do soldado com seus braços fortes e, agarrando as pernas do morto, usou toda a força para empurrar o corpo para fora do tanque.
“Uau, você é corajoso”, comentou o estranho pelo rádio.
“Nem um banquete de carne de cavalo distrai esses zumbis?”, Lei Yan aspirou o ar fresco que entrou do lado de fora, pegou uma pá de sapador, e espiou do lado de fora. A visão era de um mar de zumbis, cabeças se amontoando de maneira tão impressionante que até alguém preparado como Lei Yan não pôde deixar de prender a respiração.
“Tem muitos zumbis, você viu, não é? Cuidado com o da sua esquerda”, alertou o estranho.
“Merda”, Lei Yan brandiu a pá e derrubou o único zumbi careca em cima do tanque. O morto rolou e caiu, mas os zumbis ao redor perceberam metade do corpo de Lei Yan para fora do tanque e avançaram de todos os lados em direção à torre. Lei Yan só teve tempo de fechar a escotilha e recuar para dentro.
“Que pena, não posso te ajudar”, disse o estranho.
“Não faz mal, só de saber que você existe já me dá forças”, suspirou Lei Yan, observando o interior do tanque e falando ao rádio. “Pelo menos sei que não sou o único vivo nesta cidade.”
“Na verdade, somos seis. Eu só vim explorar o caminho”, explicou o estranho. “Isso te anima um pouco?”
“Com certeza”, respondeu Lei Yan, indo para o banco do motorista e mexendo no manual, enquanto conversava. “Vocês estão presos aqui na cidade?”
“Não, temos um comboio nos arredores, com mais gente, uns trinta no total”, respondeu o estranho. “Viemos à cidade buscar mantimentos, com tanta gente, tudo falta.”
“Uau, saber que há tanta gente me dá ainda mais esperança”, exclamou Lei Yan, lendo o manual e conferindo o painel do tanque. A chave estava sob o volante e o marcador de combustível mostrava meio tanque. Ficou animadíssimo: era viciado em jogos, já tinha jogado simuladores de tanques, então aprender a pilotar e operar o veículo era natural para ele. Ao ouvir que havia dezenas de pessoas nos arredores, sentiu-se ainda mais motivado, como se tivesse encontrado sua própria equipe. Girou a chave e o tanque tremeu, dando partida.
“Caramba, que barulho! Você ligou o tanque?”, espantou-se o estranho pelo rádio. “Estou vendo a fumaça saindo do escapamento!”