Cinquenta e sete, O Matadouro (V)
— E os outros doutores, onde eles foram parar? — perguntou o velho Davi, satisfeito depois de comer e beber, sentindo a mente voltar ao normal. Olhando para o semblante frio do Doutor, não conseguiu segurar as palavras entaladas na garganta.
— Estamos comemorando, não dá para deixar isso para depois? — respondeu Érico, fazendo um gesto com a taça de vinho em direção ao velho Davi, tentando alertá-lo.
— Espera aí, sou só eu que quero saber disso? — Davi insistiu, sentindo-se sufocado por aquela dúvida. Olhou ao redor e percebeu que os outros também evitavam seu olhar, notando o interesse generalizado. Concordou consigo mesmo e continuou a questionar o Doutor: — Um centro tão grande, só encontramos você. Por quê? Onde estão os outros? Você os devorou? — soltou uma risada, tentando aliviar o peso da pergunta. — Claro, é só uma piada.
Apesar de ser apenas uma brincadeira, assim que Davi terminou de falar, W e o pequeno W largaram imediatamente as costelas que estavam comendo.
— Depois do surto do vírus, quando o desastre se instalou, muitos saíram em busca de suas famílias — respondeu o Doutor, cortando a carne no prato e levantando o olhar para o grupo. — Depois, a situação piorou, as linhas de defesa do exército caíram completamente, e os que restaram também fugiram.
— Todos fugiram mesmo? — Davi sorriu, descrente.
— Não… muitos sucumbiram ao desespero e se suicidaram — respondeu o Doutor, após comer um pedaço de carne e fazer uma pausa silenciosa.
— E você, por que ficou? — suspirou Davi.
— Sou cientista. Quero tentar fazer algo útil — respondeu o Doutor em tom frio.
— Você realmente sabe acabar com o clima de festa — resmungou Érico, perdendo a vontade de beber. Levantou-se com a garrafa de vinho, decidido a continuar no quarto. Os outros, igualmente desconfortáveis, deram sorrisos constrangidos ao Doutor e encerraram às pressas a comemoração.
— A maior parte do centro está sem energia, então vocês vão ter que se ajeitar por aqui. O sofá é confortável, as camas também não são ruins — disse o Doutor, conduzindo Lei Yan e os demais à área de descanso e apontando para uma fileira de quartos vazios. — Ali tem uma sala de lazer — indicou outro lado, avisando: — Qualquer coisa que dependa de eletricidade está fora de questão. Mas, se quiserem tomar banho, há água quente. — Com isso, saiu sem expressão, parecendo um autômato ou um conspirador sombrio.
Lei Yan e os outros não tomavam um banho decente há muito tempo. Ao ouvirem sobre a água quente, ficaram radiantes e começaram a sentir coceira pelo corpo todo. Cada um se enfiou no quarto que achou mais conveniente, entregando-se ao prazer do banho quente como se fosse a maior felicidade do mundo.
Na manhã seguinte, depois do banho e de uma noite de sono, sentaram-se no refeitório para saborear uma refeição quente e deliciosa. Todos se sentiam revigorados, menos Érico, que sofria com a ressaca e era cuidado por W.
— Doutor, não queria começar o dia com perguntas — disse o velho Davi, que acordava cedo e matutara muita coisa. Depois de comer ovos e beber leite, a dúvida voltou a perturbá-lo.
— Mas vai perguntar, de qualquer jeito — retrucou o Doutor, inclinando a cabeça e encarando Davi.
— O senhor é especialista em vírus. Quero saber o que aconteceu lá fora — disse Davi, franzindo o cenho e gesticulando com as mãos. — Como alguém pode ser mordido e virar aquilo? Morrer e ainda assim continuar se movendo?
— Vocês também querem saber, não é? — O Doutor olhou para todos, que o fitavam com expectativa. Sabendo que não poderia fugir da explicação, largou a xícara de café, fez um sinal para o grupo segui-lo e tomou a dianteira até o salão de controle circular.
— Jin, reproduza o vídeo do experimento cento e dez — ordenou o Doutor, posicionando-se diante de um terminal no centro da plataforma. Após pressionar algumas teclas, dirigiu-se ao assistente de computador. Imediatamente, uma imagem em perspectiva do cérebro humano apareceu no imenso monitor à frente, lembrando uma tomografia computadorizada.
— Aquilo é um cérebro? — perguntou Davi.
— Exatamente — confirmou o Doutor, inclinando a cabeça e ordenando: — Mostre a visão ampliada interna. — A imagem no telão se moveu para o centro do cérebro, ampliando até exibir uma rede de neurônios azulados, pontuada por manchas luminosas de azul intenso, semelhantes a safiras.
— De quem é esse cérebro? — indagou Lei Yan, observando a imagem fascinante.
— De um voluntário do experimento cento e dez. Ele foi mordido, infectado pelo vírus, e aceitou que registrássemos todo o processo de transformação — explicou o Doutor.
— O que são esses pontos brilhantes? — perguntou o pequeno W, maravilhado.
— É vida — respondeu o Doutor, lançando-lhe um sorriso e apontando para o telão. — São experiências, memórias. Tudo está aqui. É isso que faz de você quem é, que lhe dá humanidade.
— Não entendi muito bem… — murmurou o pequeno W, fazendo beicinho.
— Esses pontos são sinapses, impulsos elétricos do cérebro. Desde o nascimento, eles comandam todas as suas ações, internas e externas, físicas e psicológicas, até o fim da vida — explicou o Doutor, digitando novamente. A imagem voltou a recuar, exibindo o cérebro em perspectiva lateral. Agora, uma mancha preta começava a se espalhar pela medula em direção ao centro luminoso, até que todas as luzes sumiram e o interior do cérebro tornou-se cinzento e opaco.
— Ele morreu? — perguntou Érico.
— Sim. O vírus chegou ao cérebro, causando a morte cerebral. Mas olhem o que acontece em seguida, isso é o mais importante — disse o Doutor, acelerando o vídeo. Só parou quando, dentro do canal da medula, começaram a surgir pontos de luz púrpura, intermitentes como cinzas.
— O que é isso? — indagou Érico, alarmado.
— Ele sofreu mutação, ou seja, tornou-se um morto-vivo — explicou o Doutor, diante do espanto geral.
— Quanto tempo leva para virar morto-vivo? — questionou Lei Yan, sem tirar os olhos do monitor.
— Varia de pessoa para pessoa. Pelos dados que temos, pode ser de cinco minutos a dez horas — respondeu o Doutor, digitando. — Este sujeito, especificamente, levou uma hora, vinte e seis minutos e dez segundos.
— O cérebro deles volta a funcionar? — perguntou Davi, observando os pontos púrpura no monitor.
— Não, só o tronco cerebral, que comanda o sistema nervoso autônomo — explicou o Doutor.
— Então viram plantas? — deduziu o pequeno W.
— Não, são muito mais perigosos que plantas — respondeu o Doutor, sorrindo com gentileza para o menino. — Andam, comem e atacam vivos como animais.
— Sabe que vírus é esse? — suspirou Lei Yan.
— Não. Pode ser bactéria, vírus, fungo — respondeu o Doutor, impassível.
— Talvez seja o castigo de Deus para a humanidade — sugeriu Davi.
— Talvez — murmurou o Doutor.
— O relógio eletrônico na parede… — apontou Lei Yan para o monitor. — Por que está em contagem regressiva? — O relógio já marcava trinta e um minutos e vinte e oito segundos para o fim.
O Doutor não respondeu de imediato. Antes que pudesse falar, Érico se adiantou:
— E seus superiores? O que disseram?
— Perdi contato há dois meses. Só resta eu aqui — respondeu o Doutor, sem emoção.
O silêncio tomou conta da sala. Então, repentinamente, os alarmes soaram ao redor, as luzes vermelhas começaram a piscar e a tensão tomou conta de todos, exceto do Doutor. O grupo entrou em pânico, como se estivessem diante de um inimigo invisível.
— Doutor, o que está acontecendo? — perguntou Lei Yan.
— Contagem regressiva — respondeu o Doutor, lançando um olhar para o relógio digital.
— Co-como assim, contagem regressiva? — gaguejou Lei Yan.
— Contagem regressiva para destruir tudo aqui — respondeu o Doutor.
— Não pode ser! Deixe-nos sair! — gritou Érico, percebendo que a porta de acesso havia sido fechada automaticamente, perdendo o controle.
— As portas fecharam sozinhas, não fui eu. Não posso abri-las — suspirou o Doutor. — Ninguém vai sair daqui…