Cinquenta e Quatro, O Matadouro (II)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2568 palavras 2026-02-09 14:02:22

— Ei, ei, o que houve com você? — Do outro lado de uma parede transparente de consciência, a alguns metros ou quilômetros de distância, uma voz chamava por Leiyan. A figura era indistinta, a voz ora se aproximava, ora se afastava, às vezes clara, às vezes confusa. Leiyan sentia-se num espaço imenso e luminoso, completamente branco, ou como se estivesse aprisionado dentro de um enorme bloco de vidro. Ele podia respirar, mas não se mexer. Para além do vidro, com metros de espessura, havia outro mundo.

— Ei! — Subitamente, o mundo de vidro se despedaçou sem aviso, desaparecendo num instante e lançando Leiyan de volta à realidade. A voz, que antes parecia vir de longe, de alguns metros ou quilômetros, tornou-se subitamente nítida, invadindo seus ouvidos de uma só vez, assustando-o e trazendo de volta sua consciência. Percebeu então que estava de pé, sob a chuva.

— Ei, o que houve com você? Teve um apagão? — O rapaz negro, ao ver que Leiyan finalmente reagia, gritou alto, preocupado.

— Você está vivo? — Ao perceber que um companheiro sobrevivera, Leiyan sentiu uma onda de calor percorrer-lhe o corpo. Agarrando o braço de Erick, quase como medo de perdê-lo, perguntou, eufórico.

— Ah, sim — respondeu Erick, surpreso com a alegria de Leiyan, contagiado pela emoção, com lágrimas nos olhos. — Minhas munições acabaram, então me escondi sob um cadáver de zumbi e consegui escapar. E você, está bem? Não se machucou?

— Estou bem. Vamos ver se mais alguém sobreviveu — Leiyan, revigorado, empunhou a faca e, num golpe certeiro, terminou o que restava do zumbi a seus pés. Deu um sinal a Erick e juntos começaram a procurar outros sobreviventes. De maneira sutil, sentiu que aquele solo, que parecia morto, voltava a pulsar com alguma vida.

Erick seguia atrás de Leiyan, observando seu vigor ao revirar tudo, como um verdadeiro Hércules, com músculos que pareciam inesgotáveis. Nada escapava ao seu exame, nenhuma fresta, nenhum fragmento, nenhum companheiro era deixado de lado sem que Leiyan verificasse se ainda estava vivo. Erick, já exausto, admirava a resistência de Leiyan, que, mesmo após a batalha e a chuva, parecia incansável.

A morreu, B também, assim como muitos outros com nomes de letra, inclusive Alfa e Beta. Embora tivessem se encontrado apenas uma vez, Leiyan lamentou profundamente suas mortes.

Mas a busca não foi em vão. Após revirarem tudo, encontraram sob a lona de uma tenda caída o velho Davi, apenas com pequenos arranhões, nada grave. Encontraram também a mulher W e sua filha de catorze anos, a pequena W, escondidas em um buraco coberto de tábuas e entulhos. Estavam quase submersas, com a água pelo pescoço, incapazes de sair sozinhas, presas por algo que não conseguiam remover. Felizmente, Leiyan e Erick chegaram a tempo e as salvaram.

Vendo que a chuva não dava trégua, Leiyan levou os três para dentro de um trailer. Os cinco trancaram-se lá dentro, em busca de abrigo e segurança.

O velho Davi, de sobrancelhas densas, enxugou o rosto molhado, tirou a garrafa de conhaque da cintura, bebeu um grande gole e a passou para Leiyan.

Leiyan tomou um gole generoso, sentindo uma onda de calor descer da garganta ao estômago, soltando um arroto. O calor o revigorou.

Erick encontrou umas roupas velhas no trailer. Todos, por sua vez, trocaram-se no quarto, vestiram-se secos e reuniram-se novamente, sentindo a vida retornar.

Juntos, vasculharam o trailer e encontraram um pouco de comida. W preparou uma chaleira de café e, enquanto bebiam e mastigavam algo, a sensação de estarem vivos retornou. Com a porta bem trancada, W e a filha foram dormir no quarto; Leiyan e os outros, armados, dormiram na sala, no sofá ou mesmo no chão.

Lá fora, a chuva caía forte, trazendo uma sensação de segurança. O breu envolvia tudo. O trailer parecia ter atravessado um túnel temporal e parado na Idade Média.

Na manhã seguinte, os cinco acordaram cedo, comeram qualquer coisa e prepararam um jipe preto, prendendo o equipamento essencial no teto. Deixaram para trás aquele cenário enevoado, repleto de cadáveres.

— E agora, para onde vamos? — Perguntou Leiyan, do banco do carona, rompendo o silêncio após alguns quilômetros. — Tudo aconteceu tão de repente. Mal pude conversar com vocês antes de encontrarmos a horda de zumbis…

— Combinamos que, assim que Erick voltasse, iríamos juntos até o Centro Nacional de Controle de Vírus, a cento e vinte quilômetros daqui — respondeu o velho Davi. — Talvez lá haja uma solução. Em meio a esta epidemia, aquele lugar é como a Arca de Noé. Tenho certeza de que todos os sensatos estão indo para lá.

— Parece uma boa ideia. E vocês, o que acham? — Leiyan assentiu, olhando para os demais.

Erick, W e a pequena W concordaram. Erick, seguindo as orientações de Davi, conduziu o jipe em direção ao centro. Para todos, aquele lugar representava esperança. Imaginavam o exército nacional, multidões de sobreviventes pedindo socorro, a Cruz Vermelha distribuindo alimentos e remédios, doentes sendo tratados, e o governo buscando soluções para salvar mais refugiados. Tudo parecia possível.

Após horas de viagem, chegaram finalmente ao Centro Nacional de Controle de Vírus, mas a cena era desoladora. Havia pessoas por toda parte — mas todas mortas. Antes mesmo de se aproximarem, o mau cheiro era insuportável.

Sem saber o que havia acontecido ali, o grupo ficou em alerta máximo. Armados, saltaram do jipe e hesitaram, mas decidiram atravessar o gramado e a praça até o prédio principal. Afinal, era ali que residia a esperança; se o prédio ainda resistisse, tudo poderia dar certo.

Trincheiras de terra, protegidas por sacos de areia, cruzavam o terreno. Viaturas militares e tanques estavam espalhados. Os cadáveres, apodrecendo há muito, estavam irreconhecíveis. Nuvens e mais nuvens de moscas negras sobrevoavam e batiam nos rostos e corpos de Leiyan e seus companheiros, que tentavam, em vão, afugentá-las.

Sem alternativa, cobriram o nariz com o braço e, mesmo lacrimejando e quase sem enxergar, avançaram penosamente em direção ao prédio.

— Continuem, fiquem juntos! — ordenou Leiyan, virando-se para os outros. — Falta pouco!

Os poucos metros até a entrada pareceram uma travessia por um cânion africano, mas finalmente chegaram ao edifício.

O térreo causava ainda mais inquietação. Cinco grandes portas rolantes estavam fechadas com perfeição. Parecia que o interior não fora invadido, mas eles também não conseguiam entrar.

— Acho que não há ninguém lá dentro — disse Erick, batendo com força na porta de ferro, desanimado.

— Ninguém? E por que todas as portas estão fechadas? — Davi ajeitou o chapéu e olhou para as entradas lacradas.

— Tem um zumbi — alertou a pequena W, apavorada, apontando para trás do grupo.

— Maldição — Leiyan sacou a faca, correu e desferiu um golpe certeiro na cabeça do zumbi com uniforme militar, que tombou como um boneco.

— A culpa é sua! — Erick, vendo que não havia como entrar e com mais zumbis aparecendo, perdeu a calma e gritou com Davi. — Você está nos levando à morte!

— Não foi só minha decisão, foi de todos — retrucou Davi, abrindo os braços. — Além disso, deve haver gente lá dentro. Se entrarmos, estaremos seguros.

— Se há alguém, por que não responde? — Erick gritou.

— Precisamos sair daqui. Vai escurecer — disse W, assustada.

— Ela tem razão. Se outra horda de zumbis nos cercar, estaremos perdidos — concordou Erick.