Sessenta e sete, Henrique
8 de dezembro de 2018, às três e vinte e cinco da tarde, do lado de fora da sala de reuniões.
— Ei, Constantino, o caso da vítima de hoje, já chegou? — Um agente de cabelo ruivo deu um tapa brincalhão no ombro magro de Henrique, perguntando com bom humor. Sua pergunta provocou gargalhadas entre os outros agentes que se dirigiam à reunião.
Constantino era o protagonista de "O Detetive do Inferno", capaz de se comunicar com espíritos e utilizar diversas magias. O ruivo chamava Henrique assim para zombar dele; desde que Henrique ganhou esse apelido, tornou-se alvo frequente de chacota.
A origem do apelido remonta a um caso de homicídio peculiar ocorrido um ano antes. Todas as pistas haviam se esgotado, o caso estava estagnado e, como havia sido noticiado, as autoridades superiores pressionavam intensamente. Todos os envolvidos, Henrique incluído, estavam à beira do desespero.
Durante uma nova investigação na cena do crime, Henrique viu o espírito da vítima aparecer ali. O espírito o percebeu e revelou a Henrique o nome do assassino e várias pistas que haviam escapado à polícia, pedindo que ele fizesse justiça.
No dia seguinte, durante a reunião de análise do caso, Henrique não resistiu e contou ao delegado e aos colegas o que presenciara. Sua narrativa provocou, como era de esperar, risos e escárnio; todos afirmaram que ele só podia estar louco.
Embora ninguém levasse Henrique a sério, ninguém tinha pistas melhores. Com a pressão crescente da chefia, o delegado acabou decidindo seguir as orientações de Henrique, afinal, não havia alternativas, e qualquer tentativa era válida.
Para surpresa de todos, as novas pistas oferecidas por Henrique revigoraram o caso e o conduziram rapidamente ao caminho certo. Subitamente, todos sentiram que a névoa se dissipara; as pistas apontavam para uma pessoa antes negligenciada, e a coleta de provas tornou-se fácil, pois já sabiam onde procurar, ao contrário de antes, quando buscavam uma agulha no palheiro.
Diante de provas irrefutáveis, o assassino não pôde negar e confessou seus crimes, encerrando finalmente o caso sem solução.
A chefia premiou o delegado e todos os agentes envolvidos. Naturalmente, Henrique deveria ter sido agradecido, mas a realidade foi bem diferente. Tornou-se alvo de rejeição e zombaria, considerado um estranho, apelidado de Constantino, e descrito como um lunático capaz de ver deuses e espíritos.
A fama se propagou, e como Henrique já tinha uma aparência nervosa, logo passou a ser visto por todos como um xamã excêntrico; qualquer coisa que dissesse era recebida como piada, tornando-o o policial mais silencioso da delegacia.
Apesar de ter ajudado a resolver o caso, Henrique expôs a incompetência dos colegas, envergonhou a lógica científica e os métodos tradicionais, o que talvez explique a ingratidão, o escárnio e as agressões constantes.
É claro que nem todos na delegacia eram assim. Susana, policial do mesmo grupo de Henrique, era esclarecida e se recusava a participar das zombarias, frequentemente defendendo-o.
— Ei, os espíritos são muito sérios — Susana, de rabo de cavalo, apareceu de surpresa atrás do agente ruivo, assustando-o. Ela continuou: — Se você brincar demais, e se ele vier mesmo, pode acabar te perseguindo! — Henrique, entrando na brincadeira, olhou para trás do ruivo, que correu apressado para a reunião, sabendo, no fundo, que há muitas coisas no mundo que ele não compreende.
— Hoje está estranho — Henrique murmurou para Susana, sentado nos fundos da reunião — Parece que algo vai acontecer, não estou nada à vontade.
— O que pode ser? — Susana ficou tensa, olhou ao redor e perguntou baixinho — Será que erramos de novo o caminho do caso e o espírito da vítima veio nos orientar?
— Não, é só o ambiente que está errado — Henrique examinou discretamente a sala — A energia aqui está muito agitada, não sei explicar.
— Vamos nos concentrar na reunião — Susana, sempre atenta, notou o delegado olhando para ambos com desaprovação e sussurrou — Se algo acontecer, me avise, o chefe está de olho em nós!
Henrique assentiu, pegou os documentos à sua frente e fingiu concentrar-se neles. O delegado, vendo a atitude, finalmente desviou o olhar.
Enquanto todos opinavam sobre o caso, Henrique, inquieto, observava ao redor. Parecia que a qualquer momento a sala poderia ruir como em um desastre apocalíptico; os colegas próximos riam discretamente, especulando se algum espírito ou divindade voltaria a possuí-lo.
O delegado percebeu o comportamento estranho de Henrique e o advertiu a focar no trabalho, lembrando que o caso dependia de provas e lógica, não de superstições.
Henrique sabia que explicar não adiantaria, pois nem ele mesmo tinha certeza do que estava por acontecer. Olhou para o delegado, assentiu e voltou a fingir que lia os documentos, provocando mais uma onda de risos.
Às quatro da tarde, a energia na sala de reuniões vibrou intensamente. Ninguém percebeu, exceto Henrique, que se assustou ao sentir que a presença que pressentira finalmente chegara. Uma força imensa e desconhecida redefiniu todo o espaço. Ele quis fechar os olhos, mas não conseguiu; ao abri-los, viu a imagem de uma criança projetada na parede, junto com várias outras figuras. Eles conversavam, mas Henrique não conseguia ouvir. Fixou o olhar na criança, tentando identificar se ela tinha relação com o caso, mas ficou espantado ao perceber que, enquanto as outras figuras ignoravam sua presença, a criança notava que estava sendo observada.
Henrique, assustado, desviou rapidamente o olhar para os documentos, desejando que aquela criança de algum espaço desconhecido não voltasse a olhar para ele. Sabia que não eram espíritos, mas projeções de seres de outro lugar, e o fato de ser percebido por eles o deixava profundamente inquieto, sem conseguir imaginar por que estavam observando o grupo.
— Alguém está nos observando — Henrique murmurou para Susana.
— É o espírito da vítima? — Susana arriscou, sem criatividade.
— Não — Henrique, mantendo o olhar periférico na criança invisível para todos, fingia folhear os documentos e sussurrava — Acho que são humanos de outro espaço, não sei explicar. Eles estão nos estudando, e uma criança parece ter notado minha presença.
O movimento exagerado de Henrique ao folhear os papéis arrancou risos dos colegas; o delegado, impaciente, zombou:
— Está usando seus olhos místicos? Viu algo nas profundezas dos documentos? Quer compartilhar conosco?
A provocação fez todos rirem ainda mais, achando que o delegado acertara em cheio ao satirizar o comportamento nervoso de Henrique.
— Henrique, pare com isso, são só papéis — Susana alertou, percebendo que ele estava distraído.
Henrique, ao ouvir Susana, cessou o movimento, olhou constrangido para o delegado e ficou imóvel, fingindo ler os documentos.
O delegado ignorou-o e prosseguiu com a análise do caso.
Henrique sentiu que a energia estranha na sala se dissipava rapidamente e as figuras iam desaparecendo. Incapaz de resistir, lançou mais um olhar para a criança, e, nessa última espiada, percebeu que ela e o grupo ao seu redor o observavam atentamente. Tinha certeza: todos ali haviam notado que ele podia vê-los...