Setenta e sete, Médico Fora da Lei (2)
O médico, de origem desconhecida e de presença imponente, tinha à porta da casa três soldados armados, dois homens e uma mulher, todos de expressão arrogante. Assim que avistaram Lei Yan e os outros se aproximando pela borda da floresta, barraram-lhes a passagem sem dizer palavra, interrogando-os e desinfetando-os sem lhes dar opção.
— Mas que raio, o que você está borrifando na gente? Que cheiro de alho podre é esse? — resmungou o Espírito do Peido, franzindo o cenho ao ver a soldada borrifando-o dos pés à cabeça. — Não basta um pouco? Precisa mesmo encharcar a pessoa toda? Vai querer que eu sobreviva assim?
— Justamente para você sobreviver é que estou passando o remédio — respondeu a soldada, ríspida, borrifando o rosto dele. — Olha só pra você, esse monte de manchas pretas na cara só pode ser doença séria.
— Ah, para com isso, já chega! — protestou o Espírito do Peido, fechando os olhos e agitando as mãos diante do rosto. — Doente é você, deve estar cega também. Isso aqui são sardas, não manchas de doença!
— Sem desinfecção não entra. Este é um remédio especial — retrucou a soldada, impaciente, mãos na cintura. — Quem procura o médico não sou eu; podem voltar pelo mesmo caminho, ninguém vai impedir.
— Pois a gente volta mesmo! — rebateu o Espírito do Peido, teimando. — Quem precisa de médico aqui não sou eu! Você acha que faço questão? Bah! — E já ia se virar para ir embora, mas Lei Yan o segurou pelo braço.
— Senhora, nosso amigo é só um pouco temperamental — interveio Lei Yan, lançando um olhar ansioso para W. Sorriu para a soldada: — Num mundo tomado por vírus, faz sentido desinfetar antes de entrar. Todos já fomos borrifados, veja. — Olhou para Eric e os outros, depois voltou-se para a soldada. — Deixe-nos entrar, por favor. Há uma criança precisando de atendimento.
Um soldado barbudo aproximou-se, puxando a soldada para o lado e servindo de conciliador. Voltou-se para Lei Yan:
— Ela só está tentando ajudar. O perigo aqui é grande. Esqueça, podem entrar.
A soldada lançou um último olhar ao colega e saiu de cena, arma em punho.
Lei Yan conduziu o grupo para dentro da casa, onde o cheiro intenso de incenso e velas os fez franzir o cenho.
— Tenho a impressão de que vamos encontrar um xamã ou feiticeiro — murmurou o velho David para Lei Yan. — Melhor não cairmos nas superstições dessas pessoas.
Todas as janelas estavam cobertas por cortinas. Continuando pelo interior da casa, um vulto de mulher de meia-idade, de lenço na cabeça, surgiu subitamente, fez um aceno de cabeça e os guiou escada acima.
Enquanto subia, a mulher alertou:
— Há uma regra para quem busca tratamento aqui. Preciso avisar antes.
— Melhor avisar mesmo — disse o Espírito do Peido, erguendo o braço. Mas, ante um olhar de advertência de Lei Yan, calou-se.
— Nosso médico é muito generoso e teme que vocês estejam doentes sem saber. Por isso, todos que entram aqui devem ser examinados, sem exceção. Se alguém se recusar, então ninguém será atendido. Entenderam?
— Tudo bem, desde que não seja um processo complicado — respondeu Eric. — Estamos todos saudáveis, caso contrário não teríamos chegado até aqui.
— Não é você quem decide se está doente. É o médico — replicou a mulher, olhando para Eric. — Muitos vêm achando que nada têm, mas, ao examinar, descobre-se doenças gravíssimas. Às vezes, nem resta alternativa senão a eutanásia.
— Olha aí, você tem cara de doente, hein — zombou o Espírito do Peido, achando graça da expressão confusa de Eric.
— E se acharem alguma doença grave, vocês conseguem curar? — indagou o velho David, subindo as escadas, cético. — Se encontrarem algo sem cura, vão deixar o paciente apavorado até morrer? Melhor não descobrir nada então.
— Fique tranquilo, se colaborarem, tudo é possível — respondeu a mulher, sorrindo para David.
No segundo andar, foram levados a um amplo cômodo de aparência asseada, repleto de equipamentos médicos, lembrando uma clínica odontológica. O ambiente era gélido, e uma médica de expressão impassível, usando óculos estranhos, completava a atmosfera de ficção científica.
A médica, de jaleco branco, usava luvas pretas e uns óculos que mais pareciam de visão noturna, totalmente fora de propósito para o dia. Mandou que deitassem a pequena W na cama, mediu sua temperatura, examinou seus olhos e língua, apalpou seu abdome e, por fim, assentiu misteriosamente.
— Doutora, o que minha filha tem? — perguntou W, aflita, sem conter a ansiedade. — É grave?
— Não, é algo leve, só uma febre. Basta uma injeção — respondeu a médica, ajustando os óculos e tirando do estojo um frasco de antitérmico. — Ela precisa apenas passar a noite aqui e ficará bem.
— Graças a Deus — exclamou W, aliviada, olhando para Lei Yan. — Muito obrigada, doutora. Pode aplicar.
— Não tem de quê — replicou a médica, impassível. Mas o grupo logo percebeu que ela não pretendia ser cortês. Balançando o dedo, dirigiu-se a eles: — Agradecimentos não servem, não se comem nem se usam. Com o que pretendem me retribuir?
— Podemos trocar por comida — sugeriu Lei Yan, percebendo o nervosismo de W. — Hoje em dia, comida vale tanto quanto remédio. Entendemos.
— Que comida? E quanto? — quis saber a médica.
— Dez pães recheados deliciosos — disse Lei Yan, fazendo sinal para Eric, que tirou a mochila e a entregou. Lei Yan sacou um pão e o mostrou à médica. — São raros, foi difícil consegui-los.
A médica fez sinal para a mulher de lenço, que pegou o pão, provou um pedaço e assentiu satisfeita.
— Dez é pouco — disse a médica, fria, olhando para os três soldados que acabavam de subir (sim, os da porta).
— Isso mesmo, somos muitos aqui. Um dia e já acabou — disse o soldado barbudo, encostado à porta. — E estamos salvando uma vida. — Ele pegou um pão, experimentou e, mastigando, continuou: — Muito bom! Mas dez pães por uma vida? Não nos parece justo.
— Então não queremos a troca — retrucou o Espírito do Peido, indignado. — Nem sei se o remédio de vocês presta. Sabe quantos morreram para conseguirmos esse alimento? Se dez é pouco, melhor nos assaltarem logo!
Assim que ele recusou, os três soldados ergueram as metralhadoras, apontando para o grupo. A tensão tomou conta do ambiente.
— Começada a negociação, ela deve terminar — disse a médica, acenando para que os soldados baixassem as armas. Voltou-se para Lei Yan: — Aqui, as regras são claras.
— Nada de burlar as regras — reforçou o barbudo, mordiscando mais um pedaço de pão e entregando outro a um colega. — Avisamos antes de entrarem.
— Pois bem, diga quanto quer — suspirou Lei Yan, vendo que não tinham escolha. — Podemos negociar.
— Uma mochila inteira — decretou a médica, apontando para a de Lei Yan.
— Isso é roubo! — exclamou o Espírito do Peido, revoltado. — E depois, vamos comer o quê?
— Não tem problema, eu aceito — interveio Lei Yan, ao ver os soldados prestes a levantar as armas novamente. — Fiquem tranquilos, faço como quiserem. Se pedissem menos, eu é que desconfiaria do remédio. — E entregou a mochila à médica.
Ela nem tocou na mochila, sinalizando para a mulher, que a recebeu, conferiu o conteúdo e assentiu para a médica. Esta aspirou o antitérmico para uma seringa descartável, aplicou na pequena W e pressionou um algodão no local, pedindo que a mãe mantivesse a compressa. Largou a seringa e dirigiu-se ao grupo:
— Como acordado, agora vou examinar cada um de vocês. Não se preocupem, o exame é totalmente gratuito...