Capítulo Noventa e Cinco: Tempestade na Prisão (Parte Dois)
— Ah, por favor, tragam alguns ratos para comer! — reclamou Espirro, depois de quase um mês tendo doces como principal alimento nas três refeições diárias, finalmente não aguentando mais e desabafando alto para todos. — Chega de comer doces, estou prestes a ficar diabético!
Teresa havia consultado o mapa, mas não encontrou um destino melhor. O grupo discutiu várias alternativas, mas todas fracassaram; não havia experiência suficiente para servir de orientação. As soluções tradicionais mostraram-se impraticáveis assim que tentaram aplicá-las. Por fim, sem plano algum, sem saída, só restava avançar com determinação, esperando que alguma sorte inesperada lhes sorrisse.
No início, comida não era problema, pois encontraram muitos doces e salgadinhos na cidade, suficientes para alimentar nove pessoas por dois ou três meses, se calculassem bem. Mas por melhor que fossem, nada resiste ao consumo constante. Três refeições diárias de doces: nos primeiros dias, comiam rindo e se divertindo; após dez dias, virou rotina; ao vigésimo, já era tarefa difícil; ao trigésimo, todos estavam saturados, só de olhar para os doces sentiam enjoo. Ainda assim, todos se obrigavam a comer, ninguém comentava o sofrimento, cada um enfrentando a situação com coragem. Espirro foi o primeiro a quebrar esse silêncio, reclamando durante uma caminhada sem rumo que comer doces já lhe tirara toda vontade de viver.
— Juro, se alguém conseguir um rato para eu comer, — Espirro olhou para o sol e se voltou ao grupo — troco por minha ração de doces do próximo mês, palavra!
— Você é mesmo engraçado, — Hale olhou para Elizabeth e Barak ao seu lado, segurando a arma e rindo para Espirro. — Se você conseguir pegar um rato para assarmos, trocamos por a ração de doces de três pessoas por um mês.
— Parem com isso, — Erick segurava o estômago, sorrindo de dor. — Só de ouvir “doce” meu estômago se contorce.
Anna e Teresa, franzindo o rosto com um sorriso, imploraram que não falassem mais de doces; só de ouvir a palavra sentiam o açúcar subir nas veias.
— Parece que precisamos diversificar nossa alimentação, — Raio caminhava atrás com David, ouvindo as queixas do grupo, virou a cabeça sorrindo para David. — Eu também já estou farto.
— Sim, comer só isso é perigoso, — David olhou para os que iam à frente e comentou baixo para Raio. — Outro dia, molhei o dedo na urina e experimentei... estava doce!
— Olhem, lá está uma galinha de cabeça redonda! — Espirro, de olhos atentos, gesticulou ordenando silêncio e apontou para uma ave pousada na copa de uma árvore, cinquenta metros adiante, falando baixinho.
— Se não conhece, não invente, — Barak, com boa visão, corrigiu Espirro com um sorriso. — Aquilo é uma coruja.
— Uma coruja? — Espirro franziu o rosto, pensou um instante, então seus olhos brilharam de alegria. — Parece uma galinha, deve ser deliciosa! — Pegou a pistola e mirou, mas sabendo de suas limitações, desistiu e perguntou ao grupo: — Alguém é atirador de precisão? Quem acertar, compartilho o banquete!
— Só temo que o tiro atraia zumbis. Deixe-me tentar, — Elizabeth engoliu em seco, ergueu o rifle e mirou a coruja pelo visor.
— Não confie tanto nela, ela só acerta nove anéis, — Hale também levantou sua arma, mirando e explicando para Espirro. — O verdadeiro campeão está aqui.
— Sou candidato ao campeonato de tiro, — Barak não ficou atrás, levantando seu rifle com elegância, mostrando habilidade.
— Ótimo, atirem juntos, fogo cruzado, — Espirro fixou o olhar na coruja como se fosse um frango assado, engoliu saliva, estendeu as mãos à frente para estabilizar os três e murmurou nervoso: — Não deixem escapar essa iguaria!
Antes que os três disparassem, a coruja tombou da árvore, surpreendendo Elizabeth, Hale e Barak, que se entreolharam sem entender.
— Impressionante, atiradores! — Raio chegou brincando, batendo nas costas dos três. — Nem precisaram disparar, a coruja caiu sozinha. Sigam sempre assim!
— Será que era um animal ferido? — Teresa aproximou-se, sorrindo. — Talvez já estivesse machucada; ao ver os três apontando armas, entrou em pânico, a ferida abriu e caiu da árvore.
— Sinto como se o céu nos presenteasse, — David juntou as mãos, fechou os olhos, agradecendo.
Espirro, prático e falante, não disse nada; apenas sacou o facão e correu para pegar a coruja caída, ignorando os comentários alheios.
— Melhor irmos juntos, ou ele devora a coruja vivo — Hale brincou, chamando os demais e correndo para a árvore. Todos seguiram animados, curiosos para ver o desfecho.
Ao chegarem, viram Espirro examinando a coruja em silêncio.
— Ué, como tem uma flecha aqui? — Hale perguntou, intrigado ao ver o virote atravessando a ave.
Enquanto todos olhavam curiosos para o virote, um índio de meia-idade com penas na cabeça surgiu de trás da árvore, segurando uma besta. Observou a coruja, depois o grupo, e ficou paralisado, sem falar.
— Essa coruja vimos primeiro! — Espirro escondeu a ave atrás de si, tentando enrolar o índio. — Quem vê primeiro, leva!
O índio não respondeu, mas entendeu o que Espirro disse. Com expressão furiosa, segurou a besta com força, encarando Espirro, Raio e os outros, tenso.
Nesse instante, uma índia saiu correndo de trás da árvore, segurou o braço do homem, provavelmente para impedir um confronto. Ele, porém, não lhe deu ouvidos, empurrando-a de lado, mantendo a arma em punho e o olhar hostil.
— Calma, pessoal, — ao perceber a tensão, Raio se colocou entre Espirro e o índio, estendendo os braços para ambos, tentando apaziguar. — Podemos conversar. Irmão, sabemos que você acertou a coruja primeiro; não queremos roubar. Mas faz tanto tempo que não comemos carne... Que tal trocarmos comida por ela? — Raio olhou para Hale e os demais, que assentiram. — Será justo, você terá sorte inesperada.
— O que oferecem? — perguntou o índio, acenando para Raio.
— Aqui, — Raio pegou com Teresa dois pedaços de chocolate, cinco barras de energia e dois pacotes de chiclete, entregando ao índio. — Que acham?
Ao verem os doces, os olhos do casal indígena brilharam; exclamaram juntos de alegria. O índio encarou Raio, viu sinceridade e não suspeitou de brincadeira. Entregou a besta à mulher, tirou duas grandes lebres da cintura e passou a Raio, que sinalizou para David pegar. Só então o índio recebeu os doces, e junto com a mulher, aspiraram profundamente o chocolate, com expressão de intenso prazer, como se reencontrassem um amor antigo.
— Faz muito tempo que não provávamos algo tão delicioso, — o índio explicou, um pouco envergonhado diante da curiosidade de Raio e os outros.