Setenta e nove, Médico Fora da Lei (Quatro)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2289 palavras 2026-02-09 14:02:38

— Ah, médica legista? — Tanto o Espírito do Pum quanto os outros ficaram surpresos, olharam para Lei Yan e depois fixaram o olhar na médica.

— O que você está dizendo? — A médica, visivelmente nervosa, ajeitou os óculos e forçou um sorriso, tentando parecer descontraída. Os três soldados na porta, ao ouvirem Lei Yan, também demonstraram desconforto, levando instintivamente a mão às armas.

— Todos os seus livros são de medicina legal — disse Lei Yan, apontando para a estante encostada na parede. — E, pelo estado de conservação, dá pra ver que você leu todos com atenção, não estão ali só de enfeite.

— Isso você realmente se enganou — tossiu a médica, lançou um olhar para os livros e explicou: — Ora, para exercer a medicina, como não ter alguns livros na mesa? Só que, na biblioteca próxima, só sobraram livros de medicina legal. Se eu não trouxesse, ficaria sem nada. E esses livros estão quase novos, mal folheei, mas talvez um dia precise consultar.

— Você realmente não é médica legista? — perguntou Lei Yan, divertido por dentro, querendo desmascará-la ainda mais.

— Não, absolutamente não! — Ela balançou a cabeça com tanta força que quase derrubou os óculos e insistiu: — Eu só trato pacientes, aplico medicamentos, não tenho nada a ver com medicina legal. Nem sei ao certo o que um legista faz!

— E aquelas ferramentas especiais? — Lei Yan já esperava tal reação e apontou para os instrumentos cirúrgicos sobre a mesa. — A serra elétrica para abrir crânios, o alicate de aço para costelas... Não me diga que no hospital só sobraram esses equipamentos?

— Ah, isso... — Por um instante, a médica ficou sem palavras. Olhou para as ferramentas, utilizadas somente por legistas, e após longa pausa, respondeu: — Você faz perguntas demais! Se não entende, não deveria perguntar à toa. Não precisa de cirurgia craniana ou torácica em pacientes? As pessoas adoecem de tudo, é normal precisar desses instrumentos. — Apontou para a serra, tentando esconder sua verdadeira profissão. — Não há nada de estranho nisso.

— Também já li sobre isso — disse Lei Yan, tirando de sua mochila o livro “Psicologia Criminal”, balançando-o diante dela e guardando-o de volta. — Hoje trouxe só este, o de medicina legal ficou, mas vi as imagens. As ferramentas de um médico são bem diferentes das de um legista.

— Paciência... — Suspirou a médica, percebendo o conhecimento de Lei Yan e sem saber ao certo quem ele era. Tentou justificar-se: — Vejo que você entende do assunto. Mas, em tempos caóticos como estes, é difícil ser médica. Falta de tudo. Sim, são instrumentos de legista, mas uso por não ter outro jeito. Você nem imagina como é complicado improvisar.

Cobriu parcialmente a boca com a mão e sussurrou: — Não é fácil, não espalhe isso por aí, ser médica não está nada fácil!

— Pois é, até a mesa de exames é uma cuba de aço coberta com cobertores de autópsia — comentou Lei Yan, observando a maca onde Xiao W estivera deitado. — Pelo visto, só as coisas da sala de medicina legal restaram no hospital, o resto sumiu?

— Claro que não — respondeu a médica, de repente mais fria. — Essa é melhor que a maca comum e ainda permite autópsias. Por isso a trouxe para cá. — Enquanto tirava as luvas, dirigiu-se ao grupo: — Chega de conversa. Já examinei vocês, agora tragam o que preciso para trocar o curativo. Não há mais o que discutir.

— Ah, agora entendi por que ela percebeu na hora que sua testa estava escura — zombou o Espírito do Pum com Erik. — Não é porque você é moreno, mas porque todos os cadáveres que ela viu tinham a testa assim. Você está mesmo no fim da linha!

— Diga, o que quer em troca? — perguntou Lei Yan à médica.

— Bem, pensei em pedir que fossem até a cidade vizinha buscar instrumentos e suprimentos. Lá não há muitos zumbis — disse ela, acariciando o queixo e avaliando as mochilas do grupo. — É uma tarefa simples, fácil de cumprir. Muitos já conseguiram o remédio salvador assim.

— A “Pílula de Jade e Ginseng”, líquida — brincou o Espírito do Pum.

— Mas já mudei de ideia. Vocês são mais capazes que os anteriores, comida não será problema — a médica sorriu, tirando cinco frascos de remédio cor-de-rosa da gaveta e colocando-os junto ao primeiro. — Só quero a comida que têm nas mochilas, o resto não me interessa. Fiquem com o remédio e podem ir.

— Ei, só temos um saco de bolachas, e já querem tudo? — gritou o Espírito do Pum, indignado. — O resto é só roupas e tralhas! Isso não é justo!

— Não adianta fingir, quem está com fome tem o faro melhor que cachorro — zombou a soldada na porta.

— Quer que eu confira? — propôs o soldado, que até então não dissera nada.

— O cheiro é igual, não erro — disse a mulher de meia-idade, segurando a última bolacha. — Se conseguiram tanta comida, podem conseguir mais. Parem de fingir.

— Certo — disse Lei Yan, já sem paciência com aquela quadrilha que fingia negociar, mas só queria roubar. Controlando a raiva, tirou a mochila e fez sinal aos outros para entregarem as suas. Enquanto separava tudo, menos as bolachas, falou à médica: — Fiquem com as bolachas, só espero que cumpram a palavra e nos deixem ir.

— Ora, não é como se fôssemos sequestrá-los. Não estamos pegando de graça — a médica, satisfeita com o resultado, gesticulou diante dos frascos cor-de-rosa. — Todos estes remédios são de vocês. O custo da desinfecção nem vou cobrar. Podem ir, garanto sua segurança. Somos pessoas justas.

— Exato, não somos assaltantes — completou a soldada, vendo-os tirar os objetos extras, pronta para receber as mochilas. — Senão já teríamos acabado com vocês. É apenas uma troca justa. Não precisam se preocupar.

— Sim, não me preocupo com justiça, só com armas — ironizou o Espírito do Pum, percebendo que Lei Yan não aceitaria tão fácil. Enquanto retirava os objetos, brincava com a soldada: — Talvez vocês não queiram atirar só para não sujar a comida, quem sabe?

— Ninguém se mexa! — gritou Lei Yan, de repente atirando a mochila nos três soldados. Com um movimento rápido, agarrou a mulher de meia-idade, encostando-lhe a arma na cabeça e gritando alto. O Espírito do Pum, já preparado, apontou a arma para a médica, enquanto Erik e David miravam os três soldados armados na porta. Em segundos, o clima ficou tenso, um confronto armado prestes a explodir...