Noventa e sete, Tempestade na Prisão (Quarta Parte)
— Ah, já morei nessa caverna — disse o chefe, balançando a cabeça e falando com Jim, o Piada. — Alguém sempre precisa vigiar o lado de fora, porque a entrada é a única saída. — O chefe atirou um pedaço de lenha ao fogo e continuou: — Somos muitos, claro que podemos revezar a guarda, mas mesmo assim não dá.
— Por quê? — Jim olhou para o coelho assado, depois para a coruja, sem saber direito o que perguntava ou dizia, apenas falava para acompanhar o momento.
— Hoje não choveu, vocês não sentiram na pele — explicou o chefe, apontando para a entrada da caverna e falando para Lei Yan e os demais. — Quando chove, os detritos e a terra caem e, misturados à água, invadem o interior. De noite não há onde se abrigar, eu mesmo achei que não sairia daqui. — Olhou para sua esposa, Leslie, que assentiu. O chefe prosseguiu: — Acho que em pouco tempo essa caverna será totalmente preenchida por lama e areia, ou desaparecerá após um deslizamento. Passar uma noite aqui não é problema, mas ficar mais tempo é impossível.
— Então é só mudar de lugar. Aqui não tem banheiro, é o que menos gosto — Jim virou-se para o chefe, sorriu, e perguntou, rindo, para Lei Yan: — Chefe, quanto tempo mais esse aqui precisa assar? Estou morrendo de fome, meu estômago vai sangrar.
— Falta pouco, só mais uns minutos. Tem que ficar bem assado, assim fica saboroso — respondeu Lei Yan, virando o coelho e a coruja que soltavam óleo e fumaça, enquanto polvilhava pimenta e sorria para Jim. — Podem abrir o uísque, daqui a pouco estará pronto.
— Essa é a ordem que gosto de ouvir — Jim imediatamente tirou uma garrafa de uísque da mochila, abriu-a com o saca-rolhas do canivete, enquanto David e os outros, salivando, também começaram a se preparar.
— Aqui não serve, também não gosto desse lugar — disse Lei Yan. Teresa lhe entregou uma caneca cheia de vinho, Lei Yan agradeceu com um aceno, colocou o copo sobre uma pedra ao lado dos pés e perguntou ao chefe: — Então, você conhece algum lugar onde possamos ficar por mais tempo?
— Conheço sim — respondeu o chefe, depois de pensar um pouco. — O lugar é ótimo, mas é difícil viver lá.
— Difícil? Que tipo de lugar é esse? — Eric, vindo da entrada da caverna, olhou para o grupo e para a carne assando, engolindo em seco, perguntou.
— Que lugar é esse? — Teresa encheu o copo do chefe e de Leslie, e perguntou com curiosidade.
— É uma prisão — recordou o chefe. — Os arames farpados ao redor estão intactos, os mortos-vivos de fora não conseguem entrar.
— Parece bom esse lugar — Eric tomou o copo que David lhe entregou, bebeu um gole e perguntou ao chefe: — Que dificuldade você mencionou?
— Os mortos-vivos de fora não entram, e os de dentro não saem — explicou o chefe, fazendo uma careta amarga. — Guardas e presos viraram mortos-vivos, vagando entre as cercas. Eles não ameaçam quem está fora, mas, para entrar, temos que enfrentar muitos deles, é complicado. — Olhou para Eric e explicou a Lei Yan: — Eis o problema.
— Difícil para você, talvez — respondeu Jim, mordendo um pedaço de coelho assado que Lei Yan lhe entregou, e falou ao chefe: — Você nem imagina como lidamos com milhares de mortos-vivos na fazenda, foi fácil demais. Os poucos da prisão não são nada.
— Sério? — O chefe olhou para Lei Yan, admirado.
— Não é tão fácil quanto ele diz, havia muitos mortos-vivos — explicou Lei Yan, entregando o pescoço do coelho ao chefe. — Tivemos que pensar muito para escapar de lá.
— Esse camarada tem ótimas ideias — Teresa deu um tapinha no ombro de Lei Yan e falou ao chefe: — Podemos tomar a prisão, não é? — Olhou para Lei Yan, buscando confirmação.
— Se todos trabalharmos juntos, conseguiremos tomar a prisão — disse Lei Yan, após dividir a carne, levantando o copo. — Vamos brindar, primeiro para dar as boas-vindas ao chefe, e depois para celebrar que finalmente temos um lugar para chamar de lar! — Todos ergueram os copos e beberam com entusiasmo, a atmosfera se animou...
Na manhã seguinte, o grupo arrumou as mochilas e, guiados pelo chefe, após duas horas de caminhada, chegaram à prisão mencionada.
Do alto de uma colina próxima, o grupo ficou eufórico ao avistar a prisão. Os cem mortos-vivos vagando pelo pátio não afetaram o bom humor de ninguém.
— Estão vendo? — Lei Yan falou ao grupo, que discutia animadamente planos para a nova vida na prisão. — Olhem aquele corredor que leva ao pátio, não há nenhum morto-vivo lá dentro. — Todos olharam para o corredor cercado por duas camadas de arame farpado, e era verdade, nenhum morto-vivo ali.
— Vamos começar por ali? — Teresa perguntou, empolgada, olhando para o corredor.
— Isso mesmo, ocuparemos o corredor primeiro, é o mais fácil. Depois, entraremos no pátio — Lei Yan apontou para as altas torres de vigia nas laterais e explicou: — Quando agirmos, temos que aproveitar esses pontos altos para atacar os mortos-vivos. — Observou por alguns minutos, mas, como estava longe, pediu para Jim, o Piada, que tinha melhor visão: — Jim, veja se não estou enganado, os mortos-vivos do pátio saem todos pela porta de arame da entrada principal da prisão? Há outros pontos de onde eles vêm?
— Só se surgirem do subsolo ou aprenderem a escalar cinco metros de arame farpado — respondeu Jim, após observar cuidadosamente. — Não, todos saem pela porta de arame da fachada principal.
— Não importa quantos mortos-vivos há na prisão. Se fecharmos aquela porta, o número no pátio será fixo — explicou Lei Yan, apontando para a porta de arame. — Depois, eliminamos os do pátio e teremos um grande espaço só para nós. Sem ataques surpresa, estaremos seguros.
— Maravilhoso, chefe! — Jim pulou, cheio de ânimo, e perguntou: — Como começamos?
— Calma, temos que encontrar um alicate bem forte. Nosso canivete não corta arame farpado — explicou Lei Yan, e todos concordaram. — Depois de entrar no corredor, não podemos deixar brechas no arame. Também precisamos de um bom pedaço de cabo elétrico grosso para fechar bem a entrada. — Respirou fundo, fixando o olhar na porta de arame perto da entrada principal e concluiu: — E precisamos de alguns cadeados grandes.
— Um só basta, por que vários? — Jim perguntou, sem entender.
— O trecho entre a porta principal e a porta de arame é complicado. Vejo muitos mortos-vivos lá dentro, andando em direções diferentes. Ou talvez haja portas de ferro invisíveis que precisaremos fechar — explicou Lei Yan, dando um tapinha no ombro de Jim. — Não dá para procurar só quando precisamos, certo?
— Se conseguirmos ocupar o pátio, não quero ir mais para outro lugar — disse David, concordando. — Pelo menos por um bom tempo.
— Mas para buscar comida teremos que sair — lembrou Hale, olhando para o chefe e falando para David. — Senão, continuaremos comendo doces para matar a fome. Mas pelo menos você não terá que sair, pode pensar à vontade.