Noventa, O Médico Fora da Lei (Parte Sete)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2381 palavras 2026-02-09 14:02:46

Na grande sala no início do corredor, Lei Yan e os outros já haviam se acomodado. A soldada Elizabeth, com a ajuda de Hale, trouxe água e cobertores para eles.

— Ei, comandante do inferno — provocou Pezinho, espiando pela porta da sala com um sorriso travesso, e perguntou ao soldado Hale que acabava de sair —, como é que vocês se aquecem aqui? Queimam cadáveres de zumbis? Veja só — Pezinho revirou os olhos, apertou o próprio pescoço com as mãos e fez uma careta imitando um zumbi.

— Não, também não acendemos velas — respondeu Hale, gargalhando com bom humor —, temos carvão de ótima qualidade, recuperado das casas de madeira que se queimaram. É padrão para churrasco, dá até para assar carne de zumbi de verdade!

— Isso é nojento demais — comentou Elizabeth, fazendo uma expressão de repulsa, torcendo a boca e saindo, batendo no ar com a mão.

— Seria ótimo, se tivesse uma grelha seria ainda melhor — Pezinho olhou para os demais na sala, sorrindo para Hale —, pretendemos aquecer a carne de zumbi antes de comer, assim fica mais saborosa e fácil de digerir.

— Temos, inclusive espetos próprios e tudo mais, venha comigo e pegue você mesmo — Hale acenou para Pezinho e seguiu na frente, mostrando o caminho...

Eram sete e quatorze da noite. Um aroma irresistível de churrasco começou a se espalhar pela grande sala no início do corredor, embriagando os sentidos de quem ainda não havia perdido o olfato devido ao odor dos zumbis. Nesse mundo pós-desastre, dentro da floresta macabra, o cheiro era hipnotizante.

— O que vocês estão fazendo? — Hale foi o primeiro a aparecer na porta da sala, seguido de Elizabeth e seu irmão Barak. Eles estavam patrulhando o andar de baixo, por isso foram os primeiros a sentir o aroma vindo de cima.

— Ah, estamos cortando a massa em pequenos pedaços e assando para comer — respondeu Lei Yan, sorrindo enquanto salpicava cominho em um espeto de massa assada que segurava. O fogo do carvão iluminava os rostos de todos ao redor do fogão, deixando-os corados e radiantes de alegria.

— Venham comer também — Pezinho acenou com um pequeno pote de pepinos em conserva, convidando Hale e os outros com um sorriso —, não sei se vocês têm bebida aqui, mas se tiver um pouco de álcool, ah, esta noite... — Pezinho fechou os olhos, com expressão de êxtase, e então abriu-os, dizendo —, seria perfeita.

— Você pode beber? — Hale olhou para Elizabeth, que assentiu e, curiosa, perguntou a Pezinho.

— Por que eu não poderia beber? — Pezinho se ofendeu, respondendo com indignação —, isso não tem nada a ver com idade, eu aguento muito bem, hum!

— Muito bem — disse Elizabeth, torcendo a boca e sinalizando para Barak. Pouco depois, Barak trouxe uma caixa de cerveja.

— Trouxemos da cidade — explicou Elizabeth a Lei Yan e aos outros —, não sei que sabor tem, nunca bebi antes — ela pegou um espeto de massa assada, deu uma mordida, assentiu e comentou.

— Esta cerveja é deliciosa — disse Pezinho, pegando uma garrafa que Hale lhe entregou, bebendo com satisfação e falando para todos —, já testei para ver se não está envenenada, podem aproveitar à vontade! — Pezinho abriu os braços, sorrindo —, esta noite será maravilhosa!

Lei Yan e os soldados começaram a comer e conversar animadamente. Logo, Anna e sua filha Teresa, atraídas pelo aroma, também apareceram. Lei Yan as recebeu calorosamente, oferecendo um espeto de massa assada, que conquistou mãe e filha de imediato.

— Onde aprendeu esse talento? — perguntou Anna, mastigando a deliciosa massa assada —, sob suas mãos, ela fica muito melhor. Se ainda tivéssemos celulares, eu com certeza te daria um like nas redes sociais.

— Antes, quando morava no Reino da Porcelana, um parente meu tinha uma churrascaria — explicou Lei Yan, semicerrando os olhos enquanto assava a massa —, eu trabalhava lá e aprendi um pouco da arte do churrasco. Ainda não sou um mestre, mas faço o possível, não reparem.

— Com esse talento — brincou Hale, saboreando a massa assada —, não assar um pouco de carne é desperdício. Que tal assarmos carne de zumbi? Talvez seja mais saborosa do que imaginamos!

— Pare com isso — Elizabeth deu um soco de brincadeira em Hale, rindo —, carne de zumbi é fedorenta. Sem falar se tem veneno ou não, carne podre assada continua podre, impossível de comer. Além disso, é carne humana, como poderíamos comer?

— Aqueles lá fora ainda contam como humanos? — Hale apontou para fora, sorrindo para Elizabeth —, classificá-los como porcos, bois ou ovelhas é até generoso. Só de pensar no rosto deles, já me tira o apetite — dizendo isso, abocanhou um pedaço apimentado de massa assada e mastigou com prazer.

— Não comemos carne de zumbi justamente por envolver humanos — comentou Lei Yan, mordendo um espeto de massa —, mas fedor não significa necessariamente que seja ruim. Talvez não saiba, mas no Reino da Porcelana temos um alimento chamado tofu fermentado, que tem um cheiro parecido com o de zumbi, mas o sabor é incrível. Se fritar ou assar, fica ainda mais delicioso. Um dia preparo para vocês.

— Fritando ou assando deixa de feder? — Anna olhou para a silenciosa Teresa, curiosa.

— Continua fedendo, até mais — respondeu Lei Yan, entregando a Anna dois espetos de massa assada, sorrindo.

— Que pena, nunca poderemos experimentar esse sabor — suspirou Éric —, no Reino da Porcelana, aposto que é igual aqui: só restam zumbis com cheiro de tofu fermentado, e nada de tofu fermentado com cheiro de zumbi para comer.

— Não seja tão pessimista — animou Lei Yan, olhando para todos e incentivando Éric e os demais —, sei fazer tofu, inclusive tofu fermentado. É simples; se conseguirmos feijão no futuro, faço para vocês — enquanto salpicava tempero na massa, falou para todos —, garanto que depois de comer, vocês vão feder tanto que, mesmo entre zumbis, eles não vão perceber. Assim ficam sempre seguros.

— Se for tão milagroso assim, melhor ainda — brincou Hale —, precisamos fazer tofu fermentado imediatamente. Basta comer um pouco ou passar no corpo antes de sair, e estaremos completamente protegidos!

— Você está falando de um amuleto — Barak, raramente participando, entrou na brincadeira, sorrindo para Hale.

— É comida; quer que eu devolva a mesma quantidade em massa assada? — Teresa, com um sorriso misterioso, perguntou a Lei Yan. Sua fala esfriou o clima animado; todos ficaram em silêncio.

— Não precisa — respondeu Lei Yan com um sorriso para Teresa —, se faltar comida, buscamos mais. Nenhum alimento dura para sempre, o importante é aproveitar o presente. Hoje somos seus anfitriões, não precisa retribuir, isso seria formalidade demais!

— É verdade, a noite era perfeita — David interveio, animando o grupo —, vamos, eu proponho um brinde! — e ergueu seu copo de cerveja.

Enquanto Lei Yan, Teresa e os demais se reuniam ao redor do fogão, comendo massa assada, um grupo de criminosos armados se aproximava lentamente da casa de madeira, prontos para atacar e tomar o lugar...