Setenta e oito, O Médico Fora da Lei (III)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2737 palavras 2026-02-09 14:02:38

— Você primeiro, a senhora ali mesmo disse que você parece doente — respondeu Espírito do Vento, apertando a faca ao seu lado enquanto observava os soldados postados à porta. Eles estavam relaxados, mas seus olhos não se desviavam das mãos e armas de Lei Yan e seus companheiros. Espírito do Vento sabia que, se houvesse confronto, ele não teria chance — não seria mais rápido que as armas. Olhou para Lei Yan e pensou que tudo aquilo estava ficando cada vez mais absurdo. Mas, já que queriam brincar, não seria má ideia acompanhar aqueles charlatães por um tempo. Soltou a mão da faca e, com um sorriso irreverente, fez um gesto com o queixo para Erick, o jovem de pele escura, dizendo:
— Vamos, não perca tempo, tire a roupa, a calça, deite na cama e colabore com a doutora. Nada de enrolar!

— Ah, não precisa — a médica se apressou em tranquilizar, ao perceber que Espírito do Vento sugeria que o corpulento Erick tirasse as roupas. Estendeu a mão em direção a Lei Yan e aos outros, impedindo-os: — Para problemas leves, a medicina ocidental resolve. Para graves, é preciso examinar como antigamente. Não é necessário tirar as roupas, basta mostrar o pulso e sentar ali.

Erick estava prestes a protestar, indignado por ser o primeiro a ser examinado, mas ao ouvir que não precisaria despir-se, calou-se. Olhou para Lei Yan, que lhe fez sinal para colaborar. Mesmo contrariado, o medo das armas na porta o obrigou a sentar-se diante da pequena mesa de madeira indicada pela doutora, arregaçar a manga e expor o pulso esquerdo para o exame, enquanto sorria com resignação.

A médica, com gestos perfeitos de um antigo mestre, não só tocava o pulso com delicadeza, como também imitava o movimento de alisar uma barba longa sob o queixo — embora não tivesse barba alguma, apenas simulava o gesto, divertindo Lei Yan quase ao ponto de fazê-lo rir.

— Ai, meu Deus, está perdido! — exclamou de repente, arregalando os olhos e soltando um suspiro alarmado durante o exame.

— Perdido? — Erick, que nunca visitara a terra das porcelanas nem fora atendido em seus hospitais, assustou-se e perguntou aflito.

Lei Yan achou graça, pensando que, se ele mesmo tivesse de atuar como médico tradicional, talvez o efeito fosse ainda melhor. Cruzou os braços e já não prestava atenção ao show da médica; preferiu examinar o ambiente como um detetive, buscando detalhes úteis para, em breve, surpreender aquele grupo. Afinal, sua leitura de "Psicologia Criminal" não fora em vão.

— Seu centro da testa está escurecido, o tempo é curto — lamentou a médica, balançando a cabeça e demonstrando profunda simpatia pelo jovem que, segundo seu diagnóstico, estava à beira de uma morte precoce.

W e David não sabiam o que era o "centro da testa" e ficaram impressionados pela médica, juntando-se ao nervosismo de Erick.

Espírito do Vento, fã de novelas, conhecia metade das histórias do céu e todas da terra. Ao ouvir que Erick tinha o centro da testa escurecido, não pôde conter o riso. Bateu levemente na cabeça reluzente de Erick e brincou:
— Eu já sabia! Desde o dia em que nasceu, seu centro da testa começou a escurecer. Chegar a este ponto estava escrito desde o primeiro dia da sua vida!

— Sério? — Erick quase perdeu a voz de tão assustado, com os olhos arregalados.

— Claro! Sua testa é ampla, mas escura; seu queixo é forte, mas também escuro — Espírito do Vento olhou de relance para Lei Yan, que examinava o local, e continuou o trote — Está tudo escurecido. Não há escapatória. Tem alguma mensagem para deixar? Quer que levemos um recado a alguém?

— Doutora, o que faço? — Erick tremia, batendo os dentes, quase sem alma, enquanto pedia à médica de olhos esbugalhados.

— Calma, temos solução — a médica estendeu a mão para acalmar Erick, abriu a gaveta e retirou um pequeno frasco de líquido rosa, colocando-o diante dele. — Você está em perigo porque seus canais de energia estão bloqueados, o que escureceu seu centro da testa. Basta tomar este elixir, e em vinte e quatro horas — ela mostrou dois dedos, depois quatro — seus canais estarão abertos, a energia circulará e o vírus será eliminado — apontou para a cabeça escura de Erick, sorrindo — Inteligência e saúde vão reinar novamente!

— Posso perguntar qual é o elixir? — Espírito do Vento, controlando o riso, fez uma reverência à médica.

— Este é o “Pílula da Gema de Neve e Sapo de Jade” — ela revirou os olhos, inventando um nome pomposo — Os ingredientes são raríssimos. Não sei se já foi ao país do kimchi, mas essa fórmula veio de lá, capaz de ressuscitar os mortos.

— Abre mesmo os canais de energia? — Espírito do Vento, quase rindo, olhou para Erick, boquiaberto.

— Sem dúvida! Uma vez abertos, a energia verdadeira — a médica ergueu um dedo — percorre todos os seus meridianos — bateu na mesa, garantiu — E cura qualquer doença!

— Se ele tomar o seu remédio, ficará curado — Espírito do Vento, contendo o riso, continuou — Mas não corre o risco de virar um mestre das artes marciais?

— Mestre das artes marciais? O que quer dizer? — a médica ficou confusa.

— Só mestres conseguem abrir os canais de energia — Espírito do Vento mostrou dois dedos sorrindo — Então, se Erick abrir, vai virar um mestre?

— Quem sabe! — a médica percebeu a brincadeira e, com expressão séria, disse a Erick — Você precisa tomar o remédio, senão está condenado.

Erick, ao saber que havia esperança, assentiu repetidas vezes, mostrando-se disposto.

— E se não tomar? — Espírito do Vento olhou para Lei Yan, que ainda examinava o local, e perguntou sorrindo.

— Nem pensar! — a médica se irritou. Os três soldados na porta, ao vê-la endurecer, imediatamente apontaram as armas para Lei Yan e os demais.

— Viu? — Espírito do Vento ergueu as mãos com todos, sorrindo para Erick — Não precisa decidir, você vai tomar de qualquer jeito.

— E o que pretende trocar em troca do remédio? — Lei Yan, de mãos levantadas, questionou a médica — Quando chegamos, vimos um homem ajudando você a procurar algo. Podemos ajudar, desde que salve Erick.

— Vocês estão dispostos a colaborar? — perguntou a médica.

— Claro — Lei Yan arqueou as sobrancelhas, respondendo com tranquilidade.

— Ótimo. Ficará registrado — ela lançou um olhar para Erick e fez um sinal aos soldados, que abaixaram as armas. Voltou-se para Lei Yan — Então, continuem com os exames.

— Espere. Sabemos que nossa aparência não é das melhores, diga logo: se também estivermos com a doença fatal, se nosso centro da testa estiver escurecido, o seu remédio — Espírito do Vento apontou para o elixir — cura? Ou precisa de outro?

— Cura sim, garoto esperto — a médica ajustou os óculos e abriu os braços — Qualquer doença é causada por canais bloqueados. Basta abrir, e o remédio resolve.

— Certo, quero esse remédio — Espírito do Vento estalou os dedos, olhou para Lei Yan e perguntou à médica — Não precisa mais de exame, certo?

— Então concorda em trocar algo? — ela olhou para os soldados, ajustou os óculos e perguntou.

— Não, não precisa — Espírito do Vento, ao ver os soldados prestes a levantar as armas, fez sinal para que parassem, voltou-se para a médica e assentiu — Concordo. E vocês? — perguntou a David, W e Lei Yan.

David e W perceberam algo estranho, olharam para Lei Yan, que permanecia em silêncio, e assentiram. W, vendo a mãe concordar, também fez o mesmo.

A médica ficou satisfeita, claramente aliviada de alguns problemas. Só Lei Yan não se manifestara, então ela cruzou os dedos sobre a mesa e o encarou, esperando sua resposta. Mas a pergunta de Lei Yan a surpreendeu profundamente.

— Você já foi médica legista, não foi? — perguntou ele, sorrindo...