Cento e sete, o Caçador de Vingança (Parte Três)
— Calibre .22? Uau, você não está enganado, né? — Leiyán animou-se ao ouvir isso. Ele havia estudado balística por conta própria e, num salto, levantou-se do chão, vestiu rapidamente as luvas de borracha, pegou a ponta da bala pegajosa das mãos de Teresa e a levantou sob a luz para examiná-la de perto, dizendo: — Agora que você falou, estou sentindo um cheiro de coisa do submundo.
Após uma observação cuidadosa, Leiyán assentiu para Teresa, devolveu-lhe a ponta da bala e disse: — É, é calibre .22! A ponta não é grande, mas é muito eficiente. Ela ricocheteia dentro do corpo, causando ferimentos graves.
— Hmm, ótimo! Finalmente conseguimos algo — Teresa colocou a ponta da bala na bandeja com satisfação, tocou suavemente as duas metades do cérebro e falou para Leiyán: — O cérebro vai ser fatiado e fotografado depois, então vamos deixar assim. Quanto ao resto... — ela olhou para o corpo e disse —, precisamos organizar tudo.
— Mas já achamos a ponta da bala, por que ainda precisamos organizar? — Leiyán mostrou-se descontente, pegou a máscara do chão e a colocou, dando a Teresa uma ideia cheia de desagrado: — Por que não cobrir com um lençol branco, tampar o rosto do A e empurrar para a geladeira? Ele nem precisa mais interrogar nenhuma atriz, então pra que esse esforço todo?
— Não se pode dizer assim — Teresa respondeu. — Aqui não é como em outros lugares, é “vida com você”. Além disso, tudo é relativamente normal — ela virou o couro cabeludo de A para mostrar o rosto e instruiu Leiyán a virar o corpo completamente de bruços. Enquanto segurava o crânio ao lado, falou: — Como no mundo normal, ele certamente foi uma pessoa importante aqui. Haverá um funeral, um ritual — disse enquanto recolocava o crânio em seu lugar, aplicando ao redor uma linha de cola aquosa tirada da caixa de ferramentas. Por fim, alinhou as extremidades vazias do crânio e pressionou, olhando para Leiyán: — É também uma forma de respeito ao falecido. Num funeral, como o morto ficaria sem cabeça nem rosto, não é verdade?
— Ah, ter cabeça e rosto é sinal de respeito, né? — Leiyán ficou ao lado, observando Teresa prender o crânio, e ironizou: — Essa cola é de secagem rápida, né? Não vão recolocar o cérebro, isso é respeito? Haha!
— Ninguém vai reparar nisso, hehe — Teresa abriu as mãos e sorriu para o corpo. — Além disso, ele não precisa mais disso. A cola não é de secagem rápida, mas assim está bom, afinal ninguém mexerá — disse, passando uma linha preta de tendão bovino numa agulha grande para costura e, dirigindo-se a Leiyán, explicou: — A cola endurece em 24 horas. No funeral, não haverá problemas.
— Obrigado, vou aplaudir por você e pelo produtor A — Leiyán olhou para A de bruços, balançou a cabeça sorrindo e bateu palmas para Teresa: — Preservando a última dignidade de uma lenda.
— A dignidade vem com o último passo — Teresa enfiou a linha e, com as duas mãos, virou o couro cabeludo que estava sobre a testa de A para o crânio recém colado, esticou bem e começou a costurar a pele. Enquanto fazia isso, falou para Leiyán: — Esse procedimento é uma verdadeira arte para nós, médicos legistas.
— Haha, você pode ser expert em abrir barriga e retirar os órgãos, mas essa costura... — Leiyán cruzou os braços, observando Teresa costurar de modo meio desleixado, como um homem preguiçoso colocando sola no sapato, de forma desajeitada e displicente. Pensar que A estava nas mãos de um amador para esse trabalho, silencioso, era estranho e até cômico. Ele brincou com Teresa em tom negro: — Parece que quando a pessoa morre, até o couro cabeludo se entrega! Se eu fosse A, já estaria chorando, sem dúvida.
— Isso é diferente de cirurgia plástica ou operação em vivo — Teresa terminou a costura, olhou para Leiyán e sorriu: — Não precisa ser tão meticuloso, o corpo não cicatriza, então as cicatrizes não importam. Ela deu os últimos pontos, fez um nó no couro cabeludo de A, cortou a linha com a tesoura, ajeitou o cabelo e cobriu quase completamente a incisão. Deixou as mãos na cintura e disse para Leiyán: — Viu? Pronto. Se não olhar muito de perto, ninguém percebe.
— Hum, nisso você pode confiar, ninguém vai olhar tão de perto, nem a esposa dele — Leiyán ajudou Teresa a virar o corpo de A e, ao ver o rosto, surpreendeu-se e logo riu alto. O nariz de A, por algum motivo, estava torto para um lado, contrastando com a seriedade do rosto, causando um efeito cômico.
— Como isso aconteceu? — Teresa aproximou-se, endireitou o nariz e, ao colocar dois cotonetes nas narinas de A, analisou com Leiyán: — O nariz grande dos ocidentais é complicado, o de vocês, orientais, é melhor.
— Melhor porque não quebra durante a autópsia? — Leiyán suspirou e sorriu amargamente. — Então, essa vantagem nem vale a pena.
— Está arrumado — Teresa, aliviada ao ver o nariz reto, fechou os olhos de A e disse para Leiyán: — Vamos deixar ele descansar no ar-condicionado. Vamos autopsiar o próximo corpo.
— Ainda vai autopsiar? — Leiyán ficou tenso, perguntando apesar de já saber.
— Claro, acha que vamos fazer só um por dia? — Teresa fez um gesto para que ele colocasse o corpo no carrinho ao lado. Juntos, levantaram o corpo com certo esforço. — Está pesado, eu acho que fazer só um por dia faz sentido — disse, soltando um suspiro após colocar o corpo no carrinho. Depois, cobriu-o com um lençol branco.
— Que tal pararmos por aqui hoje? Amanhã buscamos mais dois ajudantes — Leiyán tentou subir o tom, sorrindo para Teresa: — O esforço deve ser dividido entre todos, certo?
— Deixe pra lá, agora só quero saber se as outras duas cabeças têm calibre .22 — Teresa empurrou o corpo de A para o freezer e falou para Leiyán: — Se não terminarmos, vou ficar preocupada o tempo todo, não vou conseguir comer nem dormir direito. Não acha? — Abrindo a porta do compartimento, com a ajuda de Leiyán, colocou A dentro do congelador.
— Ah, então é isso — Leiyán se resignou, sabendo que não tinha jeito, respirou fundo e continuou ajudando, falando para se consolar: — Mesmo que a gente pare agora, não vou conseguir comer ou dormir direito depois.
— Para de se queixar — Teresa abriu o compartimento do próximo corpo, recebendo uma rajada de ar gelado no rosto, sem se abalar, sorriu e animou Leiyán: — O anterior não foi grande coisa, só um homem grande e peludo com barriga. Mas este aqui é diferente. No seu país de porcelana, como dizem? “Pele de porcelana” — uma mulher fria e bela. Bela morta continua bela, hehe. Anime-se!
— Haha, você é mesmo engraçada. Uma mulher morta é só um peixe congelado — Leiyán puxou o corpo para fora, com a ajuda de Teresa colocou-o no carrinho e disse, sorrindo amargamente: — Agora sei seu método e processo. Quando você virar o couro cabeludo e tirar o cérebro, eu definitivamente não vou olhar. Tenho medo de ficar muito perturbado e passar a ter uma sensação estranha até com pessoas vivas.
— Haha, tudo bem — Teresa empurrou o corpo de B para a mesa de aço e brincou com Leiyán: — Eu só penso em assar o cérebro. Se você ficar perturbado e parar de querer comer cérebro assado, aí não concordo.
— Esses canalhas! — Leiyán, ajudando Teresa a colocar o corpo na mesa, lembrou-se dos que fugiram antes e ficou furioso, murmurando palavrões baixos.