Sessenta, Provas
— Naturalmente, tenho provas — disse Jorge, tirando um bilhete do bolso com dois dedos, exibindo um sorriso satisfeito. Sob o olhar atento de Lei Yan, balançou o papel e, em seguida, levantou-se para colocá-lo debaixo do travesseiro aos pés de Lei Yan, que estava deitado de costas. Depois, posicionou-se diante da lareira e declarou: — Este é um presente para você, uma lembrança.
Jorge ainda queria dizer algo mais, mas pareceu ouvir alguém sussurrando do lado de fora. Lançou um olhar para a porta, assentiu e voltou-se para Lei Yan: — Já disse o principal, agora é só manter os olhos abertos e assistir ao meu último espetáculo. Ah, quase me esqueci, obrigado! Obrigado por ter me capturado de forma tão grandiosa e espetacular — Jorge, ao se virar para sair, tornou a olhar para Lei Yan, sorriu e só então deixou o quarto satisfeito.
Lei Yan sentiu um aroma peculiar e, num instante, adormeceu profundamente. O sonho foi estranho demais...
Seu corpo foi sacudido com força e, aos poucos, a consciência voltou. Assim que abriu os olhos, uma luz ofuscante invadiu sua visão, deixando-o momentaneamente cego. Por um momento, pensou ter morrido e subido ao céu.
— Finalmente acordou! — ouviu a voz do "Duende" ao lado. Quando sua visão se recuperou, os rostos do "Duende", do "Esqueleto", de Teresa e de outros apareceram acima dele.
— Depressa, vai ver — exclamou Lei Yan, sentando-se de supetão na cama, nervoso diante de todos.
— Justamente, íamos agora mesmo, você não acordava de jeito nenhum — disse o "Duende". — Eu até disse a eles que você estava fingindo!
— Vai ver se ele ainda está lá ou não? — Lei Yan arregalou os olhos, tentando agarrar as pessoas ao redor, aflito.
— Quem está lá ou não? Você ainda está grogue de sono? — O "Duende" olhou para Teresa antes de responder a Lei Yan.
— Jorge! Ele ainda está lá? Fugiu da prisão? — Lei Yan balançou a cabeça e agarrou a mão do "Duende", ansioso.
— Parece que dormiu mesmo pesado — o "Duende" assentiu para os outros, avaliando a situação.
— Jorge está lá, sim. Portas trancadas, guardas por toda parte, como poderia fugir? — Teresa, mais paciente, entregou um copo d’água a Lei Yan e sorriu. — Ele não teve a menor chance.
— Já está amarrado, a caminho da execução — disse Heil, sorrindo para Lei Yan. — Mesmo se quisesse fugir, não daria tempo. Tem mais de trinta guardas armados vigiando, contei um por um. Nem adianta tentar resgatar.
— É mesmo ele? — Lei Yan esvaziou o copo, inquieto.
— Absolutamente — confirmou o Chefe, acenando com a cabeça. — Todas as características dele batem. Ninguém conseguiria imitá-lo tão bem em tão pouco tempo, e ninguém morreria no lugar dele, seria burrice.
— Então, Jorge está mesmo lá? — ao ouvir todos, Lei Yan sentiu-se aliviado, bateu levemente na própria cabeça, convencendo-se de que o que lembrava da noite era apenas um sonho, e suspirou.
— Claro que está, que sonhos você teve essa noite? — O "Esqueleto" olhou curioso para os outros.
— Sonhei que Jorge entrou no meu quarto à noite, sentou ali — Lei Yan apontou para a lareira — e falou sobre alguns mal-entendidos entre nós.
— Só podia ser sonho. Sabe por que estamos todos aqui? — O "Duende" sorriu de canto. — Porque o rei mandou todo mundo, especialmente você, ir ao local da execução. Se Jorge tivesse fugido, nem viríamos procurar você. Com o criminoso foragido, não haveria mais motivo pra assistir nada, certo?
— O sonho foi tão real, tão completo, tão lógico — disse Lei Yan, esfregando os olhos, levantando-se cambaleante em direção ao banheiro. — Não tem como não acreditar!
— Também sou assim, não é nada demais — comentou o "Esqueleto", seguindo Lei Yan. — Quando acordo, fico meio perdido até me livrar do clima do sonho. E vocês? — "Duende" e os outros concordaram, dizendo ter passado por experiências semelhantes, atribuindo tudo a sequelas do desastre — todos sentiam falta da vida antes da catástrofe.
— No meu caso, foi depois do desastre, deixa pra lá — disse Lei Yan, lavando o rosto e enxugando-se. — Lembro que pedi ao rei que não queria assistir à execução, por que insistem? Sangue jorrando, gritos sem fim... — enquanto escovava os dentes, continuou — Que graça tem isso!
— Ninguém quer ir, nenhum de nós — Teresa sorriu, resignada, para Lei Yan no banheiro. — O problema é que só você não querer não resolve. Você é o maior responsável pela resolução do caso...
— ...Segundo maior — corrigiu o "Esqueleto".
— Isso, o rei em primeiro, você em segundo. O rei traçou a estratégia, mas foi você que organizou e executou — Teresa lançou um olhar divertido aos outros. — O rei não perderia a chance de usar isso como propaganda.
— Ah, entrar no palácio é mergulhar num mar sem fim — disse Lei Yan, cuspindo a água do enxágue, limpando a boca, pegando o pente. Observou o próprio reflexo enquanto penteava o cabelo. — Assim que acabar, vamos embora daqui, deixar este lugar de intrigas.
— Parece até que todos viramos eunucos — riu o "Duende", achando exagero de Lei Yan, e comentou com os outros. — Tomara que surja um novo caso, pra ficarmos mais um ano nesta cidade real.
— Precisamos descansar, casos não aparecem do nada — disse Lei Yan, embora sua vontade de partir fosse mais força de expressão. Olhou-se satisfeito no espelho, largou o pente, saiu do banheiro e suspirou para o "Duende": — Tenha paciência, não esqueça dos nove misteriosos que deixaram pegadas na cena do crime. Sonhei com eles ontem. — Pegou as roupas novas que haviam deixado na cama e, franzindo a testa, avisou aos outros: — Eles não vão sossegar, trabalho não vai faltar, só precisamos de tempo — olhou ao redor, depois para a porta. — Agora vou me trocar, certo?
Todos, compreendendo, saíram do quarto, e junto aos guardas do rei, esperaram do lado de fora.
No campo de execução fora da cidade, uma multidão de duas ou três mil pessoas cercava o local, impossível passar. Em frente, a trinta metros, estava a tribuna cheia de espectadores; além do rei e de Lei Yan com sua equipe, todos os assentos eram ocupados por nobres, ministros, generais e comandantes, todos com semblante solene, aguardando a execução.
— Quantos seguranças há por aqui? — Lei Yan olhou ao redor enquanto mastigava um biscoito, cobrindo a boca, e perguntou baixinho ao rei Maicon: — É preciso evitar tumultos ou tentativas de assassinato contra Vossa Majestade!
— Não se preocupe, já previ isso — respondeu Maicon, inclinando-se para falar baixo. — Coloquei dezenas de atiradores de elite ao redor, todos escondidos — olhou ao redor e continuou — estão divididos em setores; qualquer movimento suspeito resulta em tiro na cabeça.
— Então, falar com você aqui é perigoso? — Lei Yan perguntou, apreensivo.
— Ninguém seria idiota de atirar em você — Maicon riu da preocupação de Lei Yan. — Pode ficar tranquilo.
— E a segurança do local? — Lei Yan assentiu, comendo mais um biscoito, e insistiu: — Não deixe o criminoso escapar.
— Está fortificado como uma muralha. Mesmo que o rapaz criasse asas e tentasse voar, eu o derrubaria — respondeu Maicon, seguro de si. — Não vou deixar nada dar errado, pode confiar.
Lei Yan assentiu, olhando para o cadafalso à frente, pensando que talvez estivesse exagerando, tudo culpa daquele sonho estranho.