Sessenta e quatro, a caixa de sapatos

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2333 palavras 2026-02-09 14:02:29

A escada de ferro não era longa; os três rapidamente chegaram ao porão. Sob a luz, ficaram assustados com o que viram diante deles. Alinhados na parede, estavam mais de dez cadáveres de filhotes de gato, pregados com cravos de aço. Já ressecados há muito tempo, haviam se transformado em múmias. Pelo aspecto das cabeças, com os dentes à mostra e os membros estendidos, era evidente que aqueles filhotes foram pregados vivos na parede.

— Esse sujeito é completamente depravado — resmungou Hale, cuspindo no chão. — Sua Majestade deveria picá-lo e dar aos cães. Isso ainda seria pouco!

— Olhe aquela caixa — disse o chefe, ao ver uma caixa de sapatos sobre a única mesinha do cômodo. Sem saber o que poderia haver ali, alertou Lei Yan.

Lei Yan se aproximou, pegou a caixa e pesou-a nas mãos; era pesada, não estava vazia. Cheirou-a, não havia odor estranho. Olhou para Hale e o chefe, que assentiram com a cabeça. Só então Lei Yan abriu a tampa. O conteúdo da caixa deixou os três perplexos.

Dentro, havia rolos de fotografias, cada um amarrado com uma tira de borracha, organizados perfeitamente. As fotos estavam dispostas em várias camadas; na fileira mais à esquerda da camada superior faltavam alguns rolos, cinco ao todo, comparando com as outras. Imediatamente pensaram nos cinco rolos de fotos que tinham em mãos.

Lei Yan pegou um rolo ao acaso e o abriu. Todas as imagens eram de pessoas sendo assassinadas, idênticas ao conteúdo dos cinco rolos que possuíam, só que estas não tinham informações ou endereços no verso. Suspirando, Lei Yan lançou as fotos ao chão, ficou em silêncio por alguns segundos, depois as recolheu, colocou-as de volta na caixa, fechou a tampa e subiu a escada de ferro com ela.

— E então, alguma novidade? — Pulga perguntou ao ver Lei Yan sair com a caixa, mas Lei Yan não respondeu e foi direto para a janela que haviam desmontado.

— O que aconteceu? — Pulga olhou para o chefe, que fechava a tampa de ferro, e perguntou a Hale.

— Encontramos mais uma pilha de fotos — respondeu Hale, caminhando para a janela e falando baixo. — Aquele sujeito não matou só cinco pessoas; é um monstro, um assassino em massa.

— Caramba! Uma caixa de sapatos, quantos rolos cabem ali? — Pulga observou Lei Yan saltar pela janela com a caixa de sapatos, seus olhos arregalados em espanto.

— É melhor sairmos logo, lá embaixo ainda há vários filhotes de gato pregados vivos — disse o chefe, dando um tapinha no ombro de Pulga. — Este lugar é muito nefasto, melhor irmos embora.

Nos arredores, Lei Yan liderou o grupo para cavar três fossas profundas e sepultou ali os três corpos não reclamados do necrotério, sem lápides, sem nomes. Neste mundo, o nome era o que menos importava. Sobre as sepulturas, Lei Yan colocou algumas grandes pedras e, seguindo o costume do país das porcelanas, queimou para elas papel-moeda artesanal.

Teresa e Ana depositaram flores brancas silvestres, colhidas à beira da estrada, sobre as sepulturas.

— Realmente devemos agradecer a elas — disse Pulga, pegando uma pedra e colocando sobre um túmulo, dirigindo-se a Hale. — Se não fosse por elas, ainda estaríamos por aí procurando comida!

— Sim, elas são nossos benfeitores — concordou Hale, também pegando uma pedra e colocando sobre outro túmulo. — Precisamos agradecer e prestar homenagem.

— Olha como vocês falam — comentou a soldada Elizabeth ao lado de Hale e Pulga. — Parece até que elas se sacrificaram só para resolver nosso problema de alimentação. Dá até vergonha!

— Não há necessidade, tudo é destino — respondeu o velho David a Elizabeth. — Se não tivessem cruzado nosso caminho, não teriam conseguido justiça nem descanso. No fim, foi uma sorte para elas também. — Todos assentiram, pensativos.

— As fotos da caixa já foram digitalizadas? — Lei Yan perguntou ao Esqueleto, que segurava a caixa, após cavar uma das fossas.

— Sim, todas. Ao todo são— — Esqueleto começou a dizer o número, mas Lei Yan fez um gesto para que se calasse, então ele apenas entregou a caixa.

— Não quero ouvir esse número agora — Lei Yan recebeu a caixa, colocou-a cuidadosamente no fundo da fossa, pediu a garrafa de bebida a David, abriu a tampa e derramou um pouco de aguardente, fechou a tampa e derramou mais, depois devolveu a garrafa a David.

— Por que fechar a tampa antes de derramar mais? Que desperdício — Pulga perguntou baixinho a Teresa.

— A tampa é como a tampa de um caixão, não pode ficar aberta — explicou Teresa, também em voz baixa.

— Ah, tantos ali dentro, o chefe usa um caixão só — Pulga assentiu, admirando. — Ele é bem econômico mesmo. Teresa não respondeu, apenas ergueu o queixo, indicando para que Pulga continuasse observando.

Lei Yan acendeu um fósforo e o lançou sobre a caixa, que rapidamente se incendiou com chamas azuladas, conferindo um ar quase sobrenatural. Ele retirou do peito uma pilha de notas de dólar e, uma a uma, foi colocando sobre a caixa em chamas.

À luz do fogo, os rostos dos grandes homens impressos nas notas transformavam-se em cinzas num instante, deixando todos silenciosos e emocionados.

— No fim das contas, todo o dinheiro é vazio — disse Teresa, olhando para o fogo devorando a caixa e as notas.

— Casas, mansões, nada disso vale. Depois de morto, só resta apertar-se com outros numa caixa de sapatos — lamentou Hale, balançando a cabeça. — A vida é mesmo um sonho.

— Você não entende nada de vida — retrucou Pulga, lançando um olhar de desprezo ao grandalhão Hale, como se fosse o único entendido. — Este funeral está ótimo, queimou dólares de verdade, e ainda uma pilha enorme! Que pompa! Caixa de sapatos ou caixão, tudo é só um símbolo, não faz diferença.

— Mas o país dos dólares já nem existe, agora só há sete nações — Hale olhou para Elizabeth, tentando se defender e discutir com Pulga. — O dólar não passa de papel inútil, acho que as moedas funerárias feitas pelo chefe são mais eficazes.

— Você não entende. O valor está na necessidade, naquilo que é desejado — Pulga, sempre pronto para discutir, explicou, observando a fumaça negra subindo da caixa. — Essas pessoas eram ricas, só aceitavam dólares. Se queimássemos outra moeda, não aceitariam. É preciso agradar, certo, chefe? — Pulga perguntou a Lei Yan, que acabava de se levantar.

— Talvez — respondeu Lei Yan, olhando para a caixa em chamas.

— Quantos rolos de fotos havia? — perguntou o soldado Barack a Pulga.

— Um número astronômico — Pulga respondeu, sabendo que Lei Yan não queria mencionar.

— Muitos chegaram e partiram, seja como for, sem deixar rastros. O mundo tem seu próprio ritmo, não se importa com o que pensamos — David olhou para o fogo na fossa, murmurando.

Lei Yan olhou para David, assentiu e soltou um suspiro.