Oitenta e nove, O Médico Fora da Lei (Seis)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2564 palavras 2026-02-09 14:02:45

— Espera aí, aqui não era uma fazenda antes? O que aconteceu? — perguntou Gás, coçando a cabeça. — Eu já estive aqui antes, cheguei até a roubar um franguinho, sou bem conhecido do dono da fazenda. — Gás olhou desconfiado para a sala cheia de velhos e velhas. — Como é que foi, em tão pouco tempo isso aqui foi tomado por um bando de idosos? Que história é essa? — Apontando para Heller, continuou: — Não me diga que são as mesmas pessoas, só que a situação ficou tão ruim que todo mundo virou velho de repente.

Os outros, inclusive Lei Yán, se viraram atentos ao questionamento de Gás.

— O grupo anterior já tinha fugido quando chegamos aqui — suspirou Heller, esboçando um sorriso. — Havia alguns zumbis na casa, demos cabo deles. No começo não havia tantos idosos, só minha avó. — Heller olhou para a senhora de porte altivo, entre as demais. — A missão que recebemos nos levou para perto de onde minha avó morava. Quando a defesa militar foi esmagada pela horda de zumbis, levei alguns colegas do batalhão até a casa dela em busca de comida. — Sentado numa cadeira, Heller mexia no fuzil que segurava. — Não havia o que fazer, então trouxe minha avó comigo. Não podia deixá-la esperando a morte, ainda mais depois de termos acabado com toda a comida dela. — Lançou um olhar para dois soldados que patrulhavam do lado de fora da janela.

— Você explicou como apareceu a primeira idosa, mas e os outros? — W, segurando a mão de Wzinho, perguntou.

— Depois que nos estabelecemos aqui — aliás, quase não há zumbis por perto, é um ótimo lugar —, começamos a buscar alimentos, combustível e suprimentos — respondeu Heller, sorrindo para Wzinho.

— Quando ele diz “buscar”, quer dizer a cidadezinha ali perto — interrompeu uma mulher de meia-idade.

— Como se chama? — perguntou W.

— Meu nome é Ana — apresentou-se. Apontando para a médica que examinava Jack, continuou: — Essa é minha filha, Teresa. — Ao ouvir seu nome, Teresa olhou rapidamente para W, mas não respondeu.

— Mas conte dos outros idosos — lembrou Gás, chutando Heller de bom humor. — Ou será que eles são a comida que vocês encontraram?

— Haha, claro que não! Eles não são a comida, nós é que procuramos comida para eles — explicou Heller. — Vasculhamos cada casa da cidade próxima e acabamos encontrando esses idosos escondidos cuidadosamente. Provavelmente as famílias, sem condições de levá-los consigo, os esconderam. — Observando os velhos, Heller continuou: — Quando os achamos, já tinham quase consumido toda a comida e estavam à beira da morte. Teresa não quis deixá-los morrer. — Olhou para Teresa, a médica, e disse ao grupo de Lei Yán: — Então trouxemos todos para cá. O lugar virou um asilo, e agora temos mais bocas para alimentar do que vocês, por isso precisamos de muitos mantimentos.

— Os vivos destas redondezas também vêm aqui para se tratar? — suspirou Lei Yán, olhando para a sala cheia de idosos.

— Zumbis por aqui são raros, então há muitos sobreviventes — explicou Ana. — Teresa já atendeu vários deles, a notícia correu, e assim todos passaram a procurá-la.

— E foi aí que começaram a vender remédios milagrosos para quem não estava doente? — Gás franziu a testa, indicando os idosos ao redor, sugerindo que faziam isso para sustentá-los.

— Não damos conta de tudo, tivemos que encontrar uma solução — Teresa recolheu o estetoscópio e explicou ao grupo. — Há muitos recursos por aqui, senão não faríamos isso.

— Isso se chama ajudar os pobres roubando dos ricos? — perguntou Erik, semicerrando os olhos para Teresa.

— Você tem cada saída! — Gás caiu na gargalhada, olhando para Erik. — Chama logo de roubo!

— Como é? — a soldada não gostou do comentário e questionou Gás.

— O que posso dizer? Só disse a verdade — Gás deu de ombros.

— Pronto, cada um tem seus motivos — interveio o velho David, temendo que Gás causasse mais confusão. Para evitar briga, sorriu para a soldada, estendendo a mão: — Sou David Nevard, e você, como se chama?

— Elizabeth Moore — respondeu a soldada, apertando com alguma relutância a mão de David.

— E esse aqui? — Depois de cumprimentar Elizabeth, David estendeu a mão ao soldado calado.

— Sou Barack Moore — respondeu ele, olhando para Elizabeth. — Sou irmão dela.

— Agora entendi por que precisava de um médico militar — disse Lei Yán, que observava Teresa e os soldados. — Mas você é legista. São todos do mesmo grupo?

— Não, conhecemos depois. Como vocês, que também não estavam juntos desde o início — explicou Teresa.

— Verdade — reconheceu Lei Yán, mudando de assunto. Olhando para o idoso examinado por Teresa, perguntou: — E o Jack, como está? Se estiver com fome... — Bateu na mochila de Gás. — Temos comida aqui, e se é por uma boa causa, teremos prazer em ajudar.

— Não precisa, ele teve uma crise, o coração parou — Teresa balançou a cabeça, pesarosa. A avó de Heller, ao lado, limpava as lágrimas discretamente.

— Não vão cuidar disso? — perguntou Lei Yán, sabendo que Jack logo se transformaria.

— Claro que sim, mas não na frente dos outros idosos. Não queremos assustá-los — disse Teresa, trocando olhares com Heller e Barack, que logo carregaram Jack numa maca e levaram o corpo para fora.

— Podemos ficar aqui? — perguntou Lei Yán, olhando para Gás e os outros, dirigindo-se a Teresa. — Compartilhamos nossa comida, ajudamos a buscar suprimentos e a defender o lugar.

— Acredite, todos os normais que vêm até aqui fazem o mesmo pedido — Teresa, com ajuda de Ana e Elizabeth, pegou frascos de remédio para dar aos idosos, enquanto respondia ao grupo. — Se aceitássemos, já teríamos mais de uma centena de pessoas aqui. Por isso, não podem ficar.

— E para onde quer que vamos? Tem uma criança conosco — protestou Erik, indo até Teresa. — Há quartos vazios, podemos ser úteis.

— Erik — Lei Yán fez sinal para que ele não insistisse. Sorriu para Teresa e propôs: — Que tal ficarmos só alguns dias? Assim que Wzinho melhorar, partimos imediatamente, tudo bem?

— Isso mesmo — apoiou David. — Caso contrário, ficaremos inseguros.

— Três sacos de pão sírio — respondeu Teresa, erguendo-se após medicar um idoso. — Senão, nem adianta conversar.

— Fechado — Lei Yán impediu Gás de tentar barganhar e concordou com Teresa. — Onde podemos ficar?

— Elizabeth — chamou Teresa —, leve-os até o grande quarto no fim do corredor e providencie água e cobertores para eles.

A partir daí, Teresa voltou a cuidar dos idosos, dando-lhes água e remédios, sem dar mais atenção ao grupo.