Sessenta e oito, uma questão de tempo
Na noite em que testaram o baú mágico, todos transformaram novamente a sala de reuniões em uma sala de jantar, reunindo-se ali para comer, beber e discutir o experimento aterrorizante da tarde.
“Caramba, quase morri de susto, meu coração ainda está disparado”, disse Flatulento, virando de uma vez o copo cheio, ofegante, para os outros. “Vocês não têm ideia de como aquele do outro lado, o tal do Henrique, tinha um olhar afiado e assustador. Olhou para mim de um jeito que, sinceramente, quase suguei minha alma. Me serve mais uma! Não dá, preciso de outro copo”, pediu Flatulento a Erik, que riu e encheu o copo para ele.
“Você que quis encarar, se sua alma fosse puxada, ia culpar quem?”, o Chefe roeu uma coxinha de frango, tomou um gole de aguardente branca e riu para Flatulento. “Da próxima vez que vir algo estranho, não precisa fazer escândalo. Finge que não viu, fala baixinho, entende?”
“É, da próxima vez que toparmos com algo esquisito, precisamos de uma estratégia”, comentou Teresa, lambendo o óleo dos dedos e aconselhando Flatulento.
“Por que tudo acaba sendo culpa minha?”, resmungou Flatulento, mordendo com força um pedaço de frango e reclamando de boca cheia. “Se for para culpar alguém, que seja esse maldito Esqueleto”, exclamou, batendo na mesa e apontando para Esqueleto com fingida raiva. “Esqueleto, Esqueleto, e a gente aqui confiando em você… Você nem entendeu direito o que era isso, não é apenas uma simples reprodução da cena original, como chama mesmo?” Bateu na testa, tentando lembrar das palavras que Melene lhe dissera, e então apontou para ela, pedindo ajuda.
“Quando você encara o abismo, o abismo também encara você”, respondeu Melene, largando a fatia de tomate.
“Isso mesmo, essa é a frase. Você é mesmo inteligentíssima!”, elogiou Flatulento, batendo na mesa e apontando para Esqueleto. “Eu também fui encarado pelo abismo. Aquilo não era um holograma, era o próprio abismo, entendeu? Tudo culpa sua”, protestou, “se eu soubesse que era o abismo, acha que eu seria burro de ficar encarando? Toda a minha sabedoria de uma vida foi destruída por sua besteira.”
“Não destruiu nada, você merece um mérito, e dos grandes”, exclamou Leão, erguendo o copo animado. “Ainda bem que você olhou, senão só poderíamos supor, jamais confirmar. Você fez mais do que Esqueleto, vamos brindar!”
“É mesmo! Brindemos!”, Flatulento, surpreso com o elogio do chefe, levantou depressa o copo, brindou com Leão e bebeu de um gole só, sorrindo tanto que nem se via os olhos. “Nosso chefe tem visão! Eu fui o pioneiro, abri o caminho para vocês, podem aprender comigo!”
“O baú mágico definitivamente não é uma simples reprodução do passado”, disse Davi, largando o sanduíche pela metade e acendendo um cigarro. “O que ele mostra não é uma simples repetição.”
“Em vez de repetir, é como se estivéssemos sobrepostos, ou em contato, com outro ponto do espaço-tempo. Seria isso?”, ponderou a legista Teresa, pousando o copo e olhando para Ana ao lado, depois para todos. “Nesse caso, será que poderíamos encontrar um jeito de entrar em outro espaço-tempo?”
“Isso mesmo, entrar naquele mundo normal”, sugeriu Flatulento, largando a comida, os olhos arregalados, sonhando acordado. “Assim não precisaríamos mais sofrer por aqui.”
“Aquele mundo agora virou este”, brincou Helio, apontando para o chão. “Mesmo que você entre no mundo normal, vai acabar sofrendo, sofrendo tudo de novo.”
“Não necessariamente. Não é como se eu fosse salvar o mundo, não tenho esse poder, nem sei de onde veio o vírus. Não é para salvar nada”, respondeu Flatulento, girando o dedo. “Antes eu não sabia de nada, agora sei. Se voltasse, me prepararia muito melhor, não sofreria o que já sofri. Além disso, um bom dia vivido já vale, não é?”
“Vocês estão indo longe demais, divagando”, interrompeu Esqueleto. “Podem sonhar à vontade quando forem dormir, mas agora já estão fugindo do tema. Como dizem na Terra da Porcelana, é um sonho de arroz amarelo. Melhor pensarmos em como garantir o pão de cada dia!”
“Olhe só, falta de imaginação”, retrucou Flatulento com um revirar de olhos e apontando a coxa de frango. “Você não ouviu o chefe me elogiando? Sem mim, em cinco minutos vocês não descobririam nada de especial, não é, chefe?” perguntou a Leão, sorrindo.
“De fato, conhecemos muito pouco sobre o baú”, concordou Leão, acenando para Flatulento e se voltando para Esqueleto. “Pelo menos já sabemos de uma coisa: o baú pode reconstruir cenas do passado. Quando tivermos um caso difícil de resolver, podemos usar essa função e tudo se esclarece”, disse, erguendo o copo para Esqueleto e sorrindo. Esqueleto, lisonjeado, brindou com Leão, sentindo-se radiante por dentro.
“O tempo é muito curto, realmente difícil acertar o momento exato”, Teresa voltou ao assunto. “Determinar que um acontecimento se deu numa janela de poucos minutos é mesmo complicado.”
“Com a energia que tenho agora”, fez pouco caso Esqueleto, abrindo as mãos, “basta que me deem mais eletricidade para encher totalmente o dispositivo do baú e esse problema estará resolvido.”
“Se carregarmos completamente o sistema, quanto tempo o baú aguentaria?”, perguntou Helio, segurando um pepino e gesticulando ao redor.
“Ah, cinco horas, talvez”, respondeu Esqueleto, calculando de olhos fechados. “No mínimo cinco horas, serve?”, perguntou a Teresa, que acenou afirmativamente.
“Tudo isso é teoria”, arrotou Flatulento, limpando a boca e as mãos engorduradas, semicerrando os olhos para Esqueleto. “Cada uso leva meio ano para recarregar, e a nossa energia do dia a dia fica comprometida. Só de pensar nisso me dá calafrios! Melhor tentarmos limitar o intervalo para cinco minutos, pode ser?”
“Sem depender das pessoas, só do baú, cálculo aproximado do tempo, cronometração precisa?”, Esqueleto franziu a testa, refletindo.
“É isso?”, Flatulento, sem entender direito, chutou. “Quero dizer, a gente define um intervalo amplo, tipo de três a quatro horas, duas a três horas, e deixa o baú restringir para cinco minutos. Pronto, tudo resolvido!”, sugeriu, deixando correr a imaginação. “Se desse para restringir a um minuto, já poderíamos usar cinco vezes!”
“Você gosta mesmo de sonhar acordado”, o Chefe riu para Flatulento. “Por que não pede para o baú criar pernas e sair resolvendo os casos para você, enquanto você só pega os méritos?”
“Ei, respeite!”, fingiu-se zangado Flatulento, apontando para Esqueleto. “Você, tem um jeito, não tem?”
“Carregar completamente é o mais seguro”, respondeu Esqueleto, que até pensou em estudar melhor o dispositivo, pois havia funções que ainda não compreendia, e, com o raciocínio do grupo, talvez conseguissem restringir para cinco minutos. Mas, vendo todos o encarando, sentiu a pressão aumentar como uma bola de neve rolando montanha abaixo, multiplicando-se em instantes. Piscaram os olhos e, em vez de arriscar, preferiu sugerir a solução mais garantida: “Assim, mesmo que não definamos o minuto exato, só o intervalo, ao menos não erramos totalmente ao reviver a cena.”
“Que resposta genial!”, zombou Flatulento, batendo palmas e rindo. “Fiquei até sem palavras.”
“Não se preocupe com a energia, vou resolver isso”, disse Leão, acenando para Flatulento e voltando-se para Esqueleto. “A energia que temos agora é insuficiente; até eu encontrar uma solução, todos mantenham segredo. Além disso”, Leão fez um gesto com as mãos, simulando o baú, “pesquise mais sobre o baú. A descoberta do Jaime foi uma boa dica, com certeza há mais segredos que desconhecemos.”