Cento e Cinco, o Caçador de Vingança (Parte Um)
— A bala ainda está na cabeça da vítima — disse o delegado, observando Teresa erguer o crânio do morto e arqueando as sobrancelhas. — Não temos um legista profissional, por isso não mexemos.
— Foi a decisão certa, amadores não devem mexer em provas — Teresa abaixou a cabeça do cadáver e apontou para a mesa de aço inoxidável para autópsia próxima. Pediu ao administrador que ajudasse a transportar o corpo, acenando para o delegado. — Na verdade, mexer sem profissional só comprometeria as provas. Vocês têm as ferramentas, certo? Vamos precisar de uma serra elétrica.
— Temos, temos o kit completo. Aqui é a delegacia, tem de tudo — respondeu o delegado, ao ouvir “serra elétrica” logo lembrou das cenas terríveis de “Jogos Mortais” e sentiu um calafrio, cobrindo a boca com a mão, abriu espaço para o administrador e para Hel ajudarem a colocar o corpo na mesa. — Só não temos legista. O anterior foi mordido e morto por um zumbi revoltado.
— É por isso que temos tão poucos médicos — refletiu o “Esqueleto”, imaginando a grande autópsia que estava por vir. Sentiu uma náusea no estômago e pressentiu algo. Apontou para fora da sala e disse a Lei Yan: — Ai, aqui está muito frio, sou magro e fraco, não vou aguentar. Vou esperar lá fora, avisem quando terminarem, por favor. Não deixem escapar nada. — Sem esperar resposta, saiu apressado da sala do necrotério.
— Vou sair para dar uma olhada naquele garoto — disse Hel, ajudando o administrador a colocar o corpo na mesa. De repente percebeu algo, fez um sorriso forçado e apontou o polegar para a porta, falando com Lei Yan e Teresa: — Ele está fraco, não pode ficar morrendo na porta, virando zumbi sem a gente perceber e depois nos atacar. Preciso ficar de olho. — E saiu correndo da sala do necrotério como se fosse perseguido por um fantasma.
— Esses dois estão estranhos hoje — Teresa pegou o macacão branco entregue pelo administrador, vestiu-se enquanto curiosa perguntou a Lei Yan: — Até o “Galo Caipira” entrou aqui no necrotério, o que está acontecendo?
— Quem sabe? Talvez estejam estranhando o lugar novo — Lei Yan respondeu, concentrado no caso, sem pensar muito, olhando para a porta.
— Onde estão as ferramentas? — perguntou o administrador, trazendo da sala ao lado uma caixa de ferramentas para legista.
— Coloque na mesa de aço, na frente da maca — Teresa passou os botões do macacão, dando uma volta ao redor do corpo para fazer uma primeira inspeção, procurando por outras lesões não detectadas.
— Já vão tirar a bala? — o chefe da tribo entendeu e se arrependeu de não ter dado um jeito de sair antes. Ficou ao lado, um pouco desconfortável, e perguntou a Teresa:
— Isso mesmo. Não há outras lesões. A ferida fatal é essa única — Teresa parou junto à cabeça do cadáver, examinando o ferimento e olhando para o chefe, disse: — Não foi um tiro pós-morte, nem tiros simultâneos. Cada vítima levou um disparo.
Ela olhou para o chefe e para Lei Yan e continuou:
— Agora vamos abrir os crânios dos três mortos.
— Bzzz, bzzz... — o chefe da tribo estremeceu só de ouvir que teriam que fazer três autópsias, fechou os olhos e murmurou um feitiço qualquer, depois abriu os olhos e caminhou para fora, explicando a Lei Yan e Teresa:
— Na nossa tribo, só o grande xamã pode fazer autópsias. E nem os membros da tribo podem assistir. Isso seria uma profanação aos espíritos. Melhor eu sair logo daqui, espero que os espíritos não fiquem zangados. — E saiu disparado da sala do necrotério como se tivesse um demônio atrás.
— Os deuses deles parecem realmente assustadores — Teresa sorriu para o delegado e comentou a Lei Yan.
— O poder do totem da tribo é forte mesmo — respondeu o delegado, percebendo que não podia ficar ali mais tempo. Apontou para a saída, caminhando na direção da porta, falou para Lei Yan e Teresa:
— Vocês ainda não beberam nada? Deve estar com sede. Ai, que cabeça a minha, só pensando no caso, já até falei de refrigerante e nem percebi.
Ele saiu, mas logo apareceu com a cabeça na porta do necrotério:
— Já vou buscar para vocês. Está muito quente mesmo, hehe! — E desapareceu.
— A tomada fica debaixo da mesa — falou o administrador, tirando as ferramentas da caixa e colocando-as onde Teresa indicou. Vendo que seu superior havia sumido, ele sorriu forçadamente, com medo de passar mal e não conseguir comer nos próximos dias. Apontou para a tomada e disse:
— Vocês vão usar a serra elétrica, é só plugar. Eu vou buscar o refrigerante para o delegado.
Quando estava falando, bateu a cabeça na porta, não teve tempo de se queixar, abriu a porta e saiu escorregando feito uma enguia.
— Que gente estranha, tá quente, mas que calor é esse! — Teresa reclamou, olhando para Lei Yan. — Então, vamos começar?
— Tá bom, vamos começar — Lei Yan respondeu, mas logo percebeu algo estranho e apontou para o próprio nariz, nervoso:
— Espere, você disse “nós”?
— Claro que sim, quem mais? — Teresa olhou para a sala vazia do necrotério e depois para Lei Yan. — Eu preciso de um ajudante, pelo menos um. Você não quer me deixar sozinha para abrir três crânios, quer?
— Eu não sou profissional — Lei Yan só agora sentiu medo, mas já era tarde. Inventou uma desculpa qualquer e forçou um sorriso.
— Não tem problema, não precisa ser muito profissional. Só para ajudar com pequenas tarefas e força — Teresa torceu o nariz. — Eu faço os passos mais importantes.
— Vou ver se tem alguém mais adequado — disse Lei Yan, vendo a cara surpresa de Teresa, foi até a porta para buscar reforços. Abriu a porta e não havia ninguém, como se tivessem desaparecido. Claro que ele não viu, pois todos estavam escondidos nas sombras, rindo silenciosamente.
— E aí, está com medo? — Teresa fingiu estar brava, colocou as mãos na cintura e inclinou a cabeça, interrogando Lei Yan.
— Medo de quê? Hehe, você sabe quantos zumbis eu já matei — Lei Yan forçou um sorriso e apontou para o cadáver na maca, falando bobagem. — Isso aqui é fichinha, nem conta!
— Então se apressa, ainda tem muito o que fazer! — Teresa fez um bico, revirou os olhos, apoiou a mão no corpo morto e fez charme para Lei Yan.
Teresa era linda e fofa quando fazia charme, mas ali no necrotério, com o cadáver entre eles e aquele cheiro estranho, ela parecia uma aparição fantasmagórica, quase fazendo Lei Yan perder o equilíbrio.
— O problema é que não tenho roupa nem luvas — Lei Yan segurou a maca, enxugou o suor da testa e, sem achar uma desculpa convincente, falou sem jeito para Teresa: — Quando usar a serra elétrica, vai fazer “bzzz”..., como um martelo perfurador. Vai espirrar sangue, cérebro, pedaços de osso para todo lado.
Olhou para suas roupas e completou:
— Vou ficar todo sujo, cabeça, rosto, corpo. E depois, como vou continuar investigando, né?