Setenta e seis, Médico fora da lei (Parte Um)
Depois de um intenso esforço, todos estavam satisfeitos; até mesmo o “Espírito Flatulento”, que parecia um faminto reencarnado, havia comido até se fartar. A sensação era de que as cores do mundo tinham se tornado mais vivas e translúcidas.
A massa já havia crescido o bastante. Leiyan, após um breve descanso, lutava contra o sono; apressou-se a levantar-se do chão, pensando que não podia dormir, pois era preciso preparar o pão para a longa jornada. Chegou a pensar em acordar W, que dormia abraçada à filha, para que o ajudasse a amassar a massa, mas mudou de ideia e recolheu a mão. Assim, foi até a bancada improvisada e começou a trabalhar sozinho.
— Posso ajudar em algo? — Davi aproximou-se e perguntou a Leiyan.
— Você sabe fazer pão na chapa? — Leiyan dividiu o grande pedaço de massa em duas partes e perguntou, colocando metade de lado e abrindo a outra metade com um bastão.
— Não me subestime, sou um verdadeiro mestre nisso — Davi respondeu, colocando a frigideira sobre o fogareiro, acendendo-o, e despejando um pouco de azeite de oliva na panela. Sorriu para Leiyan enquanto falava.
— Perfeito — disse Leiyan, espalhando azeite sobre a massa, polvilhando um pouco de sal, temperos e uma pitada de molho de pimenta, e então espalhou tudo com a mão. Depois, enrolou a massa de baixo para cima, segurou as duas pontas e esticou um pouco. Usando uma faca suíça, cortou a longa tira em doze pedaços, pegou o primeiro pedaço, torceu levemente, colocou na bancada e abriu em formato de disco com o bastão. Davi, então, pegou o disco e transferiu cuidadosamente para a frigideira, onde começou a assá-lo. Trabalhando juntos dessa maneira, levaram quase uma hora para preparar vinte e cinco pães fofos e aromáticos.
O cheiro dos pães quentes logo atraiu o “Espírito Flatulento” novamente, que, sem pensar em dormir, pegou um pão e começou a devorá-lo, mostrando o polegar para Leiyan após duas mordidas.
— Ainda não está satisfeito? — Leiyan perguntou, sorrindo diante do apetite voraz do “Espírito Flatulento”.
— Já digeri quase tudo o que comi antes — respondeu o “Espírito Flatulento”, engolindo um pedaço enorme de pão à força e batendo no peito. — Passei mais tempo com fome do que vocês, é natural que esteja mais faminto, isso vocês não podem entender — disse, apressando-se a tomar um gole d’água e soltando um suspiro de alívio. — Agora sim, que satisfação!
— Precisamos de algumas mochilas para embalar os pães — Leiyan apontou para alguns sacos de farinha ainda não utilizados e falou ao “Espírito Flatulento” —, teremos que fazer mais; a farinha vai render setenta ou oitenta pães, o suficiente para durar bastante, e eles não estragam facilmente.
— Aqui dentro não tem — respondeu o “Espírito Flatulento”, pensando um pouco e assentindo para Leiyan. — Mas lá fora, encontrar umas vinte ou trinta não é problema algum — disse, mastigando o pão. — Deixe isso comigo, sei exatamente onde procurar. Façam o máximo de pães que puderem.
— Também precisamos de cantis, cantis de marcha — disse Leiyan, vendo que W despertava e se aproximava para ajudar. Ele apontou para a farinha, pedindo que ela preparasse mais massa, enquanto ele mesmo ficou de lado falando ao “Espírito Flatulento”.
— Pode deixar, isso também é comigo — respondeu o “Espírito Flatulento”, batendo no peito com confiança.
— Você conhece bem este lugar, há algum carro nas proximidades que possamos utilizar? — Leiyan perguntou, pegando fermento em pó de uma caixa e entregando a W, enquanto se dirigia ao “Espírito Flatulento”.
— Tem sim, atrás do prédio há vários — o “Espírito Flatulento” respondeu, abrindo passagem para Davi e explicando a Leiyan. — Só não sei se funcionam ou se ainda têm gasolina. Não sei se funciona colocar azeite de oliva no tanque, hahaha — brincou enquanto mastigava mais um pedaço de pão.
— Se não houver gasolina, talvez tenhamos mesmo que tentar — Leiyan riu, apontando para Erik e falando ao “Espírito Flatulento”. — Erik sabe dar um jeito em carros, pode ficar tranquilo. Ei, o que é isso? — Leiyan viu o “Espírito Flatulento” chutando um livro grosso e, curioso com algumas palavras na capa, apressou-se a pegá-lo, perguntando enquanto folheava.
— Sei lá, estava junto com as caixas que peguei debaixo da cama — respondeu o “Espírito Flatulento”, colocando na boca o último pedaço de pão. — Hoje em dia, livro não vale nada, não é nem um quarto de pão.
— Ah, esse é um ótimo livro — Leiyan olhou para o título: “Psicologia Criminal”. Seus olhos brilharam, e, enquanto folheava, disse ao “Espírito Flatulento”: — Eu já li um pouco… não, já li inteiro! — Talvez por saudade dos dias normais de estudo, Leiyan tratava o livro como um tesouro, quase como se fosse uma amante. — Quero relê-lo várias vezes.
— Por mim, tudo bem — respondeu o “Espírito Flatulento”, sem qualquer interesse por leitura, de olho nos pães recém-assados. — Desde que haja comida, pode ler quantas vezes quiser. Mas, fora passar o tempo, qual o sentido de ler “Psicologia Criminal” agora?
— A massa ainda precisa descansar, não é? — Leiyan, já envolvido pelo livro, perguntou a Davi e W, sem conseguir se desgrudar das páginas. — Vou aproveitar para ler um pouco.
— Pode ler, a massa ainda tem que crescer bastante — respondeu W.
— Nós dois damos conta, pode ficar lendo — disse o velho Davi, sorrindo para Leiyan. — Você já trabalhou demais hoje, descanse um pouco.
Sem desviar os olhos das páginas, Leiyan assentiu para os dois.
Por algum motivo, apesar do cansaço extremo, bastou começar a ler para que o sono desaparecesse; era como se o livro realmente lhe desse energia. Leu até meia-noite, só então obrigando-se a dormir.
No dia seguinte, tudo correu muito bem.
O “Espírito Flatulento” acordou cedo e, antes mesmo de Leiyan e os outros despertarem, resolveu o problema das mochilas e dos cantis com sobra: garantiu uma mochila para cada um e dois cantis para cada também.
Depois do café da manhã, o “Espírito Flatulento” levou Leiyan e Erik até os fundos do prédio para ver os carros. Para surpresa de todos, vários funcionavam e os tanques estavam cheios. Após breve conversa, decidiram usar uma caminhonete e transferir toda a gasolina dos outros veículos para ela.
Encontraram alguns galões plásticos na garagem próxima e, com facilidade, retiraram o combustível dos carros excedentes, armazenando tudo na caçamba da caminhonete.
O “Espírito Flatulento” guiou W e os outros três com segurança para fora do prédio, juntando-se a Leiyan e Erik. Depois de uma busca rápida nas redondezas, reuniram roupas e bagagens extra e, por fim, embarcaram na caminhonete, deixando o orfanato para trás. Seguiram por uma estrada de terra até a rodovia; Leiyan pegou o mapa mencionado anteriormente no tanque de guerra, subiu na caminhonete e partiram juntos.
O progresso foi misto: em apenas dois dias, seguindo as dicas do “Espírito Flatulento”, encontraram outros sobreviventes, mas, para azar, a pequena W ficou doente.
— Não se preocupem — disse um dos sobreviventes, chamado Caminhante Um, que lhes indicou o caminho. — Chegou um médico novo por aqui, ele pode curar qualquer coisa, já salvou a vida de todo mundo — explicou, apontando a direção onde estava o médico.
— Ótimo, era para lá mesmo que íamos — disse o “Espírito Flatulento” a Leiyan. — Não sabia que havia médico por lá, já estive naquele lugar. — Enquanto caminhava, indicava no mapa na mão de Leiyan. — Lá mora um fazendeiro de barba branca, com duas filhas, uma esposa, acho que o irmão dele também mora lá com a família, além de um monte de trabalhadores. — O “Espírito Flatulento” parecia intrigado — Nunca ouvi falar de médico por lá… — Ao perceber a ansiedade no rosto de W, apressou-se: — Mas isso é ótimo! Tudo está melhorando, precisamos mesmo de um médico, e ele surgiu justamente no nosso destino. Que sorte a nossa!
— Essa fazenda parece grande — comentou Davi, cansado após atravessar o bosque, enxugando o suor da testa. — Mas isso é bom, quanto mais difícil for para nós, mais difícil será para os mortos-vivos chegarem até lá.
— Exatamente, é por isso que, depois de pensar muito, decidi vir para cá — disse o “Espírito Flatulento” a Davi, abrindo as mãos. — Existem muitos lugares bons, mas são fáceis demais de encontrar; aqui, com esse bosque como barreira natural, aposto que a situação é ótima.
— Mas por que o homem que nos indicou o caminho saiu armado? — Leiyan perguntou, caminhando ao lado do grupo. — Por que ele não ficou? Não sabe que lá fora é perigoso?
— Acho que ele foi buscar algo, parecia determinado — respondeu Erik, voltando-se para Leiyan. — Estava por último e perguntei, ele disse que voltaria para nos trazer o que encontrasse.
— Olhem, chegamos! — exclamou o “Espírito Flatulento”, correndo alguns passos à frente e apontando com entusiasmo.
Diante deles, uma vasta campina com um lago se estendia. A menos de quinhentos metros adiante, havia uma casa de madeira branca, de estilo antigo…