Cento e Um, Força Aérea Um (II)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2573 palavras 2026-02-09 14:02:58

No "Air Force One", além de Lei Yan e "Caveira", havia ainda o Dr. Lis, que adormeceu assim que embarcou. Os demais beberam bastante, e a razão era simples: o vinho era doce, a carne suculenta, e, ao relaxarem, não conseguiam se conter, tornando impossível parar. Lei Yan e "Caveira" também queriam beber, mas "Caveira" precisava vigiar o baú do tesouro; seu jeito metódico não lhe permitia ceder aos desejos. Já Lei Yan abstinha-se porque era o responsável pela equipe; além disso, estavam em pleno voo, sem os pés no chão, o que lhe conferia uma sensação de insegurança. Por fim, tinha de lidar com figuras importantes: um deslize embriagado poderia ofender alguém poderoso e tornar seus dias difíceis. Portanto, abrir mão de um pouco de prazer era uma questão de autocontrole.

Já era tarde, e todos dormiam profundamente, embriagados. Apenas Lei Yan e "Caveira" não descansavam de fato; no máximo, mantinham-se em meditação silenciosa. Assim, quando alguém entrou na primeira classe e se sentou à entrada, balançando um copo de gelo, Lei Yan e "Caveira" abriram os olhos quase ao mesmo tempo, fitando o visitante.

As luzes principais da primeira classe estavam apagadas; a luz do corredor iluminava o rosto de perfil do recém-chegado, tornando-o facilmente identificável. Não era outro senão Carlos, o rei do Reino de Yan, que também os observava.

Se fosse outra pessoa, Lei Yan e "Caveira" provavelmente teriam fechado os olhos novamente. Mas, diante do rei, e sendo observados por ele, só lhes restou levantar-se para cumprimentá-lo.

— Ah, desculpem-me por interromper o descanso de vocês — disse o rei, sorrindo com naturalidade e erguendo o copo para os dois.

— Não foi incômodo algum — respondeu Lei Yan, lançando um olhar para "Caveira", que franzia a testa, passando a mão pelos cabelos antes de sorrir para o rei. — Também não conseguíamos dormir. Há algo em que Vossa Majestade gostaria de nos instruir?

— Não se trata de instrução. Ultimamente, também tenho sofrido de insônia — disse Carlos, fazendo um gesto generoso para que se aproximassem. — Venham, tomem um drinque comigo. Vamos conversar um pouco.

Sem motivo para recusar, Lei Yan e "Caveira" sorriram e sentaram-se à frente do rei. O comissário logo trouxe dois copos de uísque e os serviu.

— Traga a garrafa e pode se retirar — ordenou Carlos ao comissário, que depositou a garrafa sobre a mesinha diante do rei. — Qualquer coisa, chamo você — completou o monarca, e o funcionário, inclinando-se levemente, retirou-se para a cabine posterior.

— Não vou me alongar em agradecimentos. Imagino que já saibam por que não consigo dormir — disse Carlos, balançando o copo, cujos cubos de gelo tilintavam agradavelmente. O rei parecia apreciar aquele som.

— Se não me engano, Vossa Majestade está preocupado com sua dama de estimação, não? — respondeu Lei Yan, imitando o gesto do rei e sorrindo.

— Exatamente — confirmou Carlos, brindando com Lei Yan e "Caveira", bebendo um gole e assentindo levemente.

— Vossa Majestade é realmente um homem de sentimentos profundos — disse Lei Yan, umedecendo os lábios na bebida e sorrindo para Carlos. — Pelo que sei, os reis de todas as nações possuem haréns repletos de beldades. Ainda assim, Vossa Majestade se dedica tanto a uma só pessoa. É admirável e comovente.

— Sei o que pensam — respondeu Carlos, esboçando um sorriso enigmático, tão sutil quanto o da Monalisa. — Afinal, já fui um homem comum e também invejei, em segredo, a vida de reis e generais, achando que quanto mais se possui, melhor, inclusive no que diz respeito a mulheres — disse, erguendo o copo. — Mas, na verdade, tudo o que imaginamos vem de filmes, novelas, romances, poesia e teatro — continuou, abrindo um sorriso. — Esses grandes personagens parecem só se preocupar com amores e, entre uma paixão e outra, resolvem facilmente grandes questões. Pensando nisso, ainda me sinto tentado por essa fantasia.

— Mas a realidade não é assim, não é? — perguntou "Caveira" ao lado.

— Não mesmo. Mulheres não faltam, mas confidentes, poucos — suspirou Carlos. — Administrar os assuntos internos já é difícil. Entre países, então, há uma infinidade de questões políticas e militares, que consomem energia e mente. — Olhou para "Caveira" e apontou para Lei Yan. — É preciso empenhar-se ao máximo para manter o controle. Depois disso, que tempo resta para se comunicar com todas as mulheres? Não vou me aprofundar mais.

— Já foi profundo o bastante — disse Lei Yan, brindando com o rei. — Compreendo plenamente o sentimento de Vossa Majestade por sua confidente. Encontrar alguém assim é raro. Podemos então falar sobre o caso?

— Relações entre países são diferentes — esclareceu Carlos, bebendo um gole e explicando a Lei Yan e "Caveira". — Cada um tem suas características e pontos fortes. Vocês perceberão isso ao viajarem mais. — Vendo Lei Yan assentir, prosseguiu: — Cada nação possui produtos distintos, resultando em muitos negócios internacionais. O Reino de Yan, por exemplo, tem como pilar a indústria do entretenimento audiovisual.

— Ora, é entretenimento “Honiho Live”? — exclamou “Caveira”, surpreso.

— Exatamente, a maioria dos profissionais vem do “Honiho Live” — confirmou Carlos, acenando para "Caveira".

— Mas “Honiho Live” deveria estar nas montanhas Binihu, na região de Lushanji — disse “Caveira”, intrigado. — Como foi parar em Huashengdou? É como atravessar o tempo e o espaço! Difícil de imaginar!

— Num mundo em caos ainda existe “Honiho Live”? — admirou-se Lei Yan. — Isso é surpreendente.

— Mesmo em tempos turbulentos, o entretenimento é necessário. E, por ser raro, é mais valioso — explicou Carlos, sorrindo para Lei Yan e "Caveira". — Por isso investi tanto na área; ela nos trouxe muitas vantagens.

— E, comparada ao setor de entretenimento antes do desastre — perguntou Lei Yan, gesticulando no ar —, há grandes diferenças?

— Não, as regras não mudaram — respondeu Carlos, dando de ombros. — Só diminuíram o número de pessoas e a escala. Não há o que fazer; estamos em tempos de guerra, tudo precisa ser simplificado.

— Entendo, entendo. Depois de ver seu Air Force One — disse Lei Yan, olhando para “Caveira” e sorrindo cautelosamente —, compreendi profundamente o que significa “tudo simplificado”.

— O setor é livre; não imponho muitos controles — disse Carlos, satisfeito, sorrindo para Lei Yan. — Arte precisa de certa liberdade. Se conseguem lucro, fecho os olhos até para filmes de temática antibélica.

— Admiro Vossa Majestade, é realmente sábio — disse Lei Yan, brindando respeitosamente com Carlos. — Sabe bem o quanto a vida sem cinema é monótona e insuportável.

— Pena que “Peijin” está dormindo — brincou “Caveira”. — Se soubesse que “Honiho Live” ainda existe e que há muitos filmes e séries para assistir, certamente pularia do avião de felicidade.

— No fundo, todos somos artistas — disse Carlos, de repente com olhar profundo para Lei Yan. — Desejamos a arte e não conseguimos resistir a ela, mesmo quando é comercial.

— Penso que só existe arte comercial; arte pura é uma ilusão — disse Lei Yan, virando-se para “Caveira”. — E você?

— Concordo. Se não dá dinheiro, não põe comida na mesa, toda arte morre — assentiu “Caveira”.

— Por isso Vossa Majestade é o maior dos artistas — disse Lei Yan, apontando para Carlos, com convicção.

— Hahaha, exagero seu — respondeu Carlos, claramente satisfeito com o elogio certeiro.

— Veja só que mãos longas tem Vossa Majestade — continuou “Caveira”, bajulando enquanto observava os dez dedos do rei, bem cuidados, longos e firmes. — Por acaso tocava piano antes?