Noventa e dois, Médico Foragido (nove)
Do lado de fora da casa de madeira, uma massa escura de mortos-vivos se aglomerava, pressionando de todos os lados contra a construção. As portas e janelas, já danificadas, estavam bloqueadas por móveis e por criminosos que lutavam para mantê-las fechadas, mas a força dos zumbis era tão avassaladora que parecia inútil resistir.
Nesse momento, alguns dos criminosos que haviam entrado antes para explorar, e que haviam sido mortos por uma rajada de tiros, abriram os olhos subitamente e se levantaram, atacando seus antigos companheiros por trás, como se fosse uma justa retribuição. Aqueles que tentavam bloquear a entrada dos zumbis, concentrados na tarefa, foram pegos desprevenidos; vários foram mordidos no pescoço ou em outras partes do corpo. Gritando de dor, soltaram os móveis e começaram a lutar com os mortos-vivos que os haviam agarrado.
A força que impedia a invasão dos zumbis era já frágil. Assim que os defensores cederam, a horda entrou pelas portas e janelas. Os criminosos tentaram disparar suas armas, mas as munições estavam quase esgotadas. O restante se desenrolaria em menos de um minuto...
Enquanto isso, Rayane, Teresa e os outros estavam ao redor do fogão de carvão, rindo e comendo pão assado, quando ouviram um tiro vindo da floresta. O riso cessou de imediato e todos ficaram tensos.
— David, apague o fogo — Rayane ordenou ao velho David, indo com os outros até a janela para observar.
— Todos os nossos homens foram enviados para lá, não sei o que aconteceu, vou apoiar — Barraca puxou o ferrolho da arma e se preparou para sair, mas Teresa o segurou rapidamente.
— Por que apenas um tiro para cinco pessoas? — Hélio questionou. — Meus companheiros não são tão incompetentes assim.
— Os zumbis não são tão perigosos assim — Elizabeth disse ao olhar pela janela.
— A menos que não sejam zumbis — Rayane comentou, encarando o exterior.
— Claro que não são zumbis! Tem muita gente matando zumbis na floresta, vocês não viram? — Pimpolho, com olhos aguçados, impacientou-se ao ver que todos ainda especulavam sobre algo óbvio. — Não sei por quê, mas certamente vieram atrás de nós. Os cinco soldados foram mortos por eles.
— Quantos são? — Hélio perguntou a Pimpolho, olhando fixamente pela janela.
— Como assim, vocês não conseguem ver tanta gente? — Pimpolho, incrédulo, apontou para fora.
— Está muito escuro, vemos apenas movimentos, mas não dá para distinguir quem é — Ana respondeu, semicerrando os olhos.
— Você nem conta, — Pimpolho fez uma careta, poupando o comentário de que a idade de Ana já lhe trazia visão turva.
— Fale logo, quantos são e o que estão fazendo? — Teresa, ansiosa, apressou Pimpolho.
— Deixe-me ver... pelo jeito que se movem, não são zumbis. — Pimpolho observou atentamente, contando por alto, e informou: — Devem ser mais de trinta. Os zumbis estão quase todos mortos. E agora, o que fazemos? — Olhou para Rayane, esperando uma decisão.
— É uma emboscada. Mataram cinco dos nossos, não vieram brincar, vieram para nos eliminar — Rayane suspirou, pegando a pistola e analisando. — Por que só um tiro? Porque os outros não tiveram tempo de atirar, foram mortos rapidamente. O tiro foi um erro, não esperado por eles. Queriam nos cercar em silêncio, e não vão deixar sobreviventes. Nossa única chance é fugir rápido.
— Mas não podemos deixar os idosos para trás — Teresa protestou.
— Se levarmos os idosos, não conseguiremos escapar — Erick apontou o problema. — Seremos alcançados pelos criminosos e todos morreremos. Não se esqueça: são mais de trinta!
— De qualquer forma, não concordo em abandonar os idosos para morrer — Teresa cruzou os braços, virando o rosto.
— Nem eu. Nunca deixarei minha avó para trás — Hélio firmou as mãos na arma, olhando para Rayane. — Além disso, não será fácil me matar. Eles terão que pagar caro! — Elizabeth e Barraca concordaram com um aceno.
— Pensem rápido! Os zumbis estão quase todos mortos por eles — Pimpolho, olhando pela janela, alertou com urgência.
— Claro que não vamos deixar os idosos — Rayane garantiu a Teresa e aos outros. — Mas acabamos de chegar, não conhecemos o terreno. A fazenda é rodeada por florestas. Alguém sabe qual direção é mais difícil para os zumbis atravessarem? Ou se atrás de alguma floresta há penhascos, rios, algo assim?
— Sim, atrás da casa — Hélio apontou. — Não é longe, há uma colina coberta de árvores, por isso não dá para ver. Não há zumbis lá. Para chegarem, precisam contornar a colina pelo bosque.
— O perigo são os criminosos, não os zumbis — Erick corrigiu Hélio. — Você acha que eles vão nos deixar em paz por subirmos a colina? Ingenuidade!
— Não discutam. Tenho um plano — Rayane afirmou. — Arriscado, mas há esperança de sobrevivência.
— Estão vindo nos matar — Pimpolho, sem olhar mais para fora, sacou a pistola e falou a Rayane. — Não há tempo para debates. Seguimos o plano. Quem não concorda, fica e morre!
Teresa e os outros, vendo o perigo iminente, assentiram, prontos para seguir as ordens de Rayane.
— Hélio guia o caminho. Soldados, cada um leve dois idosos, ajudem-nos a fugir rapidamente pela floresta atrás da colina — Rayane, com a pistola em punho, monitorava a janela. — Eu fico, vocês só corram. Quando terminar aqui, vou encontrá-los na colina. Vamos!
Todos imediatamente pegaram seus pertences e começaram a agir.
— Levem o máximo de pessoas possível — Teresa alertou Hélio e os outros soldados, que assentiram e correram para o quarto dos idosos. Teresa, ao lado de Rayane, perguntou: — Eu fico e te ajudo. O que faço?
Rayane queria dizer que não precisava, mas vendo os criminosos já próximos, não havia tempo para convencê-la a sair. Ordenou:
— Apague todas as luzes da casa!
— Entendido — Teresa, conhecendo bem a casa, agiu rápido. As poucas velas acesas foram apagadas antes mesmo do chefe dos criminosos começar a negociar a rendição. A casa ficou completamente escura, não se via um palmo à frente.
— O que fazemos agora? — Teresa, ouvindo a voz do chefe dos criminosos do lado de fora, perguntou baixinho a Rayane.
— Tem geladeira aqui? — Rayane sussurrou.
— Tem, mas não funciona há muito. Não há energia. Por quê? — Teresa estranhou.
— Onde está? — Rayane sorriu.
— Ao lado do salão, antigo local da cozinha — Teresa olhou pela janela e respondeu no escuro.
— Ótimo. Vá se esconder atrás da geladeira — Rayane instruiu. — Eu logo vou atrás. Apenas se esconda.
Teresa não sabia qual era o plano de Rayane, mas entendeu que não era momento para perguntas. Saiu do salão e, silenciosamente, foi até a cozinha, escondendo-se atrás da geladeira. Pouco depois, ouviu o barulho das portas sendo arrombadas pelos criminosos, e seu coração disparou...