Sessenta e três, a entrada

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2708 palavras 2026-02-09 14:02:28

“Em teoria, seria possível subir por cima,” disse Raul, franzindo a testa enquanto analisava o telhado. “Jorge quer nos exibir suas glórias do passado, por que nos mataria?” Ele voltou o olhar para as janelas lacradas, continuando sua análise. “Mas aquele rapaz me fez repensar minha confiança nas deduções lógicas depois do que fez no cadafalso... Ah,” Raul balançou a cabeça e suspirou. “Muita gente age fora dos padrões.” Olhando para todos, concluiu: “Vamos entrar por baixo mesmo. Não vou arriscar a vida de vocês.” Sorriu para Teresa: “Sua opinião foi realmente profissional, mas este caso já terminou. Até o corpo do criminoso foi devorado pelos cães; não restou prova ou cena a ser preservada.” Ao ver que Teresa compreendeu e assentiu, continuou: “Vamos procurar uma porta ou janela mais fácil de abrir, com o máximo de cuidado e silêncio possível, para não atrair zumbis.” Sacou a faca e sorriu para os demais. “Mas, se ainda assim acabarmos atraindo alguns, não será problema, pois somos veteranos de batalha. Como diz o ditado: ‘É mais fácil evitar uma flecha à vista do que uma oculta’. Zumbis não me preocupam tanto quanto possíveis armadilhas na casa. Não é impossível que as haja.”

Diante dessas palavras, todos concordaram, e o grupo se dividiu para procurar uma entrada conveniente. Depois de algum tempo comparando opções, decidiram que uma janela nos fundos da casa seria a melhor escolha. Raul e os outros pegaram duas pás militares e algumas ferramentas simples no carro, começando a desmontar cuidadosamente as barreiras da janela escolhida.

O trabalho foi árduo e demorou, desmontando uma a uma as tábuas até, por fim, abrirem a janela. Olharam ao redor e, para alívio geral, nenhum zumbi foi atraído.

“Caramba, demorou mais de meia hora,” disse Caixote, conferindo o relógio e enxugando o suor da testa, radiante. “No fim, valeu a pena, nem um zumbi apareceu.”

“Então, vamos entrar?” Raul sugeriu. “Eu vou primeiro.”

“Deixe comigo, tenho mais experiência nisso,” respondeu Henry, sorrindo para Raul enquanto se aproximava da janela. Raul sabia que ele não estava se gabando e recuou um pouco.

Henry olhou para dentro com a arma em punho, apoiou uma das mãos no batente e saltou para o interior. Raul pediu que Caveira e Teresa ficassem de vigia do lado de fora, depois entrou logo atrás de Henry, seguido pelo Chefe e Caixote.

O interior da casa era abafado e tinha um leve cheiro de cadáver. Todos apertaram firmemente suas armas.

“O cheiro vem lá de cima,” observou o Chefe, cujo olfato era apurado como o de um cão, avisando Henry à frente.

“Vamos vasculhar o andar de baixo antes de subir,” respondeu Henry.

Eles revistaram todos os cômodos do térreo, e, ao confirmar que estava seguro, subiram as escadas. O ruído dos passos pareceu despertar algo, pois logo ouviram, vindos de cima, grunhidos baixos e intermitentes.

Armas em punho, avançaram cuidadosamente escada acima.

“O cheiro vem do quarto mais ao fundo,” avisou o Chefe a Henry.

No andar de cima, havia quatro portas alinhadas. Seguindo a indicação do Chefe, Henry dirigiu-se à última porta, enquanto os outros três se dividiram para verificar os demais cômodos.

Nada de especial foi encontrado nos outros quartos. Raul, Chefe e Caixote logo se reuniram a Henry diante da porta do fundo, de onde o mau cheiro vazava, agora acompanhado de grunhidos mais nítidos. Henry olhou para os três, indicando que se preparassem para qualquer emergência. Com a mão esquerda, empurrou bruscamente a porta e apontou a arma para o interior, pronto para atirar. Raul e os outros também miraram para dentro.

Lá dentro, realmente havia um zumbi, amarrado a uma cadeira de balanço. Balançava a cabeça de um lado para o outro, mas era inofensivo. Pelo cabelo branco e as roupas, devia ter sido uma idosa antes de morrer; o rosto, agora murcho, mostrava traços de fúria e estupidez.

Zumbis já não impressionavam aquele grupo. Se não chegavam a considerá-los velhos conhecidos, ao menos era como cruzar com um estranho na rua. Relaxaram, baixaram as armas e entraram tranquilos. Raul circulou ao redor do zumbi amarrado, observando-o, enquanto os demais exploravam o quarto.

“Essa aqui era a mãe do Jorge,” disse Caixote, pegando uma moldura sobre a mesa em frente ao zumbi e mostrando a Raul a foto de Jorge com a mãe. “O pequeno Jorge parecia feliz.”

“Fotos assim não revelam muita coisa,” respondeu Raul, examinando se havia ferimentos no cadáver. “Há marcas de estrangulamento no pescoço, mas não dá para afirmar que foi Jorge quem fez isso.”

“Vejam só o que temos aqui,” disse o Chefe, abrindo um pequeno armário repleto de chicotes e correntes. Olhou para Raul e disse a Caixote: “Não me diga que ela usava isso sozinha, hein?”

“Claro que não,” Caixote, sempre teimoso, retrucou: “Vai ver que era para se divertir com algum amante, não necessariamente com o Jorge!”

“Ele nos deixou um bilhete; achei que ia se gabar de alguma coisa,” disse Henry, de mãos vazias, para Raul. “Não pode ser só esse zumbi, seria comum demais.”

“Não é tão comum assim. O chefe já disse: pode ter matado a própria mãe, que crueldade, hein, dá até medo,” comentou Caixote, largando a moldura virada sobre a mesa para que Henry notasse.

“Vamos procurar em outros lugares,” disse Raul, sacando a faca e cravando-a no crânio do zumbi, encerrando seus movimentos.

Deixaram o quarto e vasculharam cada canto do segundo andar, até mesmo o forro, sem encontrar nada. Desceram ao térreo e repetiram a busca minuciosa, mas também nada encontraram.

Desapontado, Caixote sugeriu que fossem embora.

“Ei, vejam isso!” Raul avistou uma carta sobre a mesinha de centro da entrada, endereçada a ele. Caixote e os outros correram para olhar, trocando olhares confusos diante do mistério, sentindo uma atmosfera estranha.

“Tem uma data aqui... Ué, é de ontem!” exclamou Caixote ao notar o dia no envelope. “Abre logo!”

Raul abriu a carta e encontrou um bilhete ilustrado indicando que havia um porão na sala de estar, acompanhado de um mapa detalhando sua localização. Após ler, resmungou e passou a carta para Caixote, indo em direção ao sofá.

“Olha que gentileza, desenharam um mapa para a gente não se perder,” comentou Caixote, sempre falando sem pensar.

“Cala a boca,” murmurou o Chefe, lançando um olhar para Raul.

“Por quê?” Caixote não entendeu.

“É claro que estão zombando da nossa cara,” respondeu Henry, irritado. “Por que não dizer logo onde fica? Pra que mapa? Só pode ser para nos fazer de tolos!”

“Ah, agora entendi as más intenções deles,” disse Caixote, constrangido ao perceber o tom. “Quiseram se fazer de espertos. Chefe, quer levar o envelope pra analisar impressões digitais?” perguntou, segurando a carta delicadamente entre dois dedos.

“Não é preciso. Não tem digitais úteis aí, tenho certeza,” respondeu Raul, enquanto, junto ao Chefe, afastava o sofá e batia no chão abaixo. “Aqui está oco, a entrada deve ser aqui.”

Eles retiraram as tábuas e encontraram, sob elas, uma tampa de ferro quadrada. Henry puxou o trinco embutido e levantou a tampa, revelando uma escada de ferro que descia até um breu desconhecido.

Caixote olhou ao redor, logo avistando uma velha lanterna de gás adaptada. Acendeu o toco de vela dentro dela e entregou ao desbravador Henry.

Dessa vez, Henry não pretendia ir à frente, mas, diante da lanterna nas mãos, não teve escolha e entrou no porão. Raul e o Chefe o seguiram, deixando Caixote de vigia do lado de fora.