Noventa e quatro, Tempestade na Prisão (Parte Um)
Não importa o quanto você esteja triste, as lágrimas sempre se esgotam; enxugue-as, pois todos ainda precisam seguir caminho.
Lei Yan e os demais passaram a noite toda no topo da colina, famintos a ponto de sentirem o estômago colado às costas. As três bolsas de pães que trocaram com Teresa por elixires e abrigo ficaram para trás, pois saíram apressados. Segundo o “Pijim”, tudo ficou para alimentar os mortos-vivos. Os pães que Lei Yan carregava foram trazidos, mas restavam poucos. Ele os contou e, de forma quase cômica, sobravam oito. Olhou para os outros oito companheiros, todos cabisbaixos, apertou o cinto para calar o estômago e distribuiu os pães, ficando sem nenhum. Em seguida, afastou-se para observar a quantidade e o movimento dos mortos-vivos ao redor da montanha.
O “Pijim” e os demais comiam os pães secos acompanhados de água fria, o peso da fome era como uma pedra nos estômagos.
— Aqui, — alguém chamou por Lei Yan enquanto ele observava, faminto. Ao virar-se, viu Teresa lhe oferecendo metade de um pão.
— Coma você, não estou com fome, — respondeu Lei Yan, sorrindo, recusando educadamente.
— Se você não comer, eu também não como, — disse Teresa, virando-se para ir embora.
— Ei, eu como, — apressou-se Lei Yan, aceitando o pedaço e mordendo-o, agradecendo com um sorriso e um aceno de cabeça. O “Pijim”, atento, logo lhe passou o cantil. Lei Yan aceitou, ergueu o recipiente em agradecimento e tomou um gole.
— E agora, o que faremos? — perguntou Teresa, bebendo após Lei Yan.
— Procurar o almoço, — respondeu ele com um sorriso amargo, enquanto mastigava. Notou que havia sujeira no rosto de Teresa, apontou para o próprio rosto, dando a entender que ela estava suja.
— Hum, — ela entendeu, limpou o rosto conforme a dica e, voltando-se para Lei Yan, pediu que continuasse.
— Tenho um mapa, — disse ele, segurando o pão com os dentes e tirando do bolso de trás um mapa recolhido no tanque, entregando a Teresa. Observou-a desdobrar o papel e continuou: — Veja se lembra de algum bom lugar para irmos. Por ora, meu plano é descer deste monte. — Atirou uma pedrinha encosta abaixo e explicou: — O bando de mortos-vivos já se afastou, vi que podemos sair facilmente. Você disse que há muitas coisas boas por perto, certo?
— Sim, mas é difícil encontrar, — respondeu Teresa, com um muxoxo, comendo o último pedaço do pão e batendo as mãos para limpar as migalhas. — Na verdade, há de tudo na cidade, — continuou ela, espreguiçando-se ao lado de Lei Yan. — O problema é que, após tantas buscas, o que restou está bem escondido. Teremos que nos esforçar para achar.
— Não faz mal, união faz a força, — disse Lei Yan, acenando para o grupo. Sacou a adaga do cinto e foi o primeiro a descer a colina.
A situação na cidade estava longe de ser animadora. Muitas casas, mas, embora tenham encontrado dinheiro, moedas de ouro e joias, nada disso matava a fome. Carregar esses bens só aumentava o peso e a fadiga, então, ao encontrar tais objetos, o grupo os admirava por um momento, recordando os tempos melhores, e logo os jogava no lixo.
— Não podemos continuar assim, — reclamou o “Pijim”, jogando um anel de ouro em uma lata de lixo seca após vasculhar a vigésima primeira casa. Sentou-se no chão, cansado, e desabafou com Lei Yan: — Acho que precisamos mudar de estratégia. Se encontrarmos mais desses tesouros, vou acabar comendo de verdade.
— Engolir ouro dizem que mata, — alertou Hale, quebrando um bracelete de jade no chão e rindo.
— Não, não vou engolir ouro de verdade. Eu sou racional demais para isso, não é? — disse o “Pijim”, abrindo os braços e encolhendo os ombros. — Quero dizer, nessa hora eu já teria desmaiado de fome, vendo coisas. Tudo me pareceria comida. Olhando para um anel de ouro, ah! — Fingiu examinar um anel, dizendo: — Eu o veria como um frango assado dourado, crocante e cheiroso... — fechou os olhos e inalou imaginando o aroma, extasiado. — Uma mordida e o suco escorrendo, uma delícia!
— Se mencionar frango assado de novo, eu te mato, — ameaçou Elizabeth, meio brincando, meio séria. Seu estômago roncava só de ouvir o “Pijim”. Atirou um colar de pérolas sobre a mesa ao lado e avisou: — Tudo que vejo agora é frango assado, e você é o que mais se parece com um. Cuidado!
— O quê? Eu pareço um frango assado? — o “Pijim” apontou para o próprio nariz, indignado. — Eu, na verdade, sou um cavalo assado! — disse, empinando o queixo, realmente lembrando um cavalo altivo.
— Tá bom, tá bom, você é um elefante assado, pode ser? — disse Teresa, pegando o colar de pérolas e guardando na mochila, tentando acalmá-lo.
— Assim está melhor, — disse ele, divertido, mas logo segurou o estômago vazio e sorriu amargamente.
— Você me lembrou de um bom lugar, — disse Lei Yan, estalando os dedos ao encarar o “Pijim”. — Não revistamos direito a sala de brinquedos das crianças.
— Nem pense nisso! — o “Pijim” balançou a cabeça energicamente. — Você deve estar louco de fome. Apesar de parecerem apetitosos, aqueles brinquedos são só algodão por dentro!
— Claro que não vamos comer, venham comigo, — respondeu Lei Yan, conduzindo o grupo ao segundo andar, rumo à sala de brinquedos. Curiosos, todos o seguiram, querendo ver o que ele planejava.
Ao entrar na sala, Lei Yan recordou sua infância e procurou pelo quarto. Encontrou, atrás da escrivaninha, a tampa de uma caixa de ventilação. Empolgado, abriu-a e lá dentro estava uma pequena caixa de papelão.
Todos se aproximaram, ansiosos para ver o que havia ali.
— Olhem só! — exclamou Lei Yan, satisfeito, ao abrir a caixa e encontrar cinco ou seis barras energéticas. Passou-as ao “Pijim”, que quase não cabia em si de alegria.
— Tem mais! — disse Lei Yan, como se estivesse tirando a sorte grande. Apalpou a caixa, de olhos fechados e sorrindo, e tirou dois pacotes de carne seca, entregando-os a Teresa, arrancando vivas do grupo.
— O que é isso? Aqui era sua casa de infância? — perguntou David, surpreso.
— Claro que não, — respondeu Lei Yan, exibindo cinco grandes chocolates embrulhados em papel dourado, como se fossem cartas de baralho. Sorriu e explicou: — Quando criança, eu escondia guloseimas que minha mãe não deixava comer, para devorar à noite ou quando estava sozinho em casa. Meus amigos faziam o mesmo. Por isso resolvi procurar, apostando que alguma criança gulosa teria feito igual. E não é que encontrei?
— Que criança não faz isso? Eu também fazia, — disseram os demais, salivando diante das guloseimas.
— Vamos comer um pouco para recuperar as forças, — sugeriu Lei Yan, pedindo a Teresa e Anna que distribuíssem os doces. Ele sorriu e disse ao grupo: — Depois procuraremos mais guloseimas. Tenho certeza de que ainda encontraremos muitos tesouros! — Enquanto comiam, todos ergueram o polegar para Lei Yan, concordando com entusiasmo.