Oitenta e oito, Médico fora da lei (cinco)
Dentro da cabana de madeira, Leão e os outros estavam em confronto com a médica e seus subordinados.
— Jim, como você consegue manter o otimismo por tanto tempo? Estou curioso — Leão, com um sorriso torto, perguntou ao “Pequeno Gás”, Jim, que tinha a arma apontada para a médica. — Neste mundo azarado, você deveria ser pessimista.
— Bah, eu sempre penso que morrer não é problema — respondeu Jim, lançando um olhar de canto para os três soldados na porta, enquanto mirava a médica e sorria de forma maliciosa. — Desde que eu leve alguém junto, não perco nada. Se não for ganancioso, não há com o que se preocupar.
— Vocês não terem medo de morrer não significa que eles também não tenham — a médica arrancou abruptamente seus óculos estranhos e os lançou sobre a mesa, encarando com ferocidade Leão, Eric, David e os dois irmãos W. — Se for para todos perderem, então vamos! Não pensem que sairão daqui!
— Vamos conversar, todos precisam manter a calma — a mulher de meia-idade, refém de Leão, com os lábios trêmulos, tentou apaziguar os ânimos. — Olhe, senhor, se você acha que estamos pedindo demais, podemos negociar. Tudo tem solução! — Ela piscou para a médica, sugerindo que ela também cedesse um pouco.
— Eu fiz a aplicação na criança, é legítimo — a médica olhou para o Pequeno W e, com firmeza, declarou — No mínimo, três sacos de pão. É o limite!
— Uau, temos apenas quatro sacos, isso é... Não pode ser mais sincera? — Jim contestou, mostrando desagrado com o preço proposto. — No máximo uma e meia, não mais. Não está vendo? Somos muitos, com muita boca para alimentar. Se dermos tudo, vamos passar fome! Não pode!
— Ei, ei, vamos baixar o tom — David, percebendo a tensão crescente após as palavras de Jim, interveio rapidamente. — Somos adultos, afinal. Acho que podemos sentar para conversar. — Olhou para Leão e, depois, para a médica, esperando que aceitassem sua proposta.
No auge da tensão dentro da sala médica, passos subindo a escada atraíram a atenção de todos. Leão e os outros temiam que fossem zumbis, e, além da tensão, o medo aumentou. A médica ficou ainda mais inquieta, e um soldado de barba cerrada desviou a atenção para ver quem se aproximava, retornando ao foco para manter a igualdade de forças.
— Hale, o que vocês estão fazendo? — Uma senhora de cabelo ralo apareceu cambaleando atrás dos soldados, olhando surpresa para o confronto. Leão e os demais, de relance, ficaram perplexos com a aparição súbita da velha, sem imaginar o que aconteceria a seguir.
— Vó, não pedi pra você ficar quieta lá embaixo? — O soldado de barba cerrada, claramente Hale, respondeu, demonstrando a típica insatisfação de neto. — Estamos negociando aqui, quase resolvendo tudo! Volte para baixo!
— Parem com isso, o velho Jack parece estar mal. Venham ver rápido — a senhora, de roupão, ignorou completamente o confronto, como uma mãe instruindo filhos desobedientes. Após falar, virou-se e desceu as escadas, certa de sua autoridade, sem espaço para contestação.
A mudança foi abrupta; Leão, a médica e seus subordinados ficaram paralisados. Até então, todos eram guerreiros lutando pela sobrevivência, mas agora, com armas erguidas, pareciam crianças brincando de guerra. A chegada da “mãe” encerrou o jogo; era hora de voltar para casa, sem explicações.
Os dois grupos ficaram frente a frente, desconcertados, sustentando a tensão por alguns segundos até que não resistiram mais. As defesas caíram, e, com rostos envergonhados, Leão e os soldados abaixaram as armas. Pareciam crianças desmascaradas por adultos, e a atmosfera hostil se transformou em constrangimento infantil. Continuar ameaçando era infantilidade pura.
— O que está acontecendo lá embaixo? — Leão soltou a mulher de meia-idade, pegou sua mochila e, enquanto a colocava nas costas, perguntou à médica.
— Você viu, uma senhora que mal anda veio pedir ajuda — a médica suspirou, balançou a cabeça, pegou uma maleta de primeiros socorros e, com altivez, passou por Leão, abrindo caminho para descer. A mulher de meia-idade olhou para Leão e os outros, fez uma careta e seguiu atrás. Os soldados também perderam o interesse em vigiar Leão e os outros, caminhando com as armas atrás da mulher.
Leão e os outros, curiosos sobre o que acontecia no andar de baixo, pegaram suas mochilas, guardaram as armas e seguiram o grupo.
— Sua avó é gente boa — Jim, talvez sincero ou brincando, comentou com Hale.
— Idosa, dá trabalho demais — Hale respondeu, franzindo o cenho, reclamando para Jim.
— Fale menos — a soldada olhou com cautela para Jim, advertindo Hale.
Seguindo a médica, seus companheiros apagaram todas as velas pelo caminho, pois o cheiro era forte demais.
— Vocês vendiam velas antes? Não precisa de tantas — Jim, sempre sociável, perguntou a Hale enquanto ele apagava uma vela.
— Para criar ambiente — Hale não hesitou, sorrindo para Jim enquanto apagava outra vela. — Ideia das velhas, mas não funciona. Não tem como não aceitar, fazer o quê!
— Pois é, dá dor de cabeça — Jim concordou, como se também tivesse uma avó autoritária, embora fosse órfão criado em um orfanato, sem família, a única velha que conhecia era a diretora, com quem tinha péssima relação.
Mas Hale não sabia disso; sentiu afinidade com Jim, como se fossem irmãos, e a distância entre eles diminuiu.
— Aquela que você viu é minha avó — Hale revirou os olhos, confidenciando a Jim. — Ela é avó de todos aqui, aff! Dá trabalho, reclama o dia todo, mas é boa pessoa, nisso você acertou.
— Idosos são assim — Jim respondeu compreensivo, assentindo.
A médica conduziu o grupo a um grande salão nos fundos da casa, onde, além da avó de Hale, havia mais de dez idosos, deitados ou sentados ao lado das camas. Pareciam ter mais de noventa anos, embora a aparência enganasse. A maioria estava sem plena consciência, e a avó de Hale, em meio a eles, destacava-se como uma garça entre galinhas.
— Isto é um asilo? — Leão olhou ao redor, surpreso.
— O que mais seria? Um centro de lazer para idosos? — a médica, enquanto auscultava o senhor Jack, respondeu com ironia…