Capítulo Treze: Diário
Eu concentrei toda a minha atenção em decifrar os números no papel. Talvez a resposta fosse surpreendentemente simples, bastava encontrar o caminho certo e tudo ficaria claro diante dos meus olhos. O número 6 vinha sempre à frente... Por quê? Esses números surgiram no Reino Intermediário para aprisionar a alma de Wang Yue; será que isso teria alguma ligação direta com ela?
Pensei nela. Minhas lembranças fluíram livres, trazendo à tona os momentos que passamos juntos. O mais marcante foi o aniversário dela. Naquele dia, depois do trabalho, ela me levou misteriosamente para uma sala reservada de um restaurante. Achei que seria apenas um jantar comum, mas, de repente, as luzes se apagaram e um garçom entrou empurrando um bolo de aniversário. Fiquei atônito e perguntei se era mesmo o aniversário dela. Ela assentiu com a cabeça. Suspirei, dizendo que ela deveria ter me avisado para que eu pudesse preparar um presente. Wang Yue segurou minha mão e, com doçura, disse: "Lin Cong, você é o meu melhor presente de aniversário".
Depois daquele dia, fiquei totalmente envolvido pela doçura daquele sentimento e foi então que começamos oficialmente a namorar.
Sacudi a cabeça, tentando recordar todos os detalhes daquele dia, e pouco a pouco a data foi se formando na minha mente. Olhei novamente para os números no papel, um lampejo de compreensão me atingiu. Peguei o celular, entrei em um site de buscas e digitei as palavras-chave para investigar.
Dez minutos depois, soltei um longo suspiro de alívio e disse para os outros na sala: “Consegui decifrar.”
Tio Zhong e Li Daming levantaram os olhos para mim. Li Daming parecia desconfiado:
— Você conseguiu mesmo?
Assenti:
— Wang Yue nasceu em 1995, tem 24 anos, e seu aniversário é no sexto dia do quinto mês lunar. O primeiro número, 612, corresponde ao aniversário de dez anos dela, em 2005, que, no calendário solar, caiu em 12 de junho. O segundo número, 601, refere-se ao aniversário de onze anos, em 2006, que foi em 1º de junho. Seguindo a lógica, o número que falta é o aniversário de treze anos, ou seja, em 2008, no sexto dia do quinto mês lunar, correspondente a 9 de junho, ou 609.
Li Daming conferiu tudo e bateu na própria testa, admirado:
— É isso mesmo!
— A resposta era simples: os aniversários dela pelo calendário solar — expliquei.
Tio Zhong então sugeriu:
— Voltemos ao quarto. Farei o ritual para que você entre no Reino Intermediário e revele a resposta para ela.
Mas Li Daming interrompeu, levantando a mão:
— Esperem um pouco!
Nós olhamos para ele, que piscou e disse:
— Algo me incomoda. Se a resposta é o aniversário dela, Wang Yue deveria saber melhor do que ninguém. Por que ela mesma não resolveu isso?
Respondi:
— Quando a encontrei no Reino Intermediário, ela disse que estava em estado de alma fora do corpo. Sem o apoio do corpo físico, perdeu muitas memórias e habilidades. Por isso pediu ajuda.
Li Daming pareceu querer comentar algo, mas apenas assentiu.
Voltamos ao quarto. Já passava das duas da manhã. Apesar do cansaço extremo, eu ainda resistia. Tio Zhong iniciou o ritual e eu saí do corpo novamente, entrando no espelho. Dessa vez, não ouvi a gravação de Wang Yue. Segui o instinto, dei dez passos e cheguei diante do muro, onde toquei o bracelete no encaixe.
— Wang Yue, você está aí? — chamei.
— Estou — ouvi a resposta do outro lado.
— Decifrei o enigma. É 609, seu aniversário de 2008, o sexto dia do quinto mês lunar.
— Treze anos... — Wang Yue murmurou. — Meu aniversário de treze anos...
— Mas por que você não lembra nem do próprio aniversário? — perguntei. — Perdeu até essa lembrança no Reino Intermediário?
Ela pareceu refletir por muito tempo antes de responder:
— Lin Cong, obrigada. Venha amanhã à noite, agora descanse.
Eu quis perguntar mais, mas ouvi passos suaves se afastando. Lutei para sair do espelho e contei tudo a Tio Zhong e Li Daming. Nem mesmo Tio Zhong, experiente como era, conseguiu entender tudo, e decidimos esperar a noite seguinte.
Passava das duas da madrugada. Eu estava exausto e dormi no sofá da sala da casa de Wang Yue, sem me importar com o que os outros fariam.
Acordei depois das dez da manhã, sem pesadelos, mas ainda muito cansado. Li Daming já estava de pé e me trouxe um copo de água quente. Olhei ao redor e não vi Tio Zhong. Li Daming explicou que ele saíra cedo, atendendo a uma ligação da filha, mas voltaria à noite.
Bebi a água meio atordoado, aliviado por ser domingo e poder descansar. Não sabia quanto tempo conseguiria suportar noites assim, resolvendo enigmas sem dormir, trabalhando durante o dia e desvendando mistérios à noite. Comentei minha preocupação com Li Daming, que respondeu surpreso:
— Ainda quer trabalhar? Tire logo uma semana de folga. Não pensou que, se não aguentar esses sete dias, pode acabar enlouquecendo?
Ele tinha razão.
Passamos o dia inteiro na casa de Wang Yue. Li Daming, animado, inspecionou cada cômodo, especialmente o escritório dela, folheando todos os livros com avidez. Eu não aprovei, mas não o impedi, pois talvez encontrássemos alguma pista.
À noite, Tio Zhong voltou, com o semblante pesado, provavelmente por problemas pessoais. Por mais capaz que fosse, todo lar tem suas dificuldades.
Ele nos levou ao quarto, iniciou o ritual e mais uma vez entrei no espelho, indo até o muro e tocando o bracelete.
— Wang Yue, você está aí?
— Estou — respondeu prontamente.
— Você passou para a segunda etapa? — perguntei.
— Sim. Entrei em outro cômodo e estou presa aqui, sem conseguir sair.
Aproveitei para perguntar algo que me inquietava desde cedo:
— Como é esse lugar? São vários cômodos em sequência?
— Não sei explicar direito — ela disse. — Parece um enorme labirinto, com diferentes espaços: quartos, áreas externas, corredores, túneis subterrâneos, salas secretas, palácios, prisões...
Engoli em seco:
— Isso tudo foi criado por alguém?
Ela suspirou:
— Lin Cong, tudo tem um criador. Não apenas o Reino Intermediário. Nós mesmos fomos criados, tudo faz parte do destino.
Balancei a cabeça, discordando, pois era uma questão filosófica demais para aquele momento. Preferi focar no problema imediato:
— Diga o que devo fazer agora.
— Neste cômodo há um interruptor com uma frase — sua voz tremeu — e essa é a chave para decifrar o enigma.
Apressado, perguntei qual era a frase.
— Está escrito: 'A resposta que você procura está na pessoa que você mais odeia.'
Fiquei perplexo e perguntei o que isso significava.
— O que está escrito — respondeu Wang Yue. — Você precisa encontrar quem eu mais odeio. A resposta está com ele!
Perguntei, intrigado:
— Quem é essa pessoa?
Após um breve silêncio, Wang Yue disse algo estranho:
— Quer saber o que aconteceu comigo aos treze anos?
Pisquei rapidamente. O aniversário de treze anos era a chave do primeiro enigma. Pensei que, ao resolver a etapa anterior, o assunto estivesse encerrado, mas Wang Yue trouxe-o de volta.
Ela continuou:
— Lin Cong, no escritório há um diário. Nele está registrado o que aconteceu comigo aos treze anos, e ali você encontrará quem eu mais odeio. Lembre-se: tem apenas um dia. Amanhã à noite deve me dar a resposta, senão ficarei presa para sempre nesta sala.
Antes que eu pudesse perguntar mais, sua voz sumiu. Por mais que chamasse, não houve resposta. Voltei ao corpo, envolto em sombras, e vi Tio Zhong segurando uma vela, indagando como foi. Relatei tudo, sem omitir nenhum detalhe.
— Um diário? — comentou Li Daming. — Acho que realmente vi um desses.
Imediatamente pedi que o pegasse. Fomos para a sala e, não demorou, Li Daming retornou com um diário antigo, encadernado em couro, recheado de recortes, bilhetes e notas – uma verdadeira colcha de memórias.
Perguntei:
— Você viu o que aconteceu com Wang Yue aos treze anos?
Li Daming riu sem graça:
— Vi esse caderno hoje, mas não notei que era um diário, porque não tem datas. Achei que fossem anotações soltas. E você sabe, não sou fã de textos sentimentais, então deixei para lá.
— Gostando ou não, temos que ler — disse Tio Zhong. — Vamos procurar o que aconteceu com ela aos treze anos.
Ele se sentou no sofá com o diário. Eu e Li Daming sentamos ao lado, cada um de um lado, e começamos a folhear juntos. Não tínhamos avançado dez páginas quando Tio Zhong se mostrou impaciente:
— Assim vai demorar demais.
— Tenho uma ideia — disse Li Daming, pegando o diário e uma faca de papel da gaveta. Diante de nossos olhos, cortou o diário ao meio, dividindo-o em três partes.
Fiquei furioso:
— O que você pensa que está fazendo?!