Capítulo Quatorze - O Inimigo
Li Damin sugeriu: “Vamos dividir em três partes para lermos ao mesmo tempo. Assim, avançamos mais rápido e com mais eficiência.”
“Este é o diário da Wang Yue. Você pediu permissão para abri-lo? Está mexendo no diário dela sem autorização?” Minha voz se elevou, indignado. “Você já estava fuçando nas coisas dela e eu nada falei, mas agora isso já não é demais?”
“Compreendo como se sente”, Li Damin disse. “Admito que não foi educado da minha parte, não fique bravo. Mas pense que vivemos uma situação excepcional. Em tempos de guerra, todo protocolo se reduz ao essencial. Para grandes feitos, grandes concessões — não dê atenção a pequenos detalhes. Tio Zhong, não acha que tenho razão?”
O olhar de Zhong estava cheio de aprovação. “Gosto do modo de pensar do jovem Li. Lin, não fique implicando. O que importa agora é ajudar Wang Yue, o resto pode esperar. Quando ela voltar à vida, vai compreender.”
Com aquelas palavras, minha raiva se dissolveu, mesmo que ainda me sentisse incomodado, de mau humor.
Li Damin me entregou uma das três partes em que dividira o diário. “Já que está rasgado, não adianta pensar demais. Foque no essencial: precisamos descobrir rapidamente quem é a pessoa que Wang Yue mais odeia.”
Resmunguei: “Acho que, logo, a pessoa que ela mais vai odiar é você.”
Li Damin riu alto: “Será uma honra.”
Nós três nos debruçamos sobre nossas partes do diário. Fui virando as páginas. O estilo de Wang Yue era delicado, com aquela leveza típica de uma jovem. Ela pouco narrava acontecimentos: descrevia em poucas linhas o fato e, em seguida, discorria longamente sobre suas impressões. Para mim, esse tipo de texto não era dos mais agradáveis — faltava enredo, suas reflexões soavam juvenis. Li duas páginas e o sono começou a pesar. Mal dormira na noite anterior, o cansaço me vencia.
No início, o que me movia era a curiosidade por algum segredo de Wang Yue. Mas, após várias páginas, percebi que ela quase não mencionava sua condição de intermediária entre o mundo dos vivos e dos mortos — nem uma palavra. Um pensamento me ocorreu: o diário, sob o pretexto de ser um relato pessoal, servia na verdade para esconder algo, era apenas uma fachada.
Mas qual seria o objetivo de Wang Yue ao escrever aqueles diários? Apenas exercitar a escrita? Ou talvez, de propósito, ocultar algo, protegendo-se de olhares curiosos?
Já passava da meia-noite. Li Damin e Zhong bocejavam sem parar, contagiando-me. Quanto mais líamos, mais o sono nos dominava. Nem soubemos quando pegamos no sono.
Quando acordei, já era dia claro. Olhei o relógio: seis horas da manhã. Li Damin e Zhong também despertaram, esfregando os olhos. Zhong comentou: “Vamos lá, jovens, coragem! Eu já passei da idade, o trabalho pesado é com vocês. Nada de bocejos, sejam entusiasmados.”
Perguntei a Li Damin se descobrira algo. Ele suspirou: “Nunca imaginei que Wang Yue fosse tão... fantasiosa. O que ela escreve parece um devaneio, tive que me esforçar para ler.”
Sem tomar café, nos obrigamos a continuar lendo o diário. O tempo passou depressa. Examinei todos os recortes e comprovantes guardados entre as páginas, mas nada encontrei de relevante.
De repente, Li Damin exclamou, animado: “Achei!”
Corri para junto dele. Ele abriu a página e apontou para um trecho no meio de um longo texto. “Ela escondeu sua experiência aos treze anos entre reflexões. Se não lermos atentamente, passa despercebido.”
Esfreguei os olhos. A página estava densamente escrita. Apesar da caligrafia legível, o encadeamento das frases era confuso, fácil de nos distrair. Li Damin teve mérito em identificar aquele trecho.
Zhong olhou por um momento e desistiu: “Meus olhos já não aguentam. Leiam vocês e me contem depois.”
Peguei a folha e li com atenção. O relato de Wang Yue era sucinto, mas carregado de ódio e medo. Senti um frio na espinha ao perceber o quanto ela fora marcada por aquilo.
Olhei para Li Damin, que também tinha o semblante sombrio.
Uma dúvida me ocorreu: será que todo o diário de Wang Yue não era apenas um disfarce para esconder essa experiência? Se ela não a escrevesse, talvez carregasse aquele trauma por toda a vida.
No dia do seu décimo terceiro aniversário, Wang Yue passou por um acontecimento que, para uma garota, era praticamente devastador.
Segundo o diário, seu pai morrera cedo e sua mãe fugira com outro homem, deixando Wang Yue órfã, criada pelos avós maternos. No interior, os dois idosos mal tinham recursos; já era um esforço mantê-la na escola. No seu décimo terceiro aniversário, não havia qualquer possibilidade de festa.
Wang Yue era precoce, lembrava de todos os seus aniversários. Sempre comportada, jamais fez exigências. Naquele dia, após as aulas, foi ao túmulo do pai rezar, confidenciando seus sentimentos de filha. Levou algumas velas, acendeu-as ao anoitecer, celebrando sozinha seu aniversário.
Ela estava feliz, escrevia que sentia o pai por perto, celebrando com ela.
A noite caiu. Para não preocupar os avós, recolheu as coisas e desceu a trilha de volta para casa. Na saída do caminho, viu um homem cambaleando sob a luz da lua. Logo reconheceu: era um trabalhador da granja de porcos da vila. A granja era recente, contratara vários homens das redondezas para serviços temporários.
Ele parecia bêbado, mal se aguentava em pé. Aproximou-se de Wang Yue e, de repente, agarrou-lhe o braço.
Apesar de ter apenas treze anos, Wang Yue já era moça. Percebeu o perigo e tentou se desvencilhar. O homem, forte pelo trabalho pesado, a arrastou para um bosque.
O restante não era detalhado — compreensível, pois ninguém desejaria descrever em minúcias a própria dor. O fato é que, no dia do seu décimo terceiro aniversário, Wang Yue foi violentada por aquele trabalhador rude.
As letras seguintes quase transpassavam o papel, borradas pelas lágrimas, denunciando que Wang Yue chorava enquanto escrevia. Ler aquilo me sufocou, a dor dela parecia minha.
Li Damin notou meu silêncio: “Eu não esperava que Wang Yue tivesse passado por algo assim.”
Zhong, intrigado, pediu que contássemos o que havia ocorrido. Li Damin resumiu o conteúdo do diário. Zhong refletiu: “Ela mencionou o nome do homem?”
“Sim”, respondi. “No diário, está escrito: Cai Cheng.”
Li Damin ponderou: “Isso é estranho. Tem algo que não entendo.”
O observamos, aguardando.
Li Damin continuou: “Wang Yue tornou-se uma intermediária entre mundos. Você mesmo, Zhong, disse que ela era poderosa, com talentos únicos. Por que ela não se vingou de Cai Cheng?”
“Como sabe que ela não se vingou?”, argumentei. “O fato de não ter escrito não significa que não o fez. Wang Yue nunca foi de deixar barato. Em condições normais, seria estranho ela não buscar vingança.”
“É aí que está o problema”, respondeu Li Damin. “Se ela tivesse se vingado, de qualquer maneira, Cai Cheng não teria escapado ileso — talvez nem estivesse mais vivo. Mas, pelo que você e Wang Yue conversaram, ela pediu que você encontrasse a resposta com a pessoa que mais odeia. Isso sugere que Cai Cheng ainda está livre. Há uma contradição aqui.”
Zhong ponderou: “Sou mais velho que vocês, já vi muitas coisas. Acho que, por mais forte que alguém seja, sempre existe um ponto fraco, algo que não consegue enfrentar. Veja: faltam muitos detalhes no diário. Por quê? Primeiro, porque Wang Yue não teve coragem de relatar. Segundo, porque sua mente bloqueou aquelas lembranças. Ela teme esse passado, teme Cai Cheng. Mesmo que um dia se tornasse uma deusa, talvez nunca superasse esse trauma.”
Li Damin e eu permanecemos em silêncio, trocando olhares. Éramos adultos, sabíamos bem o peso de tais feridas.
Zhong suspirou: “O mundo intermediário não é brincadeira. Cada etapa testa nosso íntimo, obriga a enfrentar as memórias mais dolorosas, a buscar soluções. Temos apenas um dia para encontrar Cai Cheng!”
“A única pista é que Wang Yue nasceu em Longshan. Não sei se conseguiremos achar Cai Cheng”, disse.
Zhong se levantou: “Não há tempo a perder. Vamos agora.”
Sem hesitar, saímos, descemos ao estacionamento e pegamos o carro. Li Damin guiou, levando-me junto com Zhong, direto para Longshan.
Nossa cidade, Jiangbei, tem esse nome por estar ao norte do Yangtzé. Abaixo dela, há muitos municípios e vilarejos à beira do rio, e Longshan é um deles. Pegamos a estrada, Li Damin acelerou o carro ao máximo, os pneus quase voando pelo asfalto.