Capítulo Vinte e Cinco: O Grito do Porco

O Código do Além O programador audacioso 3138 palavras 2026-02-09 14:06:40

As palavras de Damião soaram num tom extremamente estranho; nenhum de nós conseguiu entender, e todos lançamos olhares para Tio Zhong. Ele explicou: “A alma penada ficou muito tempo sem possuir um corpo, está tentando emitir sons humanos.”

Esperamos um pouco, até que Damião finalmente falou em língua compreensível: “Quem sou eu... e vocês, quem são? Por que me procuram?”

Tio Zhong deu um passo à frente e respondeu suavemente: “Você se chama Chen Lun. Viemos aqui para ajudar você a encontrar a paz.”

Damião parou por um instante: “Chen... Lun... paz...”

A dona Wanda não conseguiu se conter e correu em nossa direção, mas a cena era tão estranha que, após dois passos, hesitou, a voz embargada em lágrimas: “Lun, sou sua mãe, você não me reconhece?”

“Mãe? Mãe?” Damião murmurava, como se o termo lhe fosse incompreensível.

A dona Wanda virou-se para Tio Zhong, chorando: “Mestre, o que está acontecendo? Por que ela não me reconhece?”

Tio Zhong suspirou: “Quando uma pessoa morre, em essência, já não é mais aquela pessoa. É um tema muito complexo, difícil de explicar rapidamente. Usando termos modernos, Chen Lun agora é apenas um campo de energia; o que impede sua dissolução é a obsessão que mantinha em vida. Para ajudá-la, precisamos aproveitar essa oportunidade para desfazer essa obsessão.”

Tio Zhong fez um gesto, e entendi prontamente: protegi dona Wanda e a levei de volta.

Tio Zhong falou em voz alta: “Chen Lun, encontrar a paz é garantir um bom destino para você, permitir que parta deste lugar.”

Essas palavras pareceram enfurecer Damião, que nos olhou ferozmente: “Não vou sair daqui, quero ficar aqui!”

Tio Zhong insistiu: “Se ficar, nunca encontrará descanso. Se aceitar, garanto que na próxima vida nascerá numa boa família, terá nova chance.”

“Eu... não... saio... daqui!” Damião rugiu, tomado de raiva. Pensávamos que explodiria, mas de repente soltou uma gargalhada estranha, alegre, mas a voz era oca, provocando calafrios.

Tio Zhong logo disse: “Muito bem, não sairá. Mas, como já aceitei sua promessa ao lhe dar o rosário, agora deve me conceder um pedido.”

Damião parecia uma criança com dificuldade de compreensão, sem entender as palavras de Tio Zhong. Após pensar um pouco, respondeu com uma só palavra: “Diga.”

Tio Zhong pediu: “Quero que você perdoe uma pessoa. Precisa dizer isso em voz alta.”

“Que... pessoa?” Damião perguntou, fixando o olhar.

“Chama-se Wanda, sua colega de escola.” Tio Zhong respondeu suavemente.

Por trás, eu escutava, tenso. Esse era, afinal, o objetivo de nossa visita: se Damião dissesse a frase de perdão, nossa missão estaria cumprida, e poderíamos ir embora, deixando a bagunça para quem quisesse lidar com ela.

Damião olhava para nós, enquanto todos o fitávamos de volta. Os dois grupos estavam nas extremidades do corredor, encarando-se em silêncio absoluto; até o cair de um alfinete seria ouvido.

Damião disse lentamente: “Não... posso... perdoar.”

Ao ouvir isso, senti meu coração afundar. Tio Zhong perguntou apressadamente: “Por quê? Ela não foi a principal responsável. Sua morte não é culpa dela.”

“Eu... lembro... humilhação... ela... envolvida. Bati... na porta. Foi ela.” Damião respondeu palavra por palavra.

Eu, segurando o espelho mágico, estava aflito e respondi com coragem: “Eram apenas brincadeiras de amigos, nada demais.”

O olhar de Damião se desviou de Tio Zhong para mim, sombrio, carregado de ódio. Tio Zhong murmurou para que eu não interrompesse.

De repente, Damião soltou um riso sinistro: “Brincadeiras? Bati na porta? Fui insultada fora da sala, só pensava em Wanda morrer! Wanda morrer! Odiava-a tanto... Não posso... perdoar! Não posso perdoar!”

Gritou e avançou correndo pelo corredor em nossa direção, tão rápido quanto uma fera.

Todos entramos em pânico; alguém gritou: “Corram! Socorro!”

Dois professores arrastaram o diretor Cássio em disparada para a escada, enquanto os outros caíam e se levantavam, especialmente o chefe Joaquim, que tropeçou feio, mas não sentiu dor, levantando-se e continuando a fuga.

Também fiquei assustado, mas sabia que, naquele casarão abandonado, o mais seguro era ficar perto de Tio Zhong. Além disso, eu tinha o espelho mágico.

Dona Wanda, ao contrário, não fugiu; correu na direção de Damião chorando: “Filha, minha querida filha!”

Perguntei aflito: “Tio Zhong, o que faremos quanto a Wanda?”

Tio Zhong, suando, observou Damião avançar: “Agora é praticamente impossível. O mais importante é expulsar logo a alma penada do corpo de Damião.”

“Então... então eu também estou acabado...” minhas pernas tremiam.

“Vamos lidar com um problema de cada vez,” disse Tio Zhong. “Venha me ajudar; precisamos imobilizá-lo primeiro.”

Senti minhas forças sumirem de repente, tomado por um desânimo profundo; missão fracassada, em poucos dias me tornaria um idiota. Que sentido restava em viver?

Olhei para Damião, sentindo raiva — por que essa alma penada era tão teimosa? Custava perdoar Wanda?

De súbito, o medo diminuiu, e decidi descontar minha frustração antes de perder a sanidade.

Fiquei com Tio Zhong, um de cada lado, ele com uma pequena espada de pessegueiro, eu com o espelho mágico, ambos apontados para Damião, à espera de sua aproximação. Faltavam uns cinco ou seis metros, quando Damião, de repente, mudou de direção e entrou num salto na sala ao lado, desaparecendo.

Tio Zhong foi rápido: “Vamos! Me sigam!”

Dona Wanda, aflita, insistiu em ir junto. Não podíamos deixá-la sozinha, então seguimos até a porta da sala. Tio Zhong acendeu sua lanterna e iluminou o interior. O espaço era enorme, tomado por móveis velhos, cadeiras e mesas quebradas, tudo amontoado. Vasculhou o ambiente com o facho de luz, mas não vimos sinal de Damião.

Havia duas portas; a dos fundos estava bloqueada por entulho, confirmando que Damião não tinha saído dali.

Tio Zhong, em voz baixa, instruiu: “Segure firme o espelho mágico e proteja dona Wanda. Com o espelho, a alma penada e outras entidades não se aproximarão.” Eu suava frio, coração disparado, quase desmaiando. Dona Wanda, firme, segurou meu braço e sussurrou: “Se tiver medo, fique atrás de mim. Sou mãe de Lun, ela não me machucaria.”

Ser protegido por uma senhora seria humilhação demais; então, dei um passo à frente para protegê-la.

Tio Zhong tirou um pequeno sino da sacola, segurou a lanterna na mão direita, a espada de pessegueiro na esquerda e, entre dois dedos, prendeu o sino, avançando lentamente pela sala, balançando-o suavemente.

O som do sino era fraco, mas límpido, cada toque claro como cristal.

Ele seguia à frente, e nós atrás, caminhando devagar. Eu segurava o espelho numa mão e a lanterna na outra, olhando em todas as direções e murmurando: “Não tenho medo de você, não venha me atrapalhar, tenho um espelho mágico, ele te consome.”

O chão coberto de tralhas dificultava os passos, e a escuridão parecia esconder algo à espreita, pronto para saltar a qualquer momento.

Tio Zhong avançava mais rápido, abrindo caminho entre as cadeiras velhas. Por acaso, o feixe da lanterna refletiu no espelho, e, por um segundo, vi uma figura difusa, vestida de vermelho intenso. Só depois percebi: Chen Lun havia morrido usando um vestido vermelho.

Senti um frio na espinha, busquei a silhueta ardente com o espelho, ajustando a lanterna. De repente, debaixo de uma mesa quebrada, alguém saiu em disparada, correndo como um animal em direção à porta.

Gritei desesperado: “Tio Zhong!”

Tio Zhong virou-se imediatamente e também gritou: “Rápido, não o deixem escapar!”

Dona Wanda foi ágil e agarrou Damião. Apontei a lanterna para ele — era mesmo Damião, sujo, pálido, nos encarando com ódio.

Tio Zhong deu grandes passos em nossa direção. Damião, percebendo o perigo, desferiu um chute em dona Wanda. Jamais permitiria que ela se ferisse; corri e abracei a perna dele, sentindo um golpe forte nas costas, quase cuspindo sangue, mas soltei sua perna.

Respirei com dificuldade e, de relance, vi dona Wanda já dominando Damião, deitada sobre ele.

Damião se debatia, batendo nela, mas dona Wanda mostrou força, sentando-se sobre ele e dizendo, furiosa: “Menina, quando era jovem fui operária exemplar e campeã da fábrica, carregava sacos de dezenas de quilos. Você acha que pode me vencer?”

Ela esbofeteava Damião de um lado e de outro, chorando copiosamente: “Filha, mamãe falhou com você. Por que era tão fraca, tão fraca? Viver não é bom? Estando viva, sempre há esperança! Agora você prejudica os outros e jamais terá descanso, entende? Mamãe não deixará você machucar mais ninguém!”

No chão, Damião urrava como um porco, gemendo, já não parecendo mais uma alma feminina, mas sim um espírito de porco possuindo seu corpo.