Capítulo Vinte: Redenção

O Código do Além O programador audacioso 3088 palavras 2026-02-09 14:06:32

“O seu relato ainda não terminou”, disse tio Zhong.

O ancião pareceu um pouco constrangido e tossiu levemente: “Olhem, só peço uma coisa: não contem ao diretor o que lhes falei. Ele pode me demitir. Isso é segredo da escola, acabei falando demais.”

Li Damin respondeu: “Fique tranquilo, senhor, somos gente experiente, sabemos como lidar com isso.”

O velho continuou: “Aquela turma praticamente morreu toda, e então começaram a acontecer coisas estranhas. Eu só consegui esse emprego porque o antigo porteiro se recusou a continuar. Naquela noite, ele estava fazendo a ronda, já tinha desligado toda a luz, mas, curiosamente, uma sala continuava acesa. Foi checar. Não tivesse ido, estaria melhor. Ao olhar, levou um susto: a sala iluminada era justamente a turma que morreu no reservatório. Estavam todos lá, encharcados, o ambiente tomado pela névoa. Ele ficou tão assustado que quase teve um ataque cardíaco e correu de volta para a portaria. No dia seguinte, contou a outros, a notícia se espalhou e o diretor o demitiu, acusando-o de espalhar boatos e ameaçando responsabilizá-lo. Ele disse que já não queria mais aquele trabalho, que mesmo que lhe oferecessem uma fortuna, não aceitaria, queria apenas viver mais uns anos...”

Trocamos olhares, surpresos com tantos segredos e almas penadas escondidas naquela escola.

Saímos os três da portaria no horário do recreio, enquanto todos os alunos se espalhavam pelo pátio. Andávamos pela pista de atletismo de borracha, cuja fumaça e cheiro forte causavam tontura e dor de cabeça sob o sol. Era evidente que as crianças estavam desanimadas, poucas riam ou brincavam, pareciam galinhas molhadas de tão abatidas.

Na idade em que deveriam ser os mais animados e ativos, naquele ambiente poluído a vitalidade parecia drenada.

Entramos no prédio principal e, após algumas informações, subimos ao terceiro andar até a sala do diretor. Batemos à porta e entramos; ele estava regando as plantas. O escritório era amplo, com uma parede inteira de janelas, muitas plantas, iluminado e agradável. Contudo, apesar do tamanho, era vazio: apenas uma grande mesa central e alguns sofás encostados na parede.

Ao nos ver, o diretor veio cumprimentar. Era um homem de cerca de cinquenta anos, cabelo engomado com gel, penteado brilhante, usando óculos de armação dourada. Tinha algo de intelectual, mas predominava um ar mundano.

Ele nos examinou, com um olhar desconfiado, mas manteve a cortesia e nos convidou a sentar. Puxou uma cadeira e perguntou: “Senhores, aceitam um cigarro?”

Tio Zhong cruzou as pernas e olhou fixamente para o diretor.

O diretor evitou o olhar, sorrindo de leve: “Meu nome é Cao, como devo chamar os senhores?”

Tio Zhong respondeu: “Sou Zhong, dono do Salão de Feng Shui.” Entregou-lhe um cartão, sem intenção de nos apresentar, a mim e Li Damin.

“Muito prazer”, disse o diretor respeitosamente. “A que devo a visita de hoje?”

“Há problemas sérios nesta escola”, afirmou tio Zhong. “Alguém me alertou, por isso vim da cidade.”

“Ah, é?” O diretor piscou: “Veio por indicação de alguém?”

“Não precisa saber quem, em breve tudo será esclarecido”, respondeu Zhong, evasivo. “Vim por consideração, pois se não fosse por isso, não teria encarado esse calor para sair da cidade.”

Apesar da desconfiança, o diretor Cao preferiu conversar para observar melhor a situação. Tio Zhong foi direto ao ponto: “Já observei o feng shui da escola, e não é nada bom. Tenho certeza de que já consultou outros especialistas, mas não obteve resultados.”

O diretor suspirou: “De fato, não está bom. Segui várias sugestões, mas só piorou. Um mestre Chen sugeriu reformar o campo, colocar pista de borracha, dizendo que ela absorveria energia solar e, sendo o local das atividades dos alunos, cultivaria o yang, reprimindo o yin. Consegui recursos para a obra, mas, como viram, o cheiro da borracha não vai embora. Não só os alunos reclamam, os professores também, no verão ninguém ousa abrir as janelas, atrapalha o ensino...”

Olhou para nós e arriscou: “Vocês não foram enviados pelas autoridades, foram?”

Tio Zhong abriu sua bolsa, tirou uma bússola, talismãs, pincéis e potes: “Sou profissional. Se fosse impostor, teria todos esses instrumentos comigo?”

O diretor acendeu um cigarro e nos olhou de soslaio: “Então, qual é o objetivo de vocês? Ganhar algum dinheiro?”

“Não buscamos recompensa financeira”, disse tio Zhong. “Primeiro, vim a pedido de um amigo; depois, uma parente de um grande amigo meu estudava aqui e sofreu um acidente. Vim também para ajudá-la a descansar em paz.”

Os olhos do diretor brilharam, tornou-se mais respeitoso.

Observei de lado: tio Zhong tinha postura e presença de veterano do submundo, algo que o diretor jamais alcançaria. Suas palavras atingiram o coração do diretor.

O diretor suspirou, apagou o cigarro: “Mestre, vou ser honesto, o prédio antigo está abandonado há quase dez anos, tudo por causa daquele acontecimento. Desde então, nada vai bem. Queríamos demolir, mas basta tentar, de dia ou de noite, surgem fenômenos sobrenaturais. Uma vez, um vendaval inexplicável levou embora as cercas metálicas e logo cessou. Se a taxa de aprovação não fosse tão boa, já não teríamos alunos, e eu estaria sozinho aqui.”

Ele sorriu amargamente: “Desde que assumi a direção, minha carreira estagnou, nem em casa tenho paz. Tudo culpa desse feng shui amaldiçoado.”

Não resisti e perguntei: “O que aconteceu de fato? Foi aquele acidente do ônibus escolar no reservatório?”

O diretor escureceu o semblante: “Tudo boato. Não era um ônibus, mas uma van, com quatro ou cinco alunos, que sofreu acidente num passeio. Nada de sobrenatural, só fofoca de gente ignorante. Não é disso que falo. O que houve aconteceu antes desse acidente: um grande evento mudou tudo na escola.”

Tio Zhong quis saber o que era.

O diretor respondeu: “Há muitos anos, uma aluna, incapaz de suportar a repreensão do professor, se atirou do prédio vestida de vermelho.”

Trocamos olhares. Não contive a ansiedade e perguntei: “O nome dela era Chen Lun?”

O diretor, com expressão fechada, tirou um cigarro, ficou um tempo com ele nos lábios antes de responder: “Acho que era esse o nome. Já sabem?”

Tio Zhong disse: “Vim justamente para ajudar a alma dela a encontrar paz. Se ela partir, vocês poderão demolir o antigo prédio, o ponto negativo do feng shui se desfará, e todos os problemas acabarão. Quanto à pista de borracha, é simples: basta reformar com materiais ecológicos, sem necessidade de rituais. Todos os problemas da escola estão interligados, mas a raiz é esse ritual para Chen Lun.”

O diretor olhou para tio Zhong, que retribuiu o olhar. Ninguém disse palavra, o silêncio mortal pesou no ambiente.

Após dois ou três minutos, o diretor assentiu: “Pode fazer, mas tem que ser em segredo. Não pode vazar.”

“Sem problema”, garantiu tio Zhong. “Pode nos levar ao local?”

O diretor apagou o cigarro: “Eu não vou, mando o chefe de gabinete acompanhá-los.”

Foi à mesa ligar, e nesse intervalo, Li Damin sussurrou: “Tio Zhong, esse diretor tem algo no coração.”

“Vingança nunca termina bem”, disse tio Zhong. “O ciclo do destino não poupa ninguém.”

“Tio Zhong, desde quando você é dono do Salão de Feng Shui?”, perguntei.

Ele sorriu: “Abrir uma loja online para minha filha é só fachada. Sou mesmo conselheiro da Associação de Estudos do I Ching da cidade, ramo de feng shui. Pode conferir.”

Eu e Li Damin trocamos olhares. Li Damin comentou: “Temos mesmo uma associação dessas em Jiangbei? Só para o I Ching?”

“Há muita coisa que vocês, jovens, não sabem”, respondeu tio Zhong. “Precisam ampliar os horizontes.”

Nesse momento, alguém bateu à porta. O diretor chamou para entrar. Um homem de meia-idade, de camisa branca e calça azul, entrou sorridente, saudando o diretor com simpatia.

O diretor apontou para nós: “Xiao Jin, leve esses três mestres ao prédio antigo. São convidados de honra, façam o que eles pedirem. Fiquem para o almoço. Qualquer coisa, me informe.”

Depois, veio se desculpar: “Preciso ir a uma reunião na cidade, me perdoem.”

Tio Zhong levantou-se e apertou sua mão, fixando o olhar: “Diretor, resolver o assunto da moça é resolver o seu também. Colabore, liberte-se desse peso.”

O diretor não entendeu bem, sorriu constrangido e disse que manteriam contato por telefone, pegando sua pasta e saindo.

O chefe Jin parecia ter nascido para agradar chefes, sempre sorridente, mesmo já em idade avançada, com um jeito quase infantil. Disse gentilmente: “Por favor, me acompanhem. Vou levá-los ao prédio antigo.”