Capítulo XXI - Segredos Ocultos

O Código do Além O programador audacioso 3251 palavras 2026-02-09 14:06:33

Seguimos o Diretor de Ouro até o prédio de ensino nos fundos. Esse edifício abandonado ficava nos fundos do terreno, separado por uma fileira de muros altos, isolado do restante. O portão de ferro na entrada estava firmemente trancado, com uma corrente grossa, quase do tamanho de dois dedos, pendurada e um cadeado pesado por baixo.

Era pleno dia, mas ali o sol mal entrava, o ambiente era escuro e sombrio, coberto por sombras profundas. Além de nós, não havia sequer pássaros voando; nada ali. Do outro lado do prédio principal, o pátio ecoava com as vozes das crianças durante o recreio, sons distantes, como se viessem de outro mundo.

Aquele lugar era uma ilha sombria.

O Diretor de Ouro tremia, tirando a chave do bolso com dificuldade; precisou de várias tentativas até conseguir encaixar na fechadura. Girou suavemente, e o cadeado se abriu com um clique seco.

Ele empurrou o portão, mas não entrou, sorrindo de forma mais aflitiva que triste: “Por favor, senhores, entrem.”

Eu estava prestes a avançar, mas o Tio Relógio, segurando seu rosário, levantou a mão e me deteve, dizendo: “Diretor, por favor, lidere o caminho.”

O Diretor de Ouro se apoiou no muro, quase escorregando até o chão, balbuciando sem conseguir articular palavras. O Tio Relógio bufou: “Comigo aqui, não há por que temer. Vá na frente!”

Quase chorando, o Diretor de Ouro concordou e entrou. Seguimos logo atrás. Dessa vez, fui cauteloso, ficando por último, atento aos gestos do Tio Relógio.

Ao adentrar o pátio cercado pelos muros altos, senti a temperatura despencar, arrepios percorrendo a pele, um frio indescritível. Olhei para o prédio abandonado: quatro andares, não muito alto, erguendo-se no meio das sombras, portas e janelas quebradas, revelando buracos negros que arrepiavam qualquer um.

De imediato, percebi: era uma casa maldita, sem dúvida alguma. A sensação era tão intensa que, mesmo sem os poderes do Tio Relógio, sentia uma atmosfera sinistra circulando pelas profundezas do edifício.

“Vamos entrar”, disse o Tio Relógio calmamente.

O Diretor de Ouro estava pálido, com as pernas tremendo e a respiração acelerada. Eu também sentia medo, mas não tanto quanto ele.

“Por que está tão assustado, Diretor?” perguntei.

Ele sorriu amargamente: “Senhores, não sabem... Trabalho na escola há mais de dez anos, já vi e ouvi de tudo. Especialmente sobre esse prédio, nem ouso pensar ou mencionar, há um peso no coração. Para ser sincero, até carregar a chave desse portão me traz má sorte. Se não fosse meu dever, jamais viria aqui.”

“Por que não pede demissão, então?” perguntou o Grande Li.

O Diretor respondeu: “Você fala porque não sente na pele; é fácil falar de fora. Conseguir um emprego público não é moleza. Além disso, tirando esse lugar assustador, nossa escola tem uma taxa de aprovação altíssima, é famosa na cidade, com ótimos benefícios. Muitos querem colocar seus filhos aqui, mesmo com os rumores, porque a qualidade do ensino é garantida!”

O Tio Relógio fez um gesto, indicando que avançássemos juntos e tranquilizando o Diretor: se nos seguisse de perto, não correria perigo.

O Diretor de Ouro, apesar do medo, cumpriu seu papel e entrou conosco no prédio. Logo na entrada, havia um saguão no térreo, cheio de entulho: tijolos, pedaços de telha, vidros quebrados e muitos talismãs amarelos espalhados pelo chão, com símbolos desenhados em vermelhão.

O Tio Relógio agachou-se, pegou um dos talismãs e o examinou cuidadosamente.

Perguntamos ao Diretor de Ouro como havia tantos talismãs. Ele explicou: “Foi obra de um mestre anterior, um sacerdote do Templo da Cidade. Ele fazia exorcismos e rituais, dizia que esse prédio era carregado de energia negativa, por isso montou um ritual por aqui. Esses talismãs estavam colados nas paredes, mas o vento os arrancou.”

No saguão não se sentia vento, só o frio intenso, como se vários freezers potentes soprassem ar gelado ao mesmo tempo.

O Tio Relógio sorriu discretamente, jogando o talismã de volta ao chão, como se fosse lixo, sem dar importância.

“Você conhece o caso de Luna Chen?” perguntou o Tio Relógio.

O Diretor de Ouro ficou boquiaberto, sem esperar a pergunta, gaguejando: “Desculpe, preciso atender uma ligação.” Virou-se para sair.

O Tio Relógio sinalizou com os olhos: “Não o deixem fugir.”

Eu e o Grande Li o seguramos, um de cada lado. O Diretor de Ouro, aflito: “Senhor, o que está fazendo?”

“Perguntei se sabe sobre o caso de Luna Chen!” O Tio Relógio, com o rosto sombrio, se misturava ao ambiente.

“Não... não sei...” O Diretor de Ouro tremia: “São tantos alunos, como vou lembrar?”

O Tio Relógio assentiu: “Muito bem. Você é teimoso.” Tirou uma corda de sua bolsa e me entregou: “Amarrem-no e joguem-no na sala mais escura. Que ele reflita bem.”

O Grande Li o segurou firme, enquanto eu pegava a corda no chão e amarrava os braços do Diretor atrás das costas. Ele gritava, surpreendendo com um tom mais agudo que de uma mulher, até perder a voz, chorando e implorando por clemência, tremendo tanto que quase se urinava.

O Grande Li, ao lado, aconselhava: “Por que tanta resistência? Fale logo, não tem nada a ver com você.”

“Eu falo, eu falo!” O Diretor de Ouro chorava: “Conheço Luna Chen, ela morreu nesse prédio.”

O Tio Relógio olhou com frieza.

O Diretor não ousou mais mentir, contou tudo com detalhes. Ficamos perplexos, nunca imaginaríamos aquilo.

Anos atrás, o Diretor de Ouro tinha acabado de ser transferido para essa escola quando ocorreu uma tragédia: Luna Chen se jogou do prédio. Ele foi encarregado de lidar com o caso, tarefa difícil, pois era preciso acalmar os pais sem gastar muito, resolvendo tudo com qualquer método possível; se falhasse, seria responsabilizado sozinho, levando toda a culpa.

Foi com esse caso que o Diretor de Ouro começou a ascender: conduziu tudo com astúcia, alternando ameaças e gentilezas, até convencer a mãe de Luna Chen.

Luna Chen vivia com a mãe, que trabalhava numa fábrica têxtil, sendo uma operária exemplar. Ao saber da morte da filha, desmoronou, queria justiça, mas, após conversas, desistiu de reivindicar seus direitos para não causar problemas.

Como Luna Chen morreu?

O Diretor conhecia bem toda a história, só ele era capaz de esclarecer os fatos. A mãe de Luna, ao ser premiada como operária modelo, recebeu um dinheiro da fábrica. Sempre sentiu culpa por criar a filha sozinha, então, no mesmo dia, comprou um vestido vermelho muito bonito para a menina.

Luna adorou o presente, não queria tirar o vestido. Na época, os alunos usavam uniforme, mas nos fins de semana era permitido roupas comuns. Luna foi à aula extra, num sábado, com o vestido vermelho.

Durante o intervalo, ela brincava no corredor com amigas. Uma colega, provocando, empurrou Luna contra a porta de uma sala, fazendo um barulho alto.

Os alunos daquela sala estavam estudando, a professora, sonolenta atrás da mesa, foi despertada pelo barulho. Ao ver Luna de vestido vermelho, pensou ser uma brincadeira e começou a insultá-la: “Com esse vestido, se exibindo... quando crescer, vai ser uma qualquer.”

Assustada, Luna foi chamada pela professora, que, furiosa, decidiu puni-la, mandando-a ficar na porta da sala, onde todos os alunos deveriam passar e gritar: “Vestido feio! Quando crescer, vai ser uma qualquer!”

Durante toda a tarde, Luna não voltou à aula, permaneceu de castigo no corredor. Vários colegas, até de outras turmas, se juntaram para humilhá-la, rindo e gritando juntos: “Vestido feio! Quando crescer, vai ser uma qualquer!” Depois saíam rindo.

Luna ficou ali até o fim do dia. À noite, não voltou para casa, subiu ao terraço do prédio de ensino, vestida de vermelho, e se jogou.

Quando o Diretor terminou a história, ninguém falou nada. O silêncio tomou conta. De repente, de algum andar acima, ouvimos um estrondo, algo caindo pesadamente.

O Diretor de Ouro desabou, sentou-se no chão, ofegante como se tivesse um ataque cardíaco.

O Tio Relógio olhou para a escada que levava ao segundo andar; a escuridão era ainda mais densa, as sombras de cada um de nós se estendiam pelo salão.

“Há uma resposta!” disse o Tio Relógio. “Ele disse a verdade. O espírito vingativo reagiu!”

O Grande Li, animado, sem medo: “Tio Relógio, é o fantasma de Luna Chen?”

O Tio Relógio franziu a testa e advertiu: “Quando subirmos, ninguém fala nada.” Caminhou até o Diretor de Ouro, levantou-o e perguntou: “Depois da morte de Luna Chen, o que aconteceu com os envolvidos?”

O Diretor respondeu, exausto: “A professora foi incentivada a sair, mas tinha influência, foi para outra escola. A escola pagou dez mil à família de Luna, e a colega que a empurrou foi registrada com uma falta grave.”

Eu cocei o queixo: “Há um detalhe que não entendo. Luna não era aluna daquela professora. Por que o professor responsável por Luna não interveio durante a punição?”

O Diretor olhou para mim, hesitou, como se guardasse um segredo profundo.