Capítulo Trinta e Seis: As Leis do Estado Intermediário
— Você está pensando demais — disse Wang Yue. — Estou exausta, preciso dormir um pouco.
Ela fechou os olhos e logo adormeceu, emitindo suaves roncos após pouco tempo. Observei-a, tão frágil quanto um gatinho, como se tocasse a parte mais tenra do meu coração. Tive vontade de acariciar seus cabelos, mas recuei com a mão suspensa no ar. Olhando para Wang Yue, lembrando de sua infância trágica, senti um turbilhão de sentimentos confusos dentro de mim.
Apoiei-me no tronco da árvore de bodhi, olhando para o céu esmaecido e amarelo, enquanto uma paz infinita e etérea inundava meu peito. Não sei quando, mas acabei cochilando, mesmo não estando particularmente cansado. Era um estado de tal conforto, uma leveza que só se podia experimentar fechando os olhos, fingindo dormir, pois não havia outra forma de se libertar.
Não sei quanto tempo passou, mas abri os olhos lentamente para olhar Wang Yue ao meu lado e, de repente, levei um susto. Sentei-me bruscamente, sentindo um leve suor frio na testa.
Wang Yue havia desaparecido!
Levantei-me às pressas e, debaixo da árvore de bodhi, olhei ao redor. O pátio era pequeno como a palma da mão, e para todos os lados não havia sinal de Wang Yue; ela realmente sumira.
Tentei manter a calma, mas meu coração batia descompassado. Olhei para a porta de madeira por onde tínhamos entrado; será que Wang Yue havia voltado? Aproximei-me rapidamente da porta e empurrei com força. A velha madeira rangeu, revelando seu interior.
Mas do outro lado da porta havia um muro. O caminho de volta havia desaparecido, e aquele muro, alto e cinzento, bloqueava completamente a passagem.
Minha mente zunia. Como aquilo era possível?
Reuni coragem, cruzei o limiar e fui até o muro, empurrando-o com as mãos, mas ele não se moveu nem um centímetro. Não conseguia discernir se o muro havia surgido depois da entrada de Wang Yue, ou se sempre estivera ali, impedindo que ela sequer entrasse.
Voltei ao pátio. Tudo estava calmo, sem vento ou perturbação, e as folhas da árvore de bodhi permaneciam totalmente imóveis. Toda a cena parecia uma pintura a óleo de cores intensas.
Gritei o nome de Wang Yue, mas ninguém respondeu; ela realmente não estava mais ali.
Respirei fundo algumas vezes, fechei os olhos e tentei controlar a tensão. Cheguei a uma conclusão: Wang Yue encontrou uma forma de sair dali e foi embora antes de mim.
Mas por que ela não me chamou para ir junto? O que a obrigou a partir sozinha?
Aproximei-me da árvore, disposto a dar uma volta ao seu redor para investigar. Quando estava prestes a virar à direita, lembrei-me do aviso de Wang Yue para não contornar a árvore em sentido anti-horário. Assim que esse pensamento surgiu, uma ideia começou a se formar em minha mente.
Fiquei parado, franzindo a testa e tocando o queixo, e quanto mais refletia, mais clara a ideia se tornava. Um arrepio percorreu minhas costas: será que Wang Yue havia saído dali contornando a árvore em sentido anti-horário?
Olhei para o lado direito da árvore, o coração acelerado. Deveria tentar?
Levantei o pé, mas hesitei e recuei. Não podia ter certeza de que era o caminho certo, e se estivesse errado, consequências imprevisíveis poderiam ocorrer.
Pensei melhor e decidi contornar a árvore pelo lado esquerdo, no sentido horário. Ao completar a volta e quase retornar ao ponto inicial, percebi que havia marcas na casca do tronco, como se alguém as tivesse feito de propósito.
Essas marcas, certamente, não estavam ali antes. Aproximei-me rapidamente e fiquei surpreso com o que vi.
As marcas eram letras toscas, entalhadas com alguma ferramenta afiada no tronco da árvore. Estava escrito:
Lin Cong, sinto muito, fui embora antes.
Imediatamente percebi que fora Wang Yue quem deixara a mensagem. Na posição em que estava, só seria possível lê-la ao dar uma volta completa na árvore.
Toquei as letras com a mão, sentindo-me incomodado. O que Wang Yue estaria tramando?
Abaixo, havia outra mensagem:
Lin Cong, ao chegar até aqui, já sabia qual seria o próximo desafio. Esta árvore de bodhi tem uma ligação profunda comigo. A próxima etapa está ligada a mim; é extremamente difícil, e não posso arrastá-lo comigo. Fui embora antes. Lin Cong, você é muito inteligente, mas ainda não está pronto para enfrentar os desafios do reino intermediário; é algo muito perigoso. Se contornar a árvore de bodhi pelo lado direito, sairá desse reino. Quando sair, lembre-se do que lhe disse. Quando estiver preparado, volte para salvar sua mãe. Adeus.
Dava para notar que Wang Yue entalhou cada letra com força, e embora as linhas fossem tortas, cada traço parecia transbordar intensidade.
Não sei por quê, mas meus olhos se encheram de lágrimas e senti uma vontade de chorar.
Respirei fundo, fungando discretamente. Gravei cada palavra que ela escrevera e, decidido, contornei a árvore pelo lado direito...
Foi como se tivesse sonhado um sonho longo. Acordei lentamente, abri os olhos e estava de volta ao meu quarto.
À minha frente, o corpo de Wang Yue permanecia imóvel, com o rosto sereno e um leve sorriso — sinal de que sua alma ainda não havia retornado.
Levantei-me devagar. Li Damin entrou pela porta, sem demonstrar surpresa, dizendo apenas:
— Você voltou.
Fiz um gesto, indicando que conversássemos lá fora.
Fomos até a sala de estar. Olhei no relógio: haviam-se passado apenas quatro horas, e logo seria madrugada. Esfreguei as têmporas, percebendo que o tempo no reino intermediário não correspondia ao tempo real.
Li Damin preparou dois cafés, entregou-me uma xícara e sentamos frente a frente.
Enquanto saboreava o café forte, contei-lhe tudo o que ocorrera no reino intermediário.
Li Damin ouviu atentamente, anotando pontos importantes em papel e caneta. Quando terminei, o dia já havia amanhecido, e a luz inundava o cômodo.
Ele olhou suas anotações e disse:
— Então, Wang Yue já avançou para a quarta etapa.
Assenti.
— Será que ainda conseguiremos contato com ela? — perguntou Li Damin.
Refleti e respondi:
— Deve haver uma maneira. Se ela quiser, encontrará um jeito. — Balancei o pulso, mostrando a pulseira. — Wang Yue disse que ela pode servir de ligação direta com o reino intermediário. Tem propriedades mediúnicas. Talvez, futuramente, ela consiga me contatar por meio dela.
Li Damin ponderou:
— Ouvi tudo o que você contou e identifiquei algumas regras do reino intermediário. Ouça.
Assenti, indicando que continuasse.
— Primeiro, parece que cada pessoa, ao entrar nesse reino, enfrenta sete etapas. Só ao superá-las, pode realizar seu desejo.
— Sim, é isso mesmo — confirmei.
— Sete etapas batem com a ideia popular dos sete dias do luto, quando, segundo a crença, o espírito permanece no mundo intermediário. Talvez, o tempo de permanência do espírito não seja, de fato, sete dias, mas sim a duração das sete provas.
Pensei e disse:
— Faz sentido. Cada etapa dura no máximo vinte e quatro horas, segundo o tempo do reino intermediário, que não corresponde ao tempo real. Parece haver um sistema temporal distinto, então não se pode afirmar que sejam exatamente sete dias.
Li Damin rabiscou mais algumas notas e concluiu:
— A questão do tempo é complexa demais para resolvermos agora. O segundo ponto é que as provas ficam cada vez mais difíceis.
Assenti, pois era verdade.
Ele suspirou:
— Não consigo imaginar como será a sétima e última etapa. Será que alguém já passou por todas elas?
— Talvez seja o julgamento final — sugeri.
Li Damin refletiu:
— Pelas experiências que você e Wang Yue tiveram, cada etapa parece relacionada à história e ao estado interior de quem a enfrenta. Ou seja, é preciso cultivar boas ações; caso contrário, os desafios podem se tornar insuportáveis.
Concordei plenamente.
— Mais uma coisa: se duas ou mais pessoas entrarem juntas nesse reino, as provas e armadilhas mudam; cada pessoa a mais é uma variável extra.
— Tenho dúvidas quanto a isso — argumentei. — Na minha experiência com Wang Yue, quando entramos na mesma etapa, a prova seguia relacionada apenas a um de nós. O outro pouco influenciava. Mas, ao avançar, a próxima etapa se tornava imprevisível.
Li Damin balançou a cabeça, não muito convencido, mas não insistiu.
— A propósito, Wang Yue disse que tinha o segundo volume do Livro das Sombras? Ela contou onde está? Acho que ali podem estar mais segredos importantes.
Dei um tapa na testa — como pude esquecer isso?
— Mas Wang Yue disse que também não conseguiu decifrar. Mesmo que consigamos o livro, pode não adiantar.
Li Damin ponderou:
— Mas toda escrita tem seus padrões. Só porque ela não conseguiu decifrar, não significa que não possamos. Lin, sei que está angustiado com a situação da sua mãe, mas não devemos perder a razão. Concordo com Wang Yue: precisamos encontrar esse livro e analisá-lo. Se conseguirmos decifrar, conheceremos melhor o inimigo e teremos mais chances de vencer. No momento, nossa compreensão desse mundo é mínima.
— Está certo, concordo — respondi.
Li Damin não dormira a noite toda, mas continuava energizado. Vasculhamos juntos o quarto de Wang Yue em busca do tal livro, mas nada encontramos. Remexemos todos os livros do escritório, um a um, e não havia sinal de nada suspeito.
Quando terminamos, já era quase meio-dia. Estávamos exaustos e famintos. Pedimos comida por aplicativo, almoçamos e depois cada um foi repousar.
Dormimos até o anoitecer. Fomos até o quarto de Wang Yue; seu corpo permanecia sentado, imóvel, sem qualquer sinal de retorno. Tampouco recebi qualquer mensagem dela.
— Será que ela não conseguiu superar essa etapa? — perguntou Li Damin, preocupado.