Capítulo Trinta e Nove - O Prédio de Três Andares

O Código do Além O programador audacioso 3264 palavras 2026-02-09 14:07:08

— A inversão do tempo, o que isso nos diz? — perguntou Li Yang.

Li Damin soltou uma gargalhada: — O relógio quebrou.

— A família do Tong Suo tem minas, o rapaz é um desocupado, mas dinheiro não lhe falta, típico filho de papai — comentou Li Yang. — O relógio que ele usa é de marca, acabou de comprar há um mês. Você acha possível que já esteja quebrado?

— Então o que houve? — indagou Li Damin. — O tempo voltou mesmo?

— Escutem — disse Li Yang, fazendo suspense. — No começo, Tong Suo também achou que o relógio estava com defeito, ou que era ilusão de ótica. Ele não faz nada da vida, tem dinheiro e tempo de sobra, então ficou parado na calçada, olhando fixamente para o relógio. Se fosse outra pessoa, já teria ido embora, ou, no máximo, teria ficado intrigado por um instante. Por isso digo, isso é destino.

Segundo Li Yang, Tong Suo ficou ali, entretido, atento ao relógio, e viu os ponteiros se moverem para trás, marca por marca, no sentido anti-horário. Não parecia defeito. Mesmo sem saber como seria um relógio quebrado, certamente não assim, com os ponteiros girando de modo tão regular.

Ficou ali por uns vinte minutos, observando os ponteiros retrocederem exatamente esse tempo.

Pelo tempo marcado, ele havia voltado vinte minutos ao passado.

Tong Suo notou que o fluxo do tempo ao redor seguia normal, as pessoas continuavam caminhando para frente, nada de andar para trás nem qualquer anomalia. Portanto, se havia alguma interferência, era só com o relógio.

— Na verdade, ele devia ter perguntado a outros pedestres, ver se os relógios deles também estavam andando para trás — comentei.

— Vejam só — Li Yang olhou para mim —, esse amigo tem razão, foi exatamente o que eu sugeri. Mas não somos ele. Tong Suo é um pouco lerdo, e quando pensou em comparar com outros relógios, de repente o ponteiro mudou de direção e voltou ao normal, girando no sentido horário.

Eu e Li Damin trocamos olhares.

— Segundo a descrição de Tong Suo, o ponteiro voltou à hora certa rapidamente, anulando a diferença de vinte minutos — disse Li Yang. — Se não fosse ele, outra pessoa nem perceberia a mudança.

Li Damin riu: — Por causa disso é que você se mudou?

— Sou obcecado por investigações, não ajo por impulso diante de um fenômeno isolado. Só decidi me mudar porque fiz o experimento eu mesmo.

Tong Suo contou o ocorrido ao amigo Li Yang, que, curioso, foi até o condomínio com relógio e despertador. Fizeram vários testes por dias, mas tudo estava normal, nada de ponteiros invertidos.

Li Yang sabia que Tong Suo não perderia tempo inventando história. Acreditou que o fenômeno realmente ocorrera ali.

Se ainda não haviam encontrado nada, havia algumas hipóteses: a inversão do tempo era raríssima, talvez acontecesse só a cada séculos, e Tong Suo teve sorte; ou então, era preciso estar em um ponto específico, numa orientação exata, e esse ponto mudava de acordo com algum padrão ainda desconhecido.

Enquanto ouvia, eu concordava em silêncio. Li Damin já era perspicaz, mas seu primo era ainda mais metódico e preciso.

Li Yang e Tong Suo ficaram por uma semana inteira no local, mais de doze horas por dia, inclusive virando noites.

Fiquei sem saber se ria ou admirava; que tipo de gente tem tempo para isso?

Mas o esforço valeu a pena. Eles descobriram.

Li Yang acendeu um cigarro: — Nossa suposição estava certa: o ponto de observação mudava, o horário também. Sem entrar em detalhes, percebemos um padrão: os locais onde o fenômeno ocorre, ligados, formam um círculo irregular, e o centro desse círculo é este prédio. Aqui tem coisa. Então eu e Tong Suo decidimos alugar um apartamento aqui, para acompanhar de perto.

Li Damin estalou a língua: — E se encontrarem a origem, o que vão fazer?

— Estamos falando de tempo invertido, meu caro — respondeu Li Yang. — O que mais se pode querer? Primeiro, temos que achar. Tempo é o que não nos falta.

Comecei a desconfiar que tudo isso estava relacionado a Ma Danlong.

Li Yang nos perguntou como viemos parar ali.

Li Damin me olhou, como a pedir permissão.

Pensei um pouco. Não havia nada a esconder, era apenas estranho. Dizem que três cabeças pensam melhor que uma, e, com o raciocínio de Li Yang, talvez ele pudesse nos ajudar.

Consenti com a cabeça.

Li Damin então começou a contar desde o quarto misterioso de Wang Yue, narrando tudo em detalhes para Li Yang, que ouvia boquiaberto, esquecendo até de fumar; a cinza longa caiu na calça, queimando-o, e ele quase pulou, limpando depressa.

— Então vocês estão aqui procurando Ma Danlong para achar o volume superior do Manuscrito Sombrio? — perguntou Li Yang.

— Exatamente. Mas não sabemos onde ele está, só que veio tratar da propriedade do condomínio.

Li Yang franziu o cenho: — Alteração no fluxo do tempo sugere interferência de alguma energia. Pelo que sabemos, só alguém como Ma Danlong seria capaz de algo assim. Ele é um servidor do submundo.

— Mas ele não é nenhum super-homem — contestou Li Damin. — No máximo sabe uns feitiços, mas fazer o tempo voltar?

Li Yang fez um gesto: — Não tire conclusões apressadas. Tem mistério aí. Será que Ma Danlong armou algum ritual, tipo máquina do tempo?

— Você anda vendo filmes de ficção, é? — riu Li Damin. — Máquina do tempo, veja só. Ma Danlong é mago, não cientista quântico.

Li Yang nos levou até a janela. Do vigésimo primeiro andar, víamos o condomínio inteiro. Em frente, havia outro edifício, com um jardim pequeno entre eles.

— Aquela é a torre um, estamos na torre dois. Notaram algo? — perguntou Li Yang.

Eu e Li Damin observamos. A torre um era comum, apenas outro prédio residencial alto.

De repente, reparei: — Ué, parece que aquela tem vinte e quatro andares?

Li Yang bateu forte no meu ombro: — Muito bem, percebeu. As duas torres têm quase a mesma altura, mas a nossa tem só vinte e um andares, e a torre A tem vinte e quatro! Entendem o que isso significa?

— Que nossa torre esconde três andares? — sugeriu Li Damin.

— Exato. Fui pesquisar, e moradores antigos disseram que, quando a torre dois foi construída, houve um incêndio nos andares nove, dez e onze. Felizmente, quase não havia moradores, ninguém se feriu. Depois, esses três andares foram desativados e nunca reabertos.

— Você desconfia daqueles três andares? — perguntei.

— Sim. O problema é que não conseguimos chegar lá. Já tentei pelas escadas, mas entre o nono e o décimo primeiro tudo está fechado com cimento. Não tem como entrar. E no elevador, esses andares nem aparecem. O nono andar do painel é, na verdade, o décimo segundo. Se prestarem atenção, verão que o tempo entre o oitavo e o nono andar é bem maior, pois o elevador salta três andares.

Li Damin assentiu: — Se tem algo estranho, deve ser lá.

— Isso. Agora, como entrar? — Li Yang lambeu os lábios e, de repente, sorriu.

— Já pensou em algo, não foi? — Li Damin, que conhecia bem o primo, percebeu logo.

Li Yang riu alto: — Calma, calma, primeiro vamos comer. Depois, chamo um convidado especial.

Ele pegou o celular e mandou uma mensagem. Conversamos mais um pouco, e logo era final de tarde, quase seis horas, quando bateram à porta.

— Chegou — disse Li Yang, indo abrir.

Entrou um rapaz rechonchudo, vestindo macacão azul, bermudão e sandálias antigas, com ar de quem acabou de sair do trabalho na fábrica.

O rapaz era muito extrovertido e nos cumprimentou como velhos conhecidos. Li Damin riu: — Há quanto tempo! — e os dois se abraçaram.

— Lin Cong, deixa eu apresentar — disse Li Damin. — Este é um grande amigo, e também companheiro da Liga da Luz...

O gordinho interrompeu: — Melhor dizer cúmplice!

— Hahaha, certo, este cúmplice se chama Tong Suo — apresentou Li Damin. — Tong Suo, este é meu amigo Lin Cong.

— Me chamou só pra conhecer um amigo? — perguntou Tong Suo, descontraído.

Logo captei uma palavra dele: “me chamou pra cima”. — “Pra cima”? Você veio de baixo? — perguntei.

Tong Suo riu: — Lin, você é mesmo atento. Li Yang alugou um apê no vigésimo primeiro, eu dei sorte e aluguei no nono. Moro logo abaixo.

— No nono? Mas não é o décimo segundo de verdade? — lembrei-me.

— Isso — ele olhou para Li Yang. — Vejo que já contaram tudo. Melhor assim, economiza papo. Sabem por que moro no, digamos, décimo segundo andar? Sabem o que faço lá?

Intuí: — Será que você já encontrou um jeito de entrar naqueles três andares abandonados?