Capítulo Cinco: Engrenagens

O Código do Além O programador audacioso 3127 palavras 2026-02-09 14:06:04

O mais estranho naquele quarto eram as paredes, cobertas por pinturas em tinta e água, dominadas por um tom amarelo-escuro. Algumas mostravam nuvens brancas revolvendo-se, outras retratavam montanhas envoltas em neblina, e uma em especial chamava ainda mais atenção: retratava um grupo de pessoas desconhecidas em torno de alguém que parecia um feiticeiro, que segurava um casco de tartaruga onde gravava caracteres, tendo ao fundo uma floresta montanhosa sob nuvens carregadas.

Caminhávamos por ali e eu sentia uma atmosfera de maldade difícil de definir, enquanto Li Damin observava tudo com grande interesse, especialmente o mural das figuras humanas, que fotografou com o celular.

— Conseguiu entender do que se trata? — perguntei.

Li Damin iluminou o mural do feiticeiro com a lanterna:

— Não percebe?

Perguntei o que ele queria dizer.

— Nos tempos antigos, as pessoas previam a sorte queimando cascos de tartaruga, interpretando as fendas para prever o destino. — explicou Li Damin. — A tartaruga era considerada mística. Diz a lenda que uma tartaruga divina emergiu do Rio Luo trazendo o Livro de Luo; Fuxi, ao vê-la, se iluminou e criou o Bagua e o Livro das Mutações. Este é o cosmograma mais antigo do taoismo.

Ele passou a lanterna pelo cômodo, observando os murais:

— Muito interessante. Sabe o que sinto?

— O quê? — minha garganta subia e descia.

— Isto não parece um quarto, mas um túmulo ancestral. Estes murais são pinturas funerárias, expressando algum desejo ou súplica do falecido.

— Espere — interrompi, confuso. — Este é o quarto de Wang Yue. Não foi para me mostrar isso que ela me chamou… Será que ela já…? — apontei para o caixão preto no centro do quarto.

Li Damin coçou a cabeça, deu uma volta ao redor do caixão:

— O segredo deve estar aqui dentro. Precisamos abri-lo.

Sua presença me acalmava. Agora, sentia mais curiosidade e preocupação. Por que Wang Yue criou esse cenário? Um caixão, murais… O que ela pretendia? E como estaria agora?

Lembrei do seu estranho sonambulismo naquela noite e um arrepio me percorreu. Esses elementos misteriosos ultrapassavam minha compreensão, eram impossíveis de encaixar numa lógica razoável.

Li Damin bateu e examinou o caixão com a lanterna. O exterior era simples, feito de tábuas pretas bem encaixadas, sem pregos, de aparência rústica e, ao mesmo tempo, refinada.

Ele deu várias voltas ao redor, mas não encontrou como abri-lo. A tampa estava perfeitamente selada ao corpo do caixão; tentamos levantá-la com todas as forças, mas não se mexeu.

— A técnica é impressionante, será encaixe de carpinteiro, como nas lendas? — disse Li Damin.

— Sei, sem pregos, só encaixes de madeira. — respondi.

— Exatamente — ele assentiu. — Perfeição absoluta. Se for isso, não adianta força. Deve haver algum mecanismo.

— Mecanismo? — questionei.

— Wang Yue te mandou várias mensagens. Ela deixou dicas suficientes para entrarmos no prédio e chegarmos aqui. Veja se encontra alguma senha ou pista para abrir este caixão.

Peguei o celular e revisei as mensagens de Wang Yue. A senha numérica já fora usada, o restante eram só mensagens insistentes e histéricas para que eu viesse. Revisei duas vezes, balancei a cabeça e avisei Li Damin que não havia nada útil.

Ele pareceu desconfiar da minha inteligência, tomou meu celular e se agachou para analisar.

Enquanto isso, caminhei lentamente ao longo das paredes, examinando os murais. Fiquei impressionado com a habilidade artística: traços delicados, uso ousado da tinta, um vigor que saltava da pintura. Olhando por muito tempo, sentia-me tonto, a mente tomada por um fascínio quase hipnótico.

Seriam obras de Wang Yue? Se fossem, jamais imaginei que ela tivesse tal talento.

Andando, senti-me como se tivesse entrado num romance de saqueadores de túmulos. Sozinho num corredor sombrio, sentia um terror impossível de descrever.

Então, parei de repente. Algo num canto da parede chamou minha atenção.

No instante em que vi, a sensação de estar fora da realidade foi ainda mais forte, como se eu tivesse sido transportado para um túmulo da antiguidade. Não conseguia distinguir sonho de realidade, o corpo imóvel, mas o coração disparado, sinalizando que eu ainda estava consciente.

Sacudi a cabeça, respirei fundo, recuperei a lucidez e iluminei o canto com a lanterna.

Ali, estava um altar em formato de Bagua, não maior que uma bacia, aparentemente feito de metal negro, absorvendo a luz de tal forma que nenhuma iluminação conseguia clareá-lo.

No altar, nos pontos correspondentes aos olhos do peixe do Taiji — um preto, outro branco — havia dois lampiões de bronze, de formato antigo.

Chamei:

— Damin, venha ver isto.

Ele se aproximou e devolveu meu celular:

— Realmente, não há nada útil nas mensagens.

Ao ver o altar, trocamos um olhar cúmplice.

— Isso está cada vez mais interessante — ele sorriu.

— Não seria melhor chamar a polícia? — sugeri em voz baixa. A situação saía do controle, cheia de coisas impossíveis de entender.

Achei que ele fosse discordar, mas, surpreendentemente, respondeu:

— Melhor acharmos Wang Yue primeiro — e apontou para o caixão.

Já tínhamos certeza: Wang Yue estava ali dentro. Só abrindo o caixão poderíamos encontrá-la.

Se ela estava mesmo ali, só havia uma explicação: ela entrou e fechou o caixão por dentro. Uma garota sozinha não teria força para selar a tampa daquele jeito; só podia ser algum mecanismo.

— E se acendermos os lampiões? — sugeri, sem saber de onde tirara a ideia.

Li Damin concordou:

— Também pensei nisso.

Tirou um isqueiro do bolso, aproximou-se do altar, acendeu a chama e, com as mãos trêmulas, aproximou-a do pavio de um dos lampiões. Observei, tenso; a chama vacilou, o pavio pegou fogo e uma fumaça branca subiu, dissipando-se rapidamente no ar.

Li Damin tapou o nariz e recuou, com um semblante sombrio.

Aproximei-me e senti um aroma leve pairando sobre a chama.

— Tem cheiro de incenso — murmurei.

— Pode ser veneno — disse Li Damin, sério.

— Você está exagerando. Não estamos num romance de artes marciais — rebati, tomando o isqueiro de sua mão. — Acendo o outro.

Ele concordou com um gesto.

Ajoelhei-me, acendi o segundo lampião; a chama dançou, o pavio queimou lentamente e outra fumaça branca subiu. Não consegui evitar e inspirei o cheiro, que era ao mesmo tempo sutil e intenso, penetrando profundamente no nariz, causando um torpor que me deixou a face dormente.

Levantei-me depressa e devolvi o isqueiro.

— Agora, se for veneno, estamos ambos ferrados — Li Damin forçou um sorriso.

Nesse instante, um ranger ecoou na escuridão.

Um calafrio percorreu minha nuca; olhei na direção do som junto com Li Damin. Vimos, com espanto, a enorme tampa do caixão negro mover-se lentamente!

— Abriu? — custei a acreditar.

— Entendi! Os lampiões acionam o mecanismo — Li Damin engoliu em seco.

Nos entreolhamos, ambos pálidos de medo. Desde o início, desde que recebi a mensagem, descodifiquei a senha do prédio, até este momento de abrir o caixão com os lampiões… Parecia que eu caminhava, passo a passo, numa armadilha indefinida, cada etapa preparada por Wang Yue.

Mas por quê? Por que ela empenharia tanto esforço por mim?

Li Damin entrou de curioso nessa história, sem ter nada a ver, e acabou envolvido.

De repente, algo me ocorreu — uma questão impossível de explicar… Mas antes que pudesse raciocinar, Li Damin me chamou para irmos juntos até o caixão. O pensamento se dissipou e não consegui mais recuperá-lo.

Aproximei-me com ele, mas fui impedido de chegar mais perto. Paramos a três passos; Li Damin iluminou o interior do caixão com a lanterna.

A tampa só abrira uma fresta, suficiente para dizer que estava aberta. Dentro, tudo era escuridão; a luz só alcançava as bordas, impossível ver claramente. Ainda assim, sentia fortemente que havia alguém ali, provavelmente Wang Yue.

Observar à distância não era suficiente; precisávamos abrir a tampa por completo.

Aproximamo-nos, cada um de um lado, e empurramos a tampa para fora. Para nossa surpresa, era leve, apenas uma fina tábua. Colocamo-la no chão, revelando todo o interior do caixão.

Li Damin voltou a iluminar lá dentro, e eu olhei junto; a luz revelou instantaneamente o que havia no caixão.

Nossos olhares se cruzaram, incrédulos, tomados por espanto e dúvida.