Capítulo Vinte e Sete: Derrota
Por muito tempo, não obtive resposta de Maria da Lua. Uma sensação de mau presságio tomou conta de mim. “Maria da Lua, você está bem?”
“Que horas são?” Ela perguntou de repente, com uma voz incrivelmente suave.
“Quando entrei já eram onze e meia, logo será meia-noite.” Respondi devagar.
A voz de Maria da Lua tornou-se cada vez mais etérea, como se se afastasse com as ondas d’água. “Lin Sábio, obrigada por toda a ajuda e dedicação nesse tempo. Nosso destino acaba aqui. Fique tranquilo, o acordo que firmei com Dona Meng para prender sua alma e espírito expira neste momento, não afetará sua vida futura. Seja conseguindo salvar meu pai ou ficando presa no limbo eternamente, assim que houver um desfecho, sua alma retornará.”
Ao ouvi-la, soltei um longo suspiro, mas senti-me um tanto desleal. Estive ocupado por vários dias, e de fato nunca me preocupei com Maria da Lua, só pensava em sair seguro dessa história.
“Lin Sábio, desculpe-me por lhe causar tantos problemas.” Ela disse baixinho: “Quando o quarto encher de água, minha alma se dispersará. Tenho um último pedido.”
“Diga.”
Ela falou suavemente: “Nesta última meia hora, não vá embora, fique comigo, me acompanhe neste fim.”
Senti uma pontada no coração. Afinal, Maria da Lua e eu vivemos momentos muito bonitos e felizes. Mesmo que não possa dizer que a amo, ainda há um laço entre nós.
Murmurei: “É o mínimo que posso fazer.”
Não falamos mais. Minha mão repousava na parede, como se ela fosse Maria da Lua. O tempo passou, minuto a minuto. No silêncio, ela disse de repente: “Quando passar da meia-noite, pegue o bracelete que deixei para você, é meu último presente.”
Respondi com um murmúrio.
“Talvez esse bracelete não tenha utilidade para você no futuro, mas é uma lembrança. Só que,” continuou ela, “você deve guardá-lo para si, não entregue a ninguém, nem ao Tio Zhong.”
Fiquei em silêncio por um instante e confirmei.
“Mais uma coisa,” acrescentou, “no fundo do armário da sala está meu cartão comercial. O dinheiro ali não tem mais utilidade para mim, fica com você. A senha é seu aniversário.”
Ao ouvir isso, senti como se flechas atravessassem meu coração. Pude perceber o amor de Maria da Lua, ela realmente gostou de mim. E eu?
Enquanto pensava, ela continuou: “Depois que eu morrer, não se preocupe com meu corpo, alguém vai cuidar disso. Amanhã cedo, leve o Tio Zhong e vá embora. Após trancar a porta, há um botão de reinicialização sob o teclado da senha, basta apertá-lo e a senha será redefinida. Depois, você não precisa mais voltar. Tudo já está arranjado, não vou lhe dar mais trabalho.”
“Maria da Lua, você…” Fiquei emocionado, aquela moça tocou-me profundamente.
“Pronto, a água está subindo, o tempo acabou.” Sua voz soou dolorida. “Adeus, Lin Sábio, até a próxima vida. Ah, não, minha alma se dispersará, não haverá próxima vida. Deixe que minha lembrança viva em sua memória, não me esqueça. Quero deixar ao mundo um último rastro de saudade…”
E então, o silêncio.
Todo meu corpo ficou arrepiado. “Maria da Lua, Maria da Lua…”
Atrás da parede, nenhum som, apenas uma morte repentina e absoluta.
Minha cabeça pesava, meu corpo estava fraco. Maria da Lua morreu? Assim, simplesmente? Uma pessoa viva, que esteve tão presente na minha vida, desapareceu.
Retirei o bracelete da parede e o coloquei lentamente no pulso. A mente confusa, sem vontade de pensar em nada, preferi esperar até a manhã seguinte, quando estivesse mais calmo, para organizar meus pensamentos.
Ao sair do espelho, o Tio Zhong olhou para mim, sem perguntar nada. Pela minha expressão, ele deve ter entendido o que aconteceu.
Fomos para a sala.
Ele tirou um cigarro e me entregou. Peguei, ele perguntou: “Ela não conseguiu, né?”
Assenti, a garganta amarga, sem conseguir falar.
“E você?”
Suspirei: “Maria da Lua e Dona Meng assinaram um acordo sobre minha alma, travado neste ponto. Não importa se a missão foi cumprida ou não, minha alma voltará.”
Tio Zhong deu um tapinha no meu ombro, espreguiçou-se no sofá: “Dentro do azar, foi sorte. E quanto ao corpo dela?”
Respondi: “Ela disse que já está tudo arranjado, alguém vai cuidar. Amanhã de manhã, só precisamos ir embora.”
“Ela disse mais alguma coisa?”
Falei a verdade: “Ela deixou esse bracelete para mim.” Mostrei o pulso. “Também deixou um dinheiro.”
Tio Zhong olhou para o bracelete, mas não disse nada.
“Maria da Lua pediu que não desse esse bracelete a ninguém, só eu posso usar.” Reforcei.
Ele sorriu, balançou a cabeça, fechou os olhos e pediu para apagar a luz, queria descansar bem e partir pela manhã.
Fui até a parede, apaguei a luz da sala. No escuro, ouvi a voz dele: “Espero que nunca nos esqueçamos, mesmo longe.”
Entrei no quarto, joguei-me na cama, a mente uma mistura confusa de pensamentos, adormeci profundamente.
No sono mais pesado, não sei se sonhei ou foi real, senti alguém entrar no quarto e fazer um gesto sobre minha cabeça, parecia o Tio Zhong, senti uma força sendo retirada de mim. Depois, senti outra presença, como se fosse eu mesmo, esse “eu” cambaleou e deitou sobre mim, fundimo-nos num só.
Tudo aconteceu de forma estranha e rápida, parecia compreender: Tio Zhong levou de volta o espírito que me emprestou, e minha própria alma foi liberada por Dona Meng e voltou ao meu corpo.
Ao despertar, o dia já estava claro, sem cortinas, o sol batendo no rosto. Sentei-me, ainda meio entorpecido, olhei o relógio, eram seis da manhã.
Dormira seis horas, mas parecia que não dormira nada. Encostei na cabeceira, acendi um cigarro e fiquei recordando o que acontecera ontem, tudo parecia distante e nebuloso.
Depois de muito tempo pensando, percebi que Maria da Lua estava morta, senti como se uma agulha me espetasse o coração.
Fui à sala, vi que estava vazia, Tio Zhong já tinha partido. Sobre a mesa, um bilhete escrito à mão, com traços vigorosos: era dele, apenas dois caracteres: Cuide-se.
Dei uma volta pelo apartamento, ainda era cedo, não precisava sair. Estava cansado, queria descansar mais. Com a saída do Tio Zhong, o ambiente parecia mais leve.
Na noite anterior, Maria da Lua mencionou que havia deixado um dinheiro para mim. Pensei se deveria aceitar. Por consideração, parecia errado, mas racionalmente, devia aceitar, ao menos para devolver o valor que Li Damin adiantou ao Tio Zhong, quase dez mil.
Se não fosse essa situação com Maria da Lua, eu não teria chegado a esse ponto.
Enquanto pensava, ouvi um som vindo do quarto. No início, não dei atenção, mas logo percebi algo estranho e levantei de um salto. Esta casa só tem eu, por que haveria som?
Olhei para o quarto, justamente o lugar onde estava o corpo de Maria da Lua. Sem motivo, senti medo, o silêncio era tenso.
Se ao menos Tio Zhong não tivesse ido embora, eu teria mais coragem.
Nesse instante, ouvi outro ruído vindo do quarto, como algo sendo esfregado. Desta vez, era claro, não parecia acaso, era intencional e ritmado.
Limpei o suor frio da testa, pensei numa possibilidade: poderia algo do limbo ter escapado? O espelho era um portal entre o mundo dos vivos e o limbo; se eu podia entrar, algo poderia sair.
Meu Deus, será um fantasma?
Fiquei assustado, quis sair, mas não conseguiria ir embora sem entender o que estava acontecendo. Antes de partir, precisava arrumar tudo, além do corpo de Maria da Lua estar lá, e por respeito aos mortos, não poderia deixar que algo profanasse o lugar.
Fui até a porta do quarto, sem encontrar nada para me proteger, peguei um esfregão no banheiro. Segurei firme, respirei fundo e chutei a porta.
Quando abriu, fiquei paralisado.
A fumaça escura havia sumido, o quarto estava claro e visível. Vi alguém sentado dentro do caixão, usando uma máscara, que lentamente virou a cabeça para mim.
Senti o sangue ferver, parecia ter entendido, mas também suspeitei: Maria da Lua já tinha desaparecido, só restava o corpo, será que um espírito maligno do limbo tomou conta?
Percebi que quem estava no caixão me observava. Fiquei parado na porta, segurando o esfregão, quase sem respirar.
A pessoa se levantou, tirou a máscara devagar, revelando um rosto delicado e pálido: era Maria da Lua. Olhou para mim e disse suavemente: “Lin Sábio.”
“Você… você não já…” Mal consegui falar.
Ela cambaleou, e instintivamente entrei para ajudá-la, mas hesitei. Maria da Lua me lançou um olhar de censura: “Venha!”
Aquele jeitinho era típico dela. Respirei fundo, aproximei-me e a ajudei a sair do caixão.
“Lin Sábio,” ela me olhou, com uma expressão radiante: “Eu ainda estou viva.”