Capítulo Quinze: Canalha

O Código do Além O programador audacioso 3183 palavras 2026-02-09 14:06:22

No caminho, discutíamos como seria esse tal de Caio Cheng. Eu estava um pouco apreensivo: e se, ao chegarmos ao vilarejo de Longshan, não conseguíssemos encontrá-lo? A probabilidade disso acontecer era grande, afinal, Caio Cheng, na época, era apenas um trabalhador de fora. Depois de ter violentado Wang Yue, será que ele não teria fugido do vilarejo?

Já se haviam passado mais de dez anos, tudo era possível.

Em silêncio, eu rezava para que encontrássemos Caio Cheng. Caso contrário, eu também estaria perdido.

Depois de pouco mais de duas horas, finalmente chegamos ao distrito de Longshan. O vilarejo de Longshan fica alguns quilômetros além da cidade, então, quando terminamos o trajeto, já passava das nove da manhã.

A aldeia ficava abaixo da estrada, aninhada entre montanhas e o rio, com nuvens e névoa flutuando pelo céu. Sob elas, subia a fumaça das lareiras, como se estivéssemos em um refúgio idílico, cercados pelo som de galos e cães.

Deixamos o carro à beira da estrada e seguimos por uma trilha até a entrada da aldeia. Não era um vilarejo nem muito pequeno nem grande, devia ter algumas centenas de famílias. Mas onde encontraríamos Caio Cheng?

Liu Damin era experiente em lidar com pessoas. Foi direto ao mercadinho na entrada do vilarejo, enquanto eu e Tio Zhong esperávamos do lado de fora. Uns dez minutos depois, ele saiu trazendo pães, salsichas e alguns laticínios.

— Você é atencioso demais — brinquei. — Nem precisava se preocupar com o café da manhã.

Liu Damin me lançou um olhar: — Achou que fui lá comprar café da manhã pra vocês? Fui sondar o dono do mercadinho sobre Caio Cheng. As compras foram só o preço da informação. De qualquer modo, estávamos de estômago vazio. Vamos comer antes de seguir adiante.

Do lado de fora, havia um banco. Sentados, começamos a comer enquanto Liu Damin contava o que tinha descoberto: havia, sim, um tal de Caio Cheng na aldeia, mas não sabia se era o mesmo que procurávamos. Segundo o dono do mercadinho, Caio Cheng era conhecido por ser encrenqueiro, teimoso como um burro. Uma vez, teve um desentendimento com o chefe do vilarejo e, tomado pela raiva, quase destruiu a casa do homem com uma enxada. Por isso, chegou a passar alguns dias preso. Depois disso, ninguém mais ousava provocar o sujeito. Ele tinha dois filhos, ambos largaram a escola ainda no ensino fundamental. Não aprenderam nada de bom: brigar, xingar e jogar videogame, nisso eram mestres. Esses dois moleques eram ainda piores que o pai, de coragem para ferir alguém com faca, se preciso.

Se eu estivesse sozinho diante de um pai e filhos tão violentos, teria ido embora no mesmo instante. Minha postura diante de gente assim sempre foi manter distância. Mas, com Liu Damin e Tio Zhong ao meu lado, a coragem aumentava.

Terminamos de comer e seguimos pela trilha indicada pelo dono do mercadinho, atravessando a aldeia até uma casa no extremo oeste. Chegando ao portão, ouvimos uma algazarra de galinhas e cães e gritos de discussão. Vários moradores espiavam por sobre o muro, com expressões de quem se divertia com a desgraça alheia.

Avançamos até o portão de ferro, que estava escancarado. Lá dentro, dois discutiam aos berros: um homem de meia-idade, pele queimada de sol, vestindo só uma regata, e um rapaz ainda adolescente, rosto jovem, mas com um bigodinho precoce escurecendo o lábio superior. O rapaz era até bonito, não fosse o olhar feroz e cruel. Apontava o dedo para o homem e xingava, Caio Cheng, seu filho da…

As palavras do garoto me deixaram vermelho de vergonha, mas ele as disparava sem pudor, misturando o sotaque local — fluente e sem trégua.

O homem era Caio Cheng, magro e musculoso, pele tão escura que parecia ter vindo da África. Tomado pela raiva, ele pegou uma pá: — Seu imprestável, devia nunca ter te posto no mundo, que pecado o meu, criar um traste desses!

Avançou para bater no filho, e o garoto, em vez de fugir, partiu para cima do pai. Eu, de lado, só podia admirar: pai bravo, filho não fica atrás.

Eles se enfrentavam como inimigos mortais, pareciam mais rivais sedentos de vingança do que pai e filho. A diferença de forças era enorme, e o filho, sem armas adequadas, logo percebeu que não teria chance, virou-se e correu. Caio Cheng, empolgado, não deixou por menos e deu início a uma perseguição desenfreada pelo quintal.

— E agora? — murmurei.

Tio Zhong, a girar as contas do terço, manteve-se impassível: — Vamos observar mais um pouco.

Nesse momento, outro rapaz saiu da casa. Devia ser o outro filho de Caio Cheng, com idade semelhante ao que apanhava. Vendo o pai e o irmão se enfrentando, não fez menção de apartar, apenas sentou-se com uma tigela de macarrão e, entre garfadas, torcia: — Força, força!

Um velho que assistia à cena comentou, suspirando: — Essa família só pode estar pagando pecado antigo, tudo quanto é desgraça caiu nesse lar. Deve ser coisa de antepassados sem mérito.

Caio Cheng alcançou o filho, derrubou-o com um chute. Pelo menos não foi cruel a ponto de usar a pá; preferiu segurar o garoto com o pé e sacar o cinto da cintura. Os braços rústicos, calejados de trabalho, brandiram o cinto com violência, e os estalos secos ecoavam no quintal. O menino gritava, mas era teimoso, não pedia clemência, até ria: — Me mata logo! Vai, me mata! Vai se ferrar, seu…

Liu Damin comentou, impressionado: — Se esse moleque for bem orientado, um dia vira alguém importante, tem jeito pra bandido.

Caio Cheng ergueu o filho, amarrou-lhe os pulsos numa corda pendurada num poste do quintal e o suspendeu para continuar a surra.

Não aguentei mais e me virei para Tio Zhong: — Não devíamos fazer alguma coisa? Isso vai acabar mal.

Um dos moradores sussurrou: — Vocês não são daqui, não sabem. Lá em casa, apanhar é rotina, os meninos já estão acostumados, são duros na queda. Se vocês se meterem, acabam apanhando também.

Olhei para Tio Zhong e Liu Damin, que nada disseram.

Eu estava certo: o homem que violentou Wang Yue só podia ser esse Caio Cheng à minha frente. A tarefa era difícil demais, tratar com um sujeito desses era coisa para quem tem nervos de aço. Que tipo de resposta conseguiríamos arrancar dele?

Caio Cheng manteve o filho pendurado e espancou-o por mais uns bons minutos antes de soltá-lo. Eu achei que o garoto sairia quase morto, mas assim que caiu no chão e teve os pulsos desamarrados, escapou como um peixe liso, correu até o portão, misturou-se à multidão e ainda provocou: — Caio Cheng, fica aí passando raiva, eu tô bem! Um dia você vai envelhecer, e aí quero ver como vai se virar comigo!

E desapareceu, ligeiro.

Caio Cheng, irritado, xingava sem parar, olhou feio para os curiosos e disparou um palavrão, enxotando a todos.

Aos poucos, a multidão foi se dispersando.

Tio Zhong hesitou na entrada, provavelmente ponderando se valia ou não a pena abordar Caio Cheng diretamente. Neste momento, ele percebeu nossa presença. O olhar era hostil; talvez tenha reparado em nosso jeito de cidade grande e, por isso, conteve-se.

Liu Damin se aproximou: — Olá, você é Caio Cheng?

Ele nos fitou gelidamente, amarrando a corda no poste: — E daí?

Liu Damin olhou para nós e Tio Zhong fez um gesto, sinalizando que ele podia continuar.

— Viemos aqui para lhe perguntar sobre um fato antigo.

— Que fato? — respondeu Caio Cheng, seco. — Não sei de nada.

Liu Damin pensou um instante, tirou o celular: — É uma consulta simples. Se você puder nos dar informações úteis, eu lhe pago um bom dinheiro.

Ao ouvir falar de dinheiro, os olhos de Caio Cheng brilharam: — Fala logo, o que é?

— Cerca de doze ou treze anos atrás… — começou Liu Damin. Caio Cheng semicerrava os olhos, buscando na memória.

— Havia uma menina na aldeia, chamada Wang Yue. Você por acaso a conhece? — Ao ouvir isso, Caio Cheng reagiu violentamente, gritou: — Não conheço! Eu vim de fora, não sou daqui, vai procurar em outro lugar!

— Eu pago bem — insistiu Liu Damin.

— Paga uma ova! — gritou Caio Cheng, agarrando a pá e ameaçando Liu Damin, que se afastou às pressas.

Corremos, sem olhar para trás, até termos certeza de que ele não nos seguia. Liu Damin respirou fundo: — Que sujeito desprezível!

Eu, irritado, disse: — E agora? Com um tipo desses, não adianta argumentar, impossível conversar. Como vamos seguir adiante?

Tio Zhong ponderou: — Se não dá pelo caminho direto, teremos que pensar em uma estratégia indireta.

Discutimos por um tempo, mas nenhuma das ideias parecia viável.

Já era quase meio-dia. Fomos até uma casa de família na entrada da aldeia para almoçar. O calor era intenso, sentamos do lado de fora, à sombra. Conferi o relógio: metade do dia já tinha passado. Precisávamos terminar a missão até o anoitecer; caso contrário, Wang Yue ficaria presa para sempre e eu seria reduzido à idiotice…

A aflição tomava conta de mim; não conseguia nem comer. Liu Damin, ao contrário, comia com apetite e ainda serviu cerveja gelada, dizendo que o almoço era por sua conta.

Tio Zhong não conversava, girava as contas entre os dedos, absorto em pensamentos. Toda nossa esperança depositada nele.

— E então, Tio Zhong, pensou em algo? — perguntei.

Ele respondeu, pausadamente: — Se os métodos comuns falham, resta tentar o meu caminho.

Meus olhos brilharam: — Vai recorrer à magia?

Ele não respondeu, apenas fechou os olhos, recolhendo-se em silêncio. Eu, ansioso, queria insistir, mas, vendo seu semblante, engoli as palavras.

Nesse momento, uma voz soou ao nosso lado: — Quanto dinheiro vocês têm?

Eu e Liu Damin viramos a cabeça. De repente, ali ao nosso lado estava um rapaz adolescente, traços bonitos, mas o rosto sujo e as roupas imundas.

Era o filho de Caio Cheng, o mesmo que torcia pelo irmão enquanto comia macarrão.